Lá se vão 20 anos desde que o cearense Karim Aïnouz extraiu de Hermila Guedes a atuação de uma vida... coroada com o troféu Redentor do Festival do Rio de 2006... em "O Céu de Suely". Dois anos antes, ele tinha feito coisa parecida com Lázaro Ramos em "Madame Satã" (2002). Extraiu diabos de Alessandra Negrini em "Abismo Prateado", que estreou na Quinzena de Cannes, há 15 anos, assegurando à atriz uma consagração em solo europeu. Lá mesmo na Croisette, fez Carol Duarte e Fernanda Montenegro dividirem a mesma personagem em "A Vida Invisível" (2019) e, amparado numa atuação seminal das duas, trouxe para o Brasil o Prix Un Certain Regard. Em meados de fevereiro, é a vez de outro dos mais importantes festivais de cinema do mundo, a Berlinale, na Alemanha, conferir o diretor tira de um elenco estrangeiro colossal, em "Rosebush Pruning", com Pamela Anderson e Tracy Letts, hoje um dos maiores dramaturgos dos EUA em atividade. Os dois estarão em cena ao lado de Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning.
Recém-chegado aos 60 anos, Karim lança "Rosebush Pruning" na competição pelo Urso de Ouro de 2026, na 76ª edição do festival anual de Berlim, cidade que adotou como lar. Ele disputou o mesmo troféu em 2014, com "Praia do Futuro", dirigindo Wagner Moura e Jesuíta Barbosa. Voltou lá em sessões paralelas, com seus documentários "Nardjes A. (2020) e "Aeroporto Central" (2018), que lhe rendeu a láurea da Anistia Internacional. Depois, em 2022, voltou lá como jurado, num júri presidido por M. Night Shyamalan.
Agora, Karim trabalha com um enredo que dialoga frontalmente com o cult de 1965 "De Punhos Cerrados", do italiano Marco Bellocchio, só que revisitado pelo roteirista Efthimis Filippou (de "O Lagosta"). A trama de seu "Rosebush Pruning" é ambientada numa mansão na Catalunha, de olhos atentos para uma família americana privilegiada e excêntrica, envolta em conflitos absurdos. Os irmãos Jack, Ed, Anna e Robert vivem isolados do mundo, usufruindo da fortuna que herdaram. Enquanto isso ignoram as demandas do pai cego (papel de Letts) e buscam amor e acolhimento uns nos outros, vivendo às voltas com as mais recentes roupas de grife. Quando Jack, o irmão mais velho e eixo central da família, anuncia que vai abandonar o pai e os irmãos para morar com a namorada Martha, os laços de sangue implodem. Ed começa a descobrir a verdade por trás da misteriosa morte da mãe. Mentiras começam a vir à tona, a família passa a se desintegrar brutalmente e os irmãos entram uma espiral de violência.
Na conversa a seguir, Karim explica ao Correio da Manhã, via Zoom, o que a Berlinale aguarda.
Como foi encarar esse time de estrelas de "Rosebush Pruning"?
Karim Aïnouz - O processo, na prática, é o mesmo: é ator e diretor. O que muda é a língua. No caso desse filme, era importante ter um elenco que chamasse o público. O diferencial mesmo foi eu ter tido um tempo de ensaio com o elenco, o que permite uma relação mais íntima. O que temos é quase uma peça de teatro.
Existe uma alma cearense nessa produção que, embora não seja brasileira, leva o DNA do seu país, representado por você, à Alemanha, assim como "Josephine", de Beth de Araújo, também indicado ao Urso de Ouro. Como você avalia essa escalação neste momento em que o Brasil vem conquistando uma série de prêmios no exterior, sonhando em ser citado pela Academia de Hollywood nesta quinta, quando saem as indicações ao Oscar, com chances para "O Agente Secreto"?
O reconhecimento do Brasil é bonito e merecido. Estamos colhendo os frutos de muitos anos de trabalhos. É um momento muito emocionante. Espero que essa alegria se estenda não só a presença de dois filmes com cineastas brasileiros na competição da Berlinale, mas a todos os muitos outros títulos (12 ao todo) que representam o Brasil lá, incluindo dois filmes do Ceará ("Feito Pipa", dirigido por Allan Deberton, e "Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha", de Janaína Marques). É emocionante que tenhamos esse espaço.
No teu histórico de Brasil e em incursões no exterior, você rodou narrativas documentais e melodramas, que, de certa forma, parecem universos paralelos. O que há de documental em "Rosebush Pruning" e o que há de melodramático?
Ele forma uma espécie de trilogia com "O Jogo da Rainha" ("Firebrand"), que filmei com Jude Law e Alicia Vikander, e com "Motel Destino", pois os três falam de homens tóxicos, como se fosse uma autopsia desse lado da identidade masculina. É um rei, um dono de motel e um pai. Três figuras perigosas. Mas eu nunca havia feito uma sátira. Agora consegui, e com um humor refinado. Foi o primeiro filme que eu fiz em que precisei cortar cenas porque ficava rindo no set. São figuras de carne e osso, mas engraçadas.
O "De Punhos Cerrados", de Marco Bellocchio, entra como nessa equação?
É uma das inspirações para o roteiro que o Efthimis Filippou escreveu. O filme do Bellocchio foi, sim, um ponto de partir para nós, mas tivemos outras inspirações. Fomos inspirados também por Pasolini e seu "Teorema" e por "Killer Joe", uma peça do Letts, que eu vi numa versão para o cinema dirigida por William Friedkin, faz tempo. Meu empenho é falar com o nosso tempo, sob a premissa de um personagem central tóxico. É uma forma de causar riso num paralelo com o que vivemos.
E quando você filma no Brasil de novo?
Certamente em 2027, no próximo ano.