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'Nosso audiovisual, lamentavelmente, vive de ciclos... e o pior, de ciclos labirínticos'

Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã

Cerca de um ano e meio depois de sua estreia comercial, uma fofura brasileiríssima chamada "De Pai Para Filho" volta à telona, para uma sessão única, esta noite, na sala 4 do Estação NET Botafogo, às 19h. Lançado comercialmente em agosto de 2024, após ganhar quatro prêmios no Festival de Paraty, o longa-metragem de Paulo Halm é uma delicinha daquelas que a gente via na "Sessão da Tarde". Tipo aquelas com Steve Martin ou Dan Aycroyd (todos muito bem dublados), boas em misturar dores, amores e risos numa equação em que o valor de X era um xêro no coração. Depois de emplacar, como roteirista, dois fenômenos de audiência seguidos no horário das novelas das sete da TV Globo - "Totalmente Demais" (2015) e "Bom Sucesso" (2019), escritos com Rosane Svartman -, Halm foi dirigir essa tal narrativa sobre paternidade com o desejo de fazer "um filme fofo".Em 2022, recebeu o Correio da Manhã no set, num apartamento no Bairro Peixoto, e jurou: "Parece um filme de Natal", falando orgulhoso de sua cria, sobretudo quando o ator Marco Ricca (que está colossal em cena no papel de um fantasminha camarada) passou pelo corredor para dar "Oi!" ao repórter que foi acompanhar as filmagens. "Não parece o Bill Murray?", dizia Halm, todo pimpão. O que o diretor de "O Resto É Silêncio" (2003) extraiu da rodagem fez jus à sua ambição afetiva. "De Pai Para Filho" é uma fofura mesmo.

Em sua sessão inaugural, no Festival de Petrópolis, uma marmanjada saiu da sala fungando de emoção. Tinha tudo para ser um sucesso. Só que - como bem escreveu o dramaturgo Flávio Marinho -, "na vida, sempre existe um mas...". Aquele longa-metragem contagiante bateu na trave, por uma série de questões que refletem as inseguranças e as incertezas políticas de nosso audiovisual. Halm vai falar sobre elas ao fim da projeção no complexo exibidor da Rua Voluntários da Pátria 88. Após a exibição, rola bate-papo com ele, a produtora (Liara Castro), a diretora de arte (Tainá Xavier), o diretor de fotografia (Alex Araripe) e o montador (Eduardo Nunes). A conversa há de celebrar as múltiplas excelências da produção, mas há de tocar nas excentricidades de nosso mercado cinematográfico.

Realizador de "Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos" (2009), Halm construiu "De Pai Para Filho" para ser uma comédia dramática (ou um drama com tons generosos de humor), que fosse salpicada pelo sobrenatural. Juan Paiva é José, dono de uma loja de ferragens em Araraquara (SP). Depois da morte do papai rock'n'roll, o músico Machado (Ricca), com quem pouco ou quase nada conviveu, o comerciante precisará dar um pulo no Rio, para lidar com sua herança. De um lado, José vai aprender o que é a paixão no sorriso de Dina (papel de Miá Mello). Do outro, com uma ajudinha dos Céus (ou seria de sua imaginação), José vai aprender que um abraço paterno pode ser um belo de um abrigo no carinho (espectral) de Machado

Na entrevista a seguir, Halm antecipa detalhes de sua discussão desta noite, no Estação. E, ó, não tem desculpa para faltar: a entrada é franca, sujeita à lotação. Serão distribuídas senhas uma hora antes da sessão.

Desde que o filme passou pelo circuito você discute a questão de uma fragilidade comercial em nosso circuito que os sucessos recentes não aplacam. Que fragilidade é essa? Como ela afetou "De Pai Para Filho"?

Paulo Halm - Olha, eu acho que até fiz as coisas direitinho. Apesar de ter um orçamento bem reduzido, bem pequeno, quase um BO, com recursos da GloboFilmes, filmando ainda na pandemia, consegui fazer um filme bacaninha, com um elenco maravilhoso, estelar... só filé. O Juan Paiva, esse Chadwick Boseman carioca, super talentoso, lindo, carismático, um galã da cor do Brasil. A Miá Mello, essa força da natureza. O Marco Ricca. A Valentina Vieira, gênia, e o auxílio luxuoso do Pablo Sanábio, do Charles Fricks, do Xando Graça, do Fabríco Santiago... Fiz um drama familiar com doses de humor com uma pegada popular. Tem risos, lágrimas, música, poesia, afeto... Consegui apoio da RioFilme. Ganhei uma graninha pra distribuição pela Lei Paulo Gustavo, através do Edital da Secretaria de Cultura do Estado. Aí o Marcello Maia, da ArtHouse, e a Adriana Rattes, do Filmes do Estação, meus distribuidores, queridos parceiros, conseguiram armar um lançamento com 76 salas em todo o Brasil. Passamos até em Araraquara (terra do personagem de Juan). Ficamos oito semanas em exibição... e apesar de tudo isso... fuén, fuén, fuén... um fiasco. Ninguém viu. Ou quase ninguém. O que fiz de errado? O filme não é ruim, pelo contrário, é um filme gostoso, carinhoso, talvez um pouco longo. Não me consolou o fato de 90% dos filmes brasileiros lançados antes ou depois do meu tiveram o mesmo resultado frustrante.

O que se passou com esse universo de filmes?

Imagino que todos, à sua maneira, tentaram fazer o melhor possível para alcançarem o público, algum público... O que deu errado? Essa pergunta me perturbou durante muito tempo. Aí lembrei de um filme, uma comédia que eu escrevi com e pro meu mestre pícaro Hugo Carvana, chamado "Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo". Essa sentença cínica, niilista, quase fatalista, parece responder aquela minha dúvida sobre a possibilidade dos nossos filmes conseguirem cumprir sua função primordial: serem vistos. Parece mesmo que existe um intrincado mecanismo criado para não dar certo. Mecanismo pode soar meio paranoico, teoria da conspiração, mas a verdade é que existe um problema estrutural que se eterniza, composto por diversos fatores como a massacrante e desleal ocupação das cinemas pelos filmes hollywoodianos; a histórica resistência ou relutância do exibidor em relação ao filme nacional; o pequeno número de salas de cinemas existente no país (e sua distribuição geográfica sabidamente restritiva e elitista); o proibitivo custo do ingresso, que é caríssimo; a concentração dos recursos públicos (sim, existem recursos públicos, e vultosos, destinados à comercialização e à distribuição dos filmes nacionais, não é por falta de investimento público que os filmes brasileiros não chegam ao público) nas mãos de poucas distribuidoras; a mudança da forma de se ver filmes, a partir do advento das plataformas de streamings, potencializada com a pandemia do Covid, enfim... A soma desses fatores torna a exibição comercial dos filmes brasileiros não apenas frágil, mas condenada a não dar certo. Mas ao contrário do conselho debochado do Carvana, não tem como não ficar preocupado com essa situação. Parece que a gente está condenado, como Sísifo, a ficar empurrando uma pedra montanha acima apenas para vê-la rolando morro abaixo em seguida.

Algo muda com as vitórias nacionais recentes que tivemos, com "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto"?

As conquistas merecidas do cinema brasileiro, com essa enxurrada de prêmios importantes (Oscar, Globo de Ouro); as performances em Cannes, Berlin, Veneza; o reconhecimento internacional da excelência da nossa cinematografia; o sucesso comercial de alguns, poucos, filmes que acaba levantando o percentual de ocupação de salas pelo filme brasileiro... tudo isso cria uma sensação de que a produção audiovisual nacional vive um momento de estabilidade, o que não é exatamente real. E, pior, que corre o risco de rolar morro abaixo na geração seguinte. Nosso audiovisual, lamentavelmente, vive de ciclos... ou de círculos labirínticos nos quais vivemos historicamente nos perdendo. Nosso Globo de Ouro Wagner Moura falou sobre isso, recentemente, nas redes sociais. Não dá pra nos iludirmos que as coisas estão consolidadas, que o jogo está ganho. Não está. É urgente uma política pública que torne o audiovisual uma atividade estratégica, não apenas culturalmente, mas sobretudo econômica. Algo como fez a Coreia do Sul que, em pouco mais de duas décadas, tornou-se uma potência e uma referência audiovisual, criando tramas, imagens, sonhos que são vistos pelo mundo inteiro... E olha que o coreano é uma língua tão "exótica" e restrita quanto o português. Ou seja, se não quisermos ter que empurrar essa pedra novamente montanha acima, temos que aproveitar este momento. É preciso coragem e determinação das nossas lideranças. Nesse sentido, a primeira coisa a ser feita é vetar o constrangedor, lamentável e entreguista projeto de lei que regula os streamings que foi aprovado no Congresso. É totalmente danoso à nossa soberania cultural, econômica e industrial. Tem que vetar, meu presidente Lula. Nunca te pedi nada.

De que maneira o teu filme reflete os debates sobre formações familiares do nosso tempo?

Gosto muito de falar sobre relacionamentos humanos, amorosos, familiares. E eu queria fazer um filme sobre e para a família. Mas não sobre uma família convencional, careta, padronizada, mas uma família que poderia até ser considerada um pouco "torta". Sempre gostei mais delas, até porque, eu me considero meio "torto" também. Parafraseando Tolstói: "Todas as famílias ditas normais se parecem, cada família considerada torta é torta à sua maneira". Acho que estamos testemunhando o surgimento de novas formas de relacionamento amoroso, afetivo, sexual, e de configurações familiares que traduzam essa plenitude de afetos e amores. Em "De Pai Para Filho", temos duas famílias fraturadas pelo luto que acabam tendo a chance de se reconstruir. E não é só uma nova família, mas uma família nova, em consonância com os novos tempos e novos afetos. Ele, um jovem negro; ela, uma mulher de quarenta anos, viúva, mãe solo de uma pré-adolescente. O outro casal que vemos no filme é um casal gay super apaixonado (interpretado pelo Pablo Sanábio e pelo Fabrício Santiago, que inclusive reescreveram parte dos diálogos da cena para dar mais "embocadura" homoafetiva ao casal). Então acho que o filme reflete essas novas manifestações afetivas.

Você filmou o longa ainda no fim da Era Bolsonaro e lançou-o no Festival de Petrópolis, num sábado à tarde, com sala cheia. Depois passou pelo Festival de Paraty, arrebatando prêmios. Que tempo foi esse em que "De Pai Para Filho Nasceu?

Fiz um filme numa época difícil, dura, muito dura, ainda na pandemia, sob um (des)governo autoritário, de viés fascista, machista, misógino, fanático religioso, que tanto mal causou ao país, sendo responsável inclusive pelas 700 mil mortes por conta de negligência e negacionismo. Eram tempos ásperos, e eu quis fazer um filme que de alguma forma abraçasse e reconfortasse os espectadores. Um filme sobre o luto. Um filme de amor, de perdão, de esperança. Pena que poucas pessoas conseguiram ver. Mas quem viu gostou e se sentiu abraçado e reconfortado. Isso que importa.