Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Brasil volta ao abraço do Urso de Ouro

'Josephine', de Beth de Araújo, diretora estadunidense de dupla nacionalidade brasileira | Foto: Divulgação


Um ano depois da conquista do Grande Prêmio do Júri da Berlinale, numa vitória de “O Último Azul” (hoje em cartaz no Estação Botafogo e já na grade da Netflix), o festival alemão, respeitado como uma das três maiores mostras de cinema do mundo (ao lado de Cannes e de Veneza) volta a acolher artistas do Brasil em sua competição oficial. Beth de Araújo, americana de San Francisco, filha de um brasileiro (de quem herdou nacionalidade), e o cearense Karim Aïnouz vão concorrer ao Urso de Ouro no evento, agendado de 12 a 22 de fevereiro. O anúncio foi feito na manhã do feriado de 20 de janeiro.

Beth disputa com “Josephine”, no qual uma menina de oito anos (Mason Reeves) fica mexida internamente após testemunhar um crime no Golden Gate Park. Channing Tatum é o astro de maior prestígio em cena.
Já Karim, que esteve em concurso na capital da Alemanha em 2014, com “Praia do Futuro”, regressa com “Rosebush Pruning”, que teve um time estelar em seu elenco: Pamela Anderson, Tracy Letts, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning. "Esse é um filme de alma cearense, mesmo sem ser rodado no Ceará, e a inclusão dele e de outros filmes brasileiros no Festival de Berlim coroa o fato de estamos enfim colhendo os frutos de tantos anos de trabalho, vendo o Brasil ser reconhecido", avaliou o realizador nordestino.

Espécie de releitura do cult “De Punhos Cerrados” (1965), de Marco Bellocchio, o novo Karim acompanha os conflitos de uma família que luta contra doenças genéticas no coração de uma propriedade rural. Numa villa espanhola, os irmãos americanos Jack, Ed, Anna e Robert vivem isolados e desfrutam da fortuna que herdaram. Quando Jack decide ir morar com a namorada e Ed descobre a verdade sobre a morte da mãe (papel de Pamela), a estrutura da família começa a desmoronar.

Macaque in the trees
Em 'Rosebush Pruning', Karim Aïnouz dirige Elle Fanning, Jamie Bell, Callum Turner, Lukas Gage (em pé), Riley Keough e Tracy Letts (sentados) | Foto: Felix Dickinson/Divulgação

Cotado para concorrer ao Oscar pela fotografia de “Sonhos de Trem” (na Netflix), o paulista Adolpho Veloso integra a equipe de outro competidor: “Queen At Sea”, de Lance Hammer. No enredo fotografado por Veloso, à medida que a demência avançada corrói a capacidade de uma mulher idosa (Anna Calder-Marshall) de comunicar a sua vida interior, seu marido (Tom Courtney) e sua filha (Juliette Binoche) lutam para agir no seu melhor interesse, navegando pelas frágeis fronteiras entre cuidados, proteção e autonomia.

Entre as 22 produções na caça pelo Urso dourado, a América Latina se faz presente falando espanhol à moda mexicana em “Moscas”, de Fernando Eimbcke, diretor de “Olmo” (2025). Sua protagonista, Olga (vivida por Teresita Sánchez) aluga um quarto a um homem cuja esposa foi internada num hospital próximo. No entanto, o homem tem um filho de 9 anos que ele tem levado às escondidas para o quarto, o que leva a que o mundo cuidadosamente controlado de Olga mude à medida que as suas vidas se entrelaçam.

Fã de animes, termo usado para designar desenhos do Japão, a Berlinale - cuja curadoria é comandada sob a direção artística de Tricia Tuttle – acolherá na briga por seus prêmios a fantasia “A New Dawn”, de Yoshitoshi Shinomiya. Nessa mescla de fantasia e melodrama, o jovem Keitaro vive numa fábrica de fogos de artifício que está prestes a fechar. Ele está determinado a desvendar o mistério do Shuhari, um fogo de artifício mítico criado pelo seu pai antes de ele desaparecer sem deixar rasto – e lançá-lo antes que a fábrica feche.

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'Nosso Segredo', da mineira Grace Passô, concorre na seção Perspectives | Foto: Divulgação

Entre os 13 títulos da competição paralela Perspectivas, dedicada a estreantes, e também divulgada na terça, o Brasil cavou espaço para si à força da atriz e dramaturga mineira Grace Passô (da peça “Vaga Carne”), que dirige “Nosso Segredo”, narrando os conflitos de uma família às voltas com a perda do patriarca. A estrela das Gerais já havia alcançado prestígio internacional no posto de protagonista do cult “Temporada” (2018).

Além de “Nosso Segredo” e dos longas de Beth e de Karim, nove outras produções brasileiras, dos mais diferentes cantos do país, já estão confirmadas para a 76ª Berlinale, sem contar os anúncios desta terça-feira. Na seção Generation, entraram “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai; “Quatro Meninas”, de Karen Suzane; “Feito Pipa”, de Alan Deberton; e a animação “Papaya”, de Priscilla Kellen.

No Fórum Expanded, Denilson Baniwa e Felipe M. Bragança levam “Floresta do Fim do Mundo” a telas germânicas. No Fórum, tem “I Built a Rocket Imagining Your Arrival”, de Janaína Marques. Já no Panorama, comparecerão “Se Eu Fosse Vivo... Vivia”, de André Novais Oliveira; “Isabel”, de Gabe Klinger; e a coprodução paraguaia “Narcisco”, de Marcelo Martinessi.

O longa de abertura da Berlinale será “No Good Men”, da realizadora afegã Shahrbanoo Sadat, centrado nos conflitos de uma operadora de câmera de Cabul.

FILMES EM COMPETIÇÃO PELO URSO DE OURO 2026

  • “At The Sea”, de Kornél Mundruczó
    “Dao”, de Alain Gomis
    “Dust”, de Anke Blondé
    “Home Stories”, de Eva Trobisch
    “Everybody Digs Bill Evans!”, de Grant Gee
    “Yellow Letters”, de Ilker Çatak
    “Josephine”, de Beth de Araújo
    “Salvation”, de Emin Alper
    “The Loniest Man in Town”, de Tizza Covi e Rainer Frimmel
    “My Wife Cries”, de Angela Schanelec
    “Moscas”, de Fernando Eimbcke
    “A New Dawn”, de Yoshitoshi Shinomiya
    “Nina Roza”, de Genevieve Dulude-de Celles
    “Queen At Sea”, de Lance Hammer
    “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz
    “Rose”, de Markus Schleinzer
    “Soumsoum, La Nuit Des Astres”, de Mahamat-Saleh Haroum
    “À Voix Basse”, de Leyla Bouzid
    “We Are All Strangers”, de Anthony Chen
    “Wolfran”, de Warwick Thornton
    “YO Love Is A Rebellious Bird”, de Anna Fitch e Banker White
    “Nightborn”, de Hanna Bergholm