Um dos cineastas que mais correm festivais pelo mundo, Marcelo Gomes apresenta 'Dolores' na Mostra de Tiradentes e integra o júri da seção Tiger em prestigiado evento holandês
Às 21h desta sexta-feira, quando "Dolores" estiver a rasgar corações na Mostra de Tiradentes, às vésperas de o festival mineiro terminar, um de seus diretores, o pernambucano Marcelo Gomes, já vai estar enfurnado em seus compromissos como júri da competição principal da maratona cinematográfica de Roterdã, na Holanda. É ela que abre o circuito anual das grandes disputas cinéfilas do mundo. Entre suas muitas sessões, a Tiger é a menina dos olhos da quipe de programação holandesa. O longa supracitado, que o realizador egresso lá do Recife codirigiu com Maria Clara Escobar, abriu sua carreira na Espanha, em setembro, em outro evento de peso: San Sebastián. Sua passagem por terras bascas comprova a vocação de Marcelo para singrar as telas do planeta. Premiado em Cannes, há 21 anos, com "Cinema, Aspirinas e Urubus", esse artista lá de PE apresentou filmes em Veneza, Toronto e Roterdã, além de ter vencido o Festival do Rio com "Paloma" (2022). Encontrou seu porto mais seguro na Berlinale. Concorreu ao Urso de Ouro com "Joaquim", em 2017, e passou pela Alemanha ainda com um documentário ("Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar") e a ficção ensaística ("O Homem das Multidões", rodada em duo com Cao Guimarães). Em 2025, voltou à capital alemã pelo Berlinale Series Market, com os episódios de "Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente", hoje na HBO Max, cuja produção é da Morena Filmes (de Mariza Leão). Roterdã acolheu sua mirada sobre os afetos em 2024, com "Retrato de um Certo Oriente".
"Eu faço cinema de personagens. Meus personagens é que direcionam toda a narrativa. Antes de fazer cinema, eu tinha um cineclube. Lá, eu fiz da cinefilia a minha escola. As referências cinéfilas que adquiri nessa época seguem habitando minha mente. Logo, quando vou contar uma história, os elementos de cinema de gênero aparecem, mas, antes de tudo, aparece o personagem. O que eu busco no meu cinema é contar a história como o meu personagem diz que ela tem que ser contada", explicou Marcelo ao Correio da Manhã ao levar "Dolores" a San Sebastián, com Maria Clara.
Sua dramaturgia com cores de melodrama é uma herança do amigo Chico Teixeira (1958-2019), diretor de "Ausência" (2014) e de "A Casa de Alice" (2007), cujas atrizes principais, Gilda Nomacce e Carla Ribas, servem como reatores nucleares a "Dolores".
"Ouvi um comentário ótimo sobre esse filme: 'Ele é uma ode à lantejoula'. Fomos por aí mesmo, pelo colorido, e Chico ia gostar. Suas cores revisitam a noção que a gente faz da classe média baixa a partir do desejo de viver, da alegria", explica Marcelo.
Há cinco meses, San Sebastián riu, ficou tenso e chorou diante das peripécias da vendedora de roupas íntimas Dolores (Ribas), que chega aos 65 anos assolada pelo vício em jogo. Não por acaso, seu projeto para o futuro é abrir um cassino, apoiada em um sonho premonitório de êxito. As visões que tem não a livraram de perder muita coisa, entre elas o apreço de sua única filha, a também comerciante de lingerie Deborah (Naruna Costa, um vulcão na tela). Ela suspeita de que seu pai morreu de desgosto com a dependência de Dolores, sua companheira, em apostas. Já Duda (vivida por Ariane Aparecida) é mais compreensiva com a avó. Trabalha numa loja de armas, atira bem à beça e sonha em se mudar para os EUA, a fim de poder aproveitar a vida com mais conforto.
A fotografia de Joana Luz e a atuação estonteante de Roney Vilella como Bigode, o quase namorado de Dolores são trunfos a mais do longa, que Tiradentes confere nas sessões de sua praça, ao ar livre. Enquanto isso, em Roterdã, Marcelo estará julgando filmes até o dia 8 de fevereiro ao lado de um time de juradas e jurados de respeito: a atriz iraniana Soheila Golestani, a diretora e também intérprete franco-grega Ariane Labed, a diretora artística do London BFI Film Festival Kristy Matheson e o escritor croata Jurica Pavicic. Na briga por troféus está a produção brasileira "Yellow Cake", de Tiago Melo, que explora um acidente radioativo nos confins do país. Tânia Maria, a Dona Sebastiana de "O Agente Secreto", integra o elenco.
Concorrem com Tiago as produções "La belle année", de Angelica Ruffier (Suécia); "A Fading Man", de Welf Reinhart (Alemanha); "The Gymnast", de Charlotte Glynn (EUA); "A Messy Tribute to Motherly Love", de Dan Geesin (Países Baixos); "My Semba", de Hugo Salvaterra (Angola); "Nangong Cheng", de Shao Pan (China); "O Profeta", de Ique Langa (Moçambique); "Roid", de Mejbaur Rahman Sumon (Bangladesh); "Supporting Role", de Ana Urushadze (Geórgia); "Unerasable!", de Socrates Saint-Wulfstan Drakos (Bélgica); "Variations on a Theme", de Jason Jacobs e Devon Delmar (África do Sul). "O Agente Secreto" está em projeção em Roterdã também, mas em seção paralela.