Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Estação Kubrick

A suntuosidade marcou o trabalho de concepção de figurinos e cenários de 'Barry Lyndon' | Foto: Michael Ochs Archives

 

Em meio às comemorações dos 50 anos depois de seu lançamento, o cultuado 'Barry Lyndon' ganha sessão na mítica sala da Voluntários da Pátria e inspira uma nova geração de críticos


Reverenciado por cineastas do mais alto quilate autoral (entre eles, Domingos Oliveira e Kleber Mendonça Filho), "Barry Lyndon" (1975) chegou aos 50 anos com direito a tributo em Cannes e sessões especiais em salas da Europa e dos EUA, onde diferentes gerações puderam conferir, em tela grande, todo o esplendor visual alcançado pela genialidade da direção de Stanley Kubrick (1928-1999). Depois de uma projeção na seção Classics da Croisette, a produção de US$ 12 milhões, baseada na prosa de William Makepeace Thackeray (1811-1863), traz sua versão restaurada em 4k (enfim) para o Brasil. Tem projeção desta joia às 20h30, no Estação NET Botafogo, no evento Classiquíssimos, já tradicional no multiplex da Voluntários da Pátria.

Sua restauração seguiu as instruções de uma carta enviada por Kubrick, em 8 de dezembro de 1975, a projecionistas, com exigências acerca de como o longa deveria ser exibido. Uma digitalização do negativo original em 35 mm foi feita sob a supervisão de Leon Vitali, assistente pessoal do mítico cineasta. Sua busca obsessiva pela perfeição cercou a trama, ambientada no século XVIII, de folclores, galvanizados pela conquista de quatro Oscars (Figurino, Direção de Arte, Trilha Sonora e Fotografia).

Ímã de aplausos em Cannes, o épico extraiu um desempenho impecável de Ryan O'Neal (1941-2023), então no auge de sua popularidade, após "Love Story" (1970) e "Lua de Papel" (1973), que o fez ir além do rótulo de galã. Ele vive Redmond Barry, um alpinista social irlandês oportunista do século XVIII, descrito por Thackeray como um trapaceiro, que se casa com uma viúva rica para assumir uma posição aristocrática. Seu nome na nobreza passa a ser Barry Lyndon. Em meio a duelos, traições e mortes que cercam sua jornada em busca de dinheiro, Kubrick pinta um quadro cínico e cruel do mundo de "sangue azul".

Na iluminação das cenas, o bruxo nova-iorquino que a adotou o Reino Unido como seu bunker exercitou sua destreza técnica ao máximo. Ele almejava que "Barry Lyndon" lembrasse pinturas de mestres do século XVIII, como Johannes Vermeer (1632-1675) e Antoine Watteau (1684-1721). Para conseguir essa façanha, algumas cenas foram filmadas à luz de velas, usando lentes especiais desenvolvidas inicialmente para a NASA.

Macaque in the trees
Stanley Kubrick fez do perfeccionismo a marca de seu cinema autoral... e diverso | Foto: Warner Bros.

"Eu queria criar uma imagem que nunca traísse sua época", explicou o realizador de "Laranja Mecânica" (1971), em depoimento publicado no site oficial de Cannes. "A luz tinha que parecer natural, como se estivesse vindo de um tableau vivant, de um quadro vivo".

Um dos causos de bastidor mais famosos do longa, que arrecadou cerca de US$ 20 milhões na venda de ingressos, envolve a opção de Kubrick em fazer com que as roupas dos personagens fossem confeccionadas apenas com tecidos de época, dos 1700, sem nenhuma alteração.

Depois do sucesso retumbante de "2001: Uma Odisseia no Espaço" (que, em 1968, custou US$ 10,5 milhões e faturou US$ 146 milhões), Kubrick alcançou prestígio suficiente para se mudar pra Inglaterra e viver em reclusão, filmando quando e como queria. Nesse isolamento dos holofotes, ele se dedicou a um projeto - sobre o qual escreveu um misto de argumento e catálogo de referências de cerca de 500 páginas - sobre a vida do Imperador Napoleão Bonaparte, que não conseguiu filmar. Atualmente, seu amigo e fã Steven Spielberg anunciou que vai transformar a saga napoleônica de Stanley em uma minissérie para a plataforma MAX, onde é possível encontrar pérolas de sua trajetória autoral, como "O Iluminado" (1980), "Laranja Mecânica" (1971) e "Lolita" (1962).

"Já me perguntaram algumas vezes por que todos que amam a sétima devem assistir aos filmes de Stanley Kubrick", avalia o resenhista Gustavo Valente, que dedicou um trecho de seu livro "Momento Crítico" à estética kubrickiana. "Alguns dos motivos: o perfeccionismo Noir de 'O Grande Golpe'; o travelling pela trincheira em 'Glória Feita de Sangue'; as performances de Peter Sellers, George C. Scott e Sterling Hayden em 'Dr. Fantástico'; a humanidade incompreendida de Hal 9000; a estilização máxima e o poder argumentativo de 'Laranja Mecânica'; a gradativa insanidade sofrida pelo personagem de Jack Nicholson em 'O Iluminado'; o segmento inicial de 'Nascido Para Matar'; e o desfile de máscaras (literal e metafórico) em 'De Olhos Bem Fechados'. Espero que eu tenha te convencido".