Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / FILME / A ÚNICA SAÍDA: Parasitismo capitalista

Competir por emprego com Man-su (Lee Byung-hun) é mortal, pois 'A Única Saída' é sobre predatismo | Foto: Divulgação

Tão luminosas quanto as estatuetas que "Parasita" conquistou, entre elas quatro Oscars e a Palma de Ouro de Cannes, foram suas cifras comerciais: a produção dirigida por Bonh Joon Ho em 2019 custou US$ 11,4 milhões e faturou US$ 258,1 milhões. Nunca um longa-metragem da Coreia do Sul chegou tão longe. Por isso, ou seja, por interesse em um novo faturamento desse porte mastodôntico, cada novo empreendimento autoral de pinta mais pop daquela nação é cercado de promessas messiânicas para o mercado. Do mais prolífico realizador daquela pátria, Hong Sangsoo, não se espera isso, pois seu cinema intimista, embora pipoque por tudo quanto é festival (seu novo trabalho, "The Day She Returns", estará na Berlinale), não se enquadra em nenhuma das convenções conhecidas de blockbuster. O cult de Joon Ho também não, mas tem um dinamismo de ações físicas e um torvelinho de reviravoltas de roteiro que se alinha com mais precisão aos códigos do thriller. É esse também o caso de "A Única Saída" ("No Other Choice"), de Park Chan-wook, a bola da vez do mercado sul-coreano. Estreou mundialmente no Festival de Veneza, na briga pelo Leão de Ouro. Chega ao Brasil com fome de salas lotadas.

Custou US$ 12,2 milhões e já faturou US$ 31 milhões apoiado na fama de seu realizador, que foi consagrado em 2004 com "OldBoy", depois de ser coroado com o Grande Prêmio do Júri de Cannes. Recentemente, ele trabalhou com Fernando Meirelles na minissérie da HBO MAX "O Simpatizante" (2024), com Robert Downey Jr. Seu novo longa, chamado "Eojjeolsuga eobsda" em sua língua nacional, é uma versão do romance "O Corte", lançado em 1997 por Donald Edwin Westlake (1933-2008), e filmado em 2005 por Costa-Gavras.

Na medula do projeto de Chan-wook há um conceito da arte que se chama "heroísmo do rendimento". Foi um livro do século XIX, Germinal (1885), de Émile Zola (1840-1905), que abriu a torneira dessa dramaturgia. Ela pode ser descrita por ser uma linhagem sociológica de narrativas em que a jornada dos protagonistas se constrói a partir de estratégias de sobrevivência económica. Cabem aí de Chaplin a Plínio Marcos, passando por Rocky Balboa, com amplo espaço para as personagens de Ken Loach e do próprio Costa-Gavras. Não é rara a associação deste procedimento temático às cartilhas marxistas de luta de classes e aos engenhos teóricos funcionalistas, nos quais a sociedade é vista em analogia com organismos biológicos. Nessa toada, há lugar também para os aportes do naturalismo — uma corrente anfíbia entre a arte e as ciências sociais — que representa territórios como se fossem as entranhas dos corpos, com as suas escatologias e dinâmicas de excreção. É nesse naturalismo que uma parte nobre do cinema sul-coreano se instalou desde os anos 2000.

Enervante (e irregular), "A Única Saída" se filia à genealogia do rendimento ao seguir os passos do desempregado Man-su (Lee Byung-hun, num registo que evoca Buster Keaton). Especialista em fabrico de papel, ele tomba ao inferno depois de perder o emprego. Sem chance de obter um trabalho, passa a eliminar seus concorrentes. Sua saga se constrói na fotografia de Kim Woo-hyung com planos que distorcem a aparência de harmonia do real, mergulhando o espectador numa vertigem visual.