Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Affonso Gonçalves: 'O cinema independente tem hoje mais dificuldade em encontrar investimento'

Affonso Gonçalves, montador de 'Ainda Estou Aqui', de 'Hamnet' e dos filems de Todd Haynes | Foto: Divulgação


Montador do único longa-metragem de CEP brasileiro com coroado Oscar, o paulistano Affonso Gonçalves testemunhou, lá dos EUA, onde vive desde 1994, todo o êxito mundial de "Ainda Estou Aqui" enquanto preparava dois potenciais sucessos: de um lado o ainda inédito "Pai Mãe Irmã e Irmão", que deu o Leão de Ouro a Jim Jarmusch, e, do outro, "Hamnet, A Vida Antes de Hamlet". Este último celebrizou-se no último domingo com o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama (derrotando "O Agente Secreto") e dispara na corrida pelas múltiplas estatuetas que antecedem as láureas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A saga da mulher que abandona todo um futuro, Agnes (Jessie Buckley), para viver com um aspirante a dramaturgo, um tal de Shakespeare (Paul Mescal), aproximou o ás brasileiro da montagem da cineasta Chloé Zhao, oscarizada por "Nomadland" (2020). Ela se junta a um time de medalhões autorais que gostam de editar seus trabalhos com Affonso. Com Walter Salles, ele trabalhou uma vez só, mas é parceiro habitual do já citado Jarmusch, de Ira Sachs e de Todd Haynes, o muso das narrativas queer, que acaba de ganhar uma retrospectiva no CCBB-RJ. No papo a seguir, Affonso fala de seus parceiros, reflete sobre o olhar de Chloé acerca das forças femininas por trás de Shakespeare e dá detalhes de "A Noiva!" ("The Bride"), que estreia em março, com Maggie Gyllenhaal, na direção.

Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama, "Hamnet" traz a tua marca, na edição. O que a diretora Chloé Zhao te apresentou de mais forte ao pensar Shakespeare?

Affonso Gonçalves - Na verdade, não é bem a Inglaterra de Shakespeare. É a história de um artista com dúvidas, inseguranças, dificuldades para criar, que precisa sobreviver enquanto tenta fazer arte. O filme imagina um Shakespeare muito humano, alguém que sofre, que falha, mas que encontra numa parceira, Agnes, alguém que sustenta a família e a sua arte. É um mundo fictício onde o tempo de Shakespeare se cruza com o nosso tempo, com essa ideia contemporânea de sofrer pela arte e, por vezes, sacrificar quem está mais próximo. A Chloé Zhao teve um trabalho muito longo e muito específico com o Paul Mescal e a Jessie Buckley em 'Hamnet'. Os três construíram juntos o filme, claro que com base no livro da Maggie O'Farrell. O Paul e a Jessie já tinham trabalhado juntos e havia uma intimidade muito forte entre eles, o que foi essencial para o resultado final.

Como é a dinâmica do teu trabalho com Todd Haynes, cujo cinema está atualmente em revisão pelo CCBB-RJ, numa retrospectiva completa de sua obra?

Conheci Todd num projeto para a HBO, a minissérie "Mildred Pierce" (aqui chamado "Alma em Suplício"), por volta de 2011 ou 2012. Ele precisava de dois editores e, a partir daí, começámos a trabalhar juntos. O primeiro longa que montei com ele foi "Carol", e, desde então, fiz todos os filmes dele. Todd prepara os filmes de forma muito rigorosa. Ele cria um lookbooks (cadernos de referência) com imagens, música, referências visuais, fotografia e arte da época. Isso dá à equipe uma noção muito clara do tom do filme antes mesmo da montagem começar. Todd é extraordinário com os atores. Ensaiam muito. Há uma ligação forte entre ele e o elenco. Para o Todd, as duas coisas mais importantes são: a atuação e a arquitetura das cenas. Como começam, como se estruturam visualmente. Se a cena abre num close-up ou num plano mais aberto, nada é casual. Tudo é pensado com grande precisão.

O que esperar de "A Noiva!", o novo filme da atriz e cineasta Maggie Gyllenhaal, no qual você integra a montagem?

Trabalhei em "A Noiva!" cerca de uns três meses. O Dylan Tickner, que foi o editor principal, chamou-me porque precisavam de apoio na montagem. Depois disso, fui trabalhar em "Hamnet", em Londres. O filme da Maggie é uma releitura muito particular de "Frankenstein" e de "A Noiva de Frankenstein". Ela descreve-o como algo meio punk rock. A Jessie (Buckley, sua protagonista) é espetacular. Christian Bale é espetacular. Acredito mesmo que o público vai gostar muito quando estrear.

Como é a vida do artista estrangeiro hoje nos Estados Unidos?

É difícil. Difícil pelas razões sociopolíticas, pelo momento que o país atravessa, mas também porque a indústria cinematográfica está numa fase muito complicada. O mundo do cinema independente, que é o que eu conheço melhor, tem hoje mais dificuldade em encontrar investimento. Muitos investidores estão focados nos streamings — Netflix, HBO, Apple — e isso torna mais complexo fazer cinema autoral. Ser estrangeiro neste contexto acrescenta ainda mais obstáculos.

Como está a tua agenda de trabalhos para 2026 e 2027?

Neste momento, estou em Nova Iorque, trabalhando com o diretor Ira Sachs. É o oitavo filme que fazemos juntos. Chama-se "The Man I Love" e estamos terminando agora. A ideia é tentar os festivais. Cannes, se possível, ou Veneza. Depois disso, começo o novo filme do Todd Haynes, "De Noche", que começa a rodar no início de março, no México. Deve ficar pronto em julho ou agosto, para tentar os festivais de outono. Depois disso ainda não sei. Jim Jarmusch tem um projeto que está tentando financiar para o verão, mas ainda não está fechado. Jonas Carpignano, com quem trabalhei em "Ciganos da Ciambra" e "A Chiara", também tem um novo filme no Caribe, ainda em desenvolvimento. E o Benh Zeitlin, com quem eu fiz "Indomável Sonhadora" e "Wendy", tem um novo projeto, mas deve acontecer mais para o final de 2026.

Você é parte essencial do filme que nos deu o Oscar, "Ainda Estou Aqui". O que o longa do Walter Salles te mostrou de mais valioso sobre o Brasil e sobre o cinema que se faz aqui?

O cinema do Walter Salles já me tinha mostrado o Brasil antes mesmo de eu trabalhar com ele. O Brasil de "Central do Brasil", de "Terra Estrangeira". É um Brasil que conheço de outras décadas, mas que ajuda a entender a nossa história. Trabalhar em "Ainda Estou Aqui" foi um renascimento desse contato. Eu já conhecia o livro (homônimo, de Marcelo Rubens Paiva), mas o mundo que Walter criou foi um grande aprendizado. Ele é extremamente detalhista: nas performances, no espaço, no tempo do filme, na música, nas imagens. Foi uma enorme honra e emoção fazer o meu primeiro filme no Brasil com ele.