Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Gerais de Paulo Cezar Saraceni

Paulo Cezar Saraceni trocou o futebol pelo cinema após assistir 'Ouro e Maldição', de Erich von Stroheim, e rodou seu primeiro longa em 1962 | Foto: Alexandre C. Mota/Divulgacao

Homenageado na abertura de Tiradentes há 15 anos com 'O Gerente', que segue inédito desde então, diretor carioca que foi craque do Fluminense segue inspirando invenções

Ao abrir a sua 29ª edição com um experimento do transgressor profissional Júlio Bressane (o curta "O Fantasma da Ópera"), a Mostra de Tiradentes bate cabeça para o cinema de invenção, uma vertente histórica do audiovisual no país que o festival mineiro já havia acolhido em suas cerimônias de inauguração no passado quando exibiu "O Gerente", em 2011. Lá se vão 15 anos desde a sessão de gala desse longa-metragem, que foi o canto de cisne do carioca Paulo Cezar Saraceni (1932-2012) - reconhecido entre as inspirações de Bressane.

Sem pedir licença à nossa saudade, Saraceni morreu há 14 anos, deixando em seu legado cults como "O Desafio" (1965) e "A Casa Assassinada" (1970), que escreveram seu nome no panteão de excelência de nossa produção cinematográfica. Apesar disso, seu trabalho de despedida limitou-se a passar pela maratona das Gerais e por cinematecas, sem jamais encontrar lar no circuito exibidor.

Em 2023, o Festival de Petrópolis, prestou uma homenagem póstuma ao realizador, exibindo "O Viajante" (1998), "Arraial do Cabo", de 1959 (curta que foi laureado com o Prêmio Henri Langlois da Cinemateca Francesa), e "Ao Sul do Meu Corpo", que foi exibido na Berlinale em 1983. Berlim se encantou com essa versão lúdica do conto "Duas Vezes Com Helena", escrito pelo crítico Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977), no livro "Três Mulheres de Três Pppês".

Macaque in the trees
Ao Sul do Meu Corpo | Foto: Divulgação

A iniciativa de prestigiar Saraceni e rever sua obra magistral celebrizou a programação de Petrópolis tal como Tiradentes ampliou seu prestígio cinéfilo ao apresentar "O Gerente" em tela grande.

Estrela nos gramados nos anos 1950, quando jogava (com o gáudio de ser tricolor) pela escrete juvenil do Fluminense, Saraceni injetou lirismo nas veias do Cinema Novo. Passeou por Cannes em 1969, com "Capitu", e esteve por lá de novo em 1988 com "Natal da Portela", na Quinzena de Cineastas. "Só na liberdade é possível fazer um cinema diferente", dizia o artesão autoral tricolor de coração.

No auge de sua performance futebolística, Saraceni resolveu virar cineasta após ter assistido a uma sessão de "Greed" ("Ouro e Maldição" no Brasil), de Erich von Stroheim. Entre 1962, quando rodou seu primeiro longa ("Porto das Caixas"), e 2011, ano de "O Gerente", derradeiro trabalho de sua vida, o diretor dedicou-se a filmar produções pautadas pelo lirismo. Uma das mais tocantes é o documentário "Banda de Ipanema — Folia de Albino" (2003). Na Retomada, Saraceni só teve chance de emplacar uma ficção: o já citado "O Viajante", que lhe rendeu uma menção especial da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) no Festival de Moscou, em 1999.

Recentemente, a loja virtual Amazon incluiu em seu catálogo o livro "Por Dentro do Cinema Novo", em que Saraceno passa em revista as lembranças da construção da narrativa moderna nos sets deste país. Criou polêmica com seu texto mordaz, mas assegurou à nossa literatura memorialista uma pérola na recriação do Brasil dos anos 1960.

Com recorrência, o nome de Saraceni reabre uma controvérsia histórica em torno da frase "Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça". Embora seja atribuída a Glauber Rocha (1939-1981), ela teria sido cunhada por Paulo Cezar. Mas o que de fato importava entre eles era a amizade, como ele disse ao Globo, em 2010, num dia de jogo da Copa do Mundo. "A morte do Glauber me dói todo dia. Pouco antes de morrer, em 1980, Glauber foi ao cinema comigo, ver 'Gigolô Americano', do Paul Schrader, com Richard Gere. Quando a sessão acabou, ele virou para mim e perguntou: 'Paulo Cezar, você sabe fazer isso aí? Sabe filmar como os americanos estão filmando?' E eu: 'Não.' Aí ele disse: 'Então, Paulo Cezar, você está fodido'. Acho que ele estava certo".

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O Gerente | Foto: Divulgação

No início dos anos 2000, a Versátil prensou em DVD seu magistral épico existencialista "Anchieta, José do Brasil" (1977), que arranca de Ney Latorraca (1944-2024) uma das atuações mais radicais de nosso cinema. Ovacionado em Tiradentes, "O Gerente" tem o já citado Latorraca numa trama baseada em Carlos Drumond de Andrade (1902-1987). O Bardo de Itabira era um dos vetores líricos de Paulo Cezar, assim como o compositor Lupicínio Rodrigues (1914-1974). "O segredo de se filmar o amor é a dignidade", dizia Saraceni. "Rossellini ensinou o cinema a ser digno".

A Mostra de Tiradentes segue até sábado, quando promove uma sessão de "O Agente Secreto" na esteira do Oscar. Antes de anunciar os ganhadores de suas competições, em especial a seção Aurora, o evento exibe, como filme de encerramento, "Copacabana, 4 de Maio", de Allan Ribeiro, sobre o show de Madonna no Rio.