Apesar do preconceito histórico na associação entre os acordes do metal e o satanismo, o uso de Iron Maiden em "Extermínio: O Templo dos Ossos", na sequência em que todos os diabos lá do quinto dos infernos "encostam" no Dr. Kelson (um mefistofélico Ralph Fiennes), periga ser o emprego mais dionisíaco do rock'n'roll no cinema de autor em anos. E olha que de Michael Haneke a Bryan Singer, passando por Scorsese, muitas foram as vozes inquietas que embalaram suas experimentações em acordes roqueiros.
A realizadora Nia DaCosta, recém-saída de um drama queer austero ("Hedda"), alcançou um simbolismo singular (leia-se "melancólico") ao transitar pelo ritmo musical dos demônios em seu regresso ao terror, originalmente chamado "28 Years Later: The Bone Temple". Tudo o que ela pesquisou em seu "A Lenda de Candyman" (2021), operando por um trilho de terror decolonial (tipo "Corra!"), adequa-se à reflexão sobre resquícios do que um dia se chamou de "civilização", a partir de um roteiro de Alex Garland.
O escritor de "A Praia", consagrado como cineasta depois de "Ex Machina" (2015) e de "Guerra Civil", de 2024 (com Wagner Moura), abriu a franquia "Extermínio" em 2002, numa dobradinha com seu sazonal parceiro de trabalho, o diretor inglês Danny Boyle (de "Quem Quer Ser Um Milionário?"), entregando ao cinemão, por módicos tostões para parâmetros de estúdios hollywoodianos (US$ 8 milhões), uma recauchutagem da fórmula do filão zumbi. Seus mortos que andam (e atacam) são vítimas de uma doença que os apodrece, torna-os famélicos e levam-nos a morder pessoas sadias. É tudo o que George A. Romero (1940-2017), bamba dessa linha horrorífica, criou e refinou a partir dos anos 1960, com "Night Of The Living Dead" (1968). O diferencial de Garland era sua pincelada contracultural (personalíssima) de abrir discussões sobre células fascistas em meio a um pesadelo que o mundo encara de olhos abertos. Com esse traço pessoal, "28 Days Later", como dito, custou menos de US$ 10 milhões e faturou US$ 82 milhões. Em 2025, Boyle e Garland resolveram retomar a cinessérie, com "Extermínio: A Evolução" ("28 Years Later"), que teve um custo mais salgadinho (US$ 60 milhões), contudo arrecadou bonito (US$ 150 milhões). Se dá lucro... rende sequências. Daí "O Tempo dos Ossos". A sacada de Nia nessa parte três exasperante foi expandir a dramaturgia de Garland sem usar a linguagem de Boyle, buscando o seu específico artístico - a reflexão sobre redenção, aplicada a um contexto de maldade crua e nua - naquele universo. Separa mal de Mal (ou seja, o mal perpetrado por humanos do mal mítico... e místico) mostrando a predisposição da Humanidade em segregar e causar dor para afirmar poder (o tema de Garland por essência). Escanteia a porção zumbi e gruda na figura de Kelson, médico que testemunhou a ruína da Terra, perdeu sua amada, mas preservou seus LPs.
Com a ajuda de Fiennes, Nia heroiciza Kelson até o limite do realismo, aparando as arestas de um personagem talhado para ser coadjuvante. Sua relação com o zumbizão Sansão (Chi Lewis-Parry) modula sua empatia num filme de montagem nevrálgica, de final avassalador. Uma joia.