Affonso Nunes
Quando Wagner Moura levantou a estatueta de Melhor Ator em Drama no Globo de Ouro 2025 por "O Agente Secreto", e o longa de Kleber Mendonça Filho conquistou também o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, uma mulher discreta subiu ao palco ao lado do diretor pernambucano para receber o reconhecimento que, de certa forma, coroa mais de duas décadas de trabalho silencioso nos bastidores do audiovisual brasileiro. Emilie Lesclaux, nascida em Bordeaux há 46 anos, é a produtora creditada em "O Agente Secreto" e nome recorrente na filmografia de Kleber - com quem é casada desde 2007 e tem os gêmeos Tomás e Martin.
A trajetória de Emilie no cinema brasileiro começou longe das câmeras e dos sets de filmagem. Formada em ciências políticas, ela chegou ao Recife em 2002 para trabalhar no Consulado-Geral da França no Nordeste, atuando em cooperação cultural. Foi nesse circuito que conheceu Kleber Mendonça Filho, então trabalhando com programação de cinema na Fundação Joaquim Nabuco. O encontro profissional rapidamente se transformou em parceria criativa e pessoal, culminando na fundação da Cinemascópio, produtora independente que viria a se tornar o berço dos principais projetos do casal e um dos nomes mais respeitados do cinema autoral brasileiro.
Nos anos 2000, ainda na fase inicial da produtora, Emilie começou a produzir filmes ajudando Kleber em várias funções em curtas dele e no longa "Crítico", documentário de 2008 hoje disponível na MUBI. Esse conjunto de obras, exibido em festivais nacionais e internacionais, ajudou a pavimentar o caminho de Klebe para os longas-metragens que consolidariam sua reputação mundial.
O reconhecimento amplo veio com a assinatura da Cinemascópio em títulos que marcaram o cinema brasileiro nestew século. "O Som ao Redor", de 2013, revelou ao mundo o talento de Kleber para dissecar as tensões sociais urbanas. Três anos depois, "Aquarius" consolidou essa reputação, com Sonia Braga protagonizando um drama que conquistou aplausos da crítica internacional. Em 2019, "Bacurau" levou o Prêmio do Júri em Cannes e se transformou em fenômeno ao misturar western, ficção científica e crítica social numa narrativa ousada.
A atuação de Emilie Lesclaux como produtora vai além da gestão de recursos e logística. Segundo informações do site BR Lab, nos últimos 12 anos ela produziu 8 curtas e 6 longas-metragens que somam mais de 250 prêmios em festivais ao redor do mundo. Sua filmografia também inclui "Sem Coração" (2014), que passou pelo Festival de Veneza em 2023, e "Retratos Fantasmas" (2023), ensaio de tom documental de Kleber sobre a memória das antigas salas de cinema do Recife que acabou inspirando Kleber no roteiro de "O Agente Secreto".
Fora do eixo de Pernambuco, ela ainda produziu "Dormir De Olhos Abertos", da alemã Nele Wohlatz, exibido na Berlinale de 2024. Descrita como principal captadora de recursos para viabilizar os filmes de Kleber Mendonça Filho, ela se tornou peça fundamental na estratégia de coprodução internacional que marca o cinema do realizador nordestino.
Em entrevista a Rodrigo Fonseca, crítico do Correio, Emilie revelou os desafios enfrentados para viabilizar o projeto. "'O Agente Secreto' teve um financiamento inicial via Estados Unidos que não foi pra frente, e nos encontramos no final de 2022 tendo que reconstruir um orçamento do zero", conta a produtora.
Depois do colapso do financiamento original, Emilie explica que começou o processo de procurar fundos no Brasil, com a distribuidora Vitrine. O resultado foi uma coprodução envolvendo Brasil (CinemaScópio Produções), França (MK Productions), Holanda (Lemming) e Alemanha (One Two Films). "A coprodução, que é algo sempre complexo, principalmente envolvendo vários países, foi uma experiência muito feliz para o 'Agente Secreto', como foi para 'Bacurau' e 'Aquarius'", diz Emilie.
A parceria internacional permitiu reunir recursos técnicos de excelência: "Nosso equipamento de câmera ARRI, com lentes Panavision dos anos 1970, veio da França, assim como a nossa diretora de fotografia, Evgenia Alexandrova, e realizamos boa parte da pós produção na Europa. Gravamos a trilha sonora num estúdio maravilhoso em Amsterdam (STMPD) e fizemos correção de cor na Rotor, nos Estúdios Babelsberg na Alemanha. Nós mixamos o filme em Paris, com o grande Cyril Holtz".
Para Emilie, a colaboração internacional enriqueceu o projeto sem diluir sua identidade. "Tudo foi contribuindo para novas camadas criativas num filme que continua extremamente brasileiro... pernambucano. Aliás, uma das coisas mais belas foi ver franceses assobiando um frevo e ver um alemão aperfeiçoando a cor de um ônibus elétrico dos anos 1970", recorda a produtora, revelando como a equipe multinacional mergulhou na cultura local para preservar a autenticidade da recriação histórica.
A conexão de Emilie com Recife e seu patrimônio cultural é profunda. Em entrevista sobre "Retratos Fantasmas", ela revelou: "Lembro de descobrir o Cinema do Parque e o Cinema São Luiz quando cheguei em 2002. Lembro de ficar maravilhada com a beleza desse patrimônio e entender também a importância dessas salas como espaços de formação e de valorização do cinema nacional, do cinema pernambucano". A produtora conta que "ver 'Cidade de Deus' e 'Amarelo Manga' nessa época, no centro da cidade, foi uma experiência incomum", e lembra com emoção ver "as filas de pessoas querendo assistir a 'Bacurau' darem a volta do quarteirão do Cine São Luiz".
Além do trabalho na Cinemascópio, Emile e Kleber são diretores artísticos do Janela Internacional de Cinema do Recife, festival criado em 2008 que se consolidou como importante vitrine para o cinema autoral no Nordeste brasileiro.
A campanha de "O Agente Secreto" segue agora mirando o Oscar, cuja lista de indicados será divulgada nesta quinta-feira (22) e Emilie, sempre discreta, segue ao lado do parceiro nos tapetes vermelhos.