Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Rojões para a França

O thriller 'Mi Amor', de Guillaume Nicloux, tem exibição confirmada no Festival de Roterdã | Foto: Divulgação

 

Uma das filmografias mais sólidas do planeta, a produção audiovisual francesa realiza fórum de promoção de suas atrações, prepara seu Oscar, o César, e se espalha por festivais de peso

Envolvida em diferentes graus (ou seja, distintos aportes financeiros) em 50 produções inclusas na programação do 55º Festival de Roterdã, agendado de 29 de janeiro a 8 de fevereiro em solo holandês, a indústria audiovisual da França abriu vitrines estratégicas para sua variedade nesse evento. É ele que abre o circuito anual das mostras de cinema tamanho GG e as produtoras francesas estarão por lá com estreias como o thriller "Mi Amor", de Guillaume Nicloux.

Nele, a DJ Romy (Pom Klementieff) está de férias nas Ilhas Canárias, animada pelas discotecas locais, deixando para trás uma situação familiar um tanto feroz por resolver. Pouco tempo depois da sua chegada, a amiga que a segue no passeio, desaparece sem deixar rasto e o paraíso desmorona-se. Sozinha, paranoica e roubada de seus pertences, Romy começa sua busca, até esbarrar com um estranho (Benoît Magimel) ligado a um parque onde se resgatam animais exóticos.

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'Victor Comme Tout Le Monde' apoia-se no talento de Fabrice Luchini | Foto: Divulgação

Igualmente tensa é a situação do divo teatral Robert Zucchini, personagem esculpido pelo ator Fabrice Luchini em "Victor Comme Tout Le Monde", de Pascal Bonitzer, ao encarar uma onda de "cancelamento" contra autores seculares da Europa em meio a um confronto com ativistas - e com a filha para a qual nunca reservou a atenção necessária. Luchini há de mobilizar as plateias da Holanda com sua ironia habitual.

Esses dois títulos pinçados por Roterdã são exemplares de uma esquadra de atrações inéditas em circuito com a qual a pátria de Emmanuel Macron promete tomar de assalto o olhar do planisfério cinéfilo até dezembro. Junte a elas uma celebração da literatura policial de Georges Simenon (1903-1989), que há de brilhar em tela grande em "Maigret et le Mort Amoureux", com Denis Podalydès no papel do inspetor mais infalível da Bélgica, sob a direção do já citado Pascal Bonitzer. Tem ainda o díptico "La Bataille De Gaulle" ("L'Âge de Fer" e "J'Écris Ton Nom"), de Antonin Baudry, e "L'inconnue", de Artur Harari. Na próxima terça-feira, data em que a Berlinale vai anunciar as pepitas de sua 76ª edição, incluindo concorrentes ao Urso de Ouro, esperam-se as presenças de "Une Autre Histoire", de Mikhaël Hers, e "Comédie Française", de Bertrand Usclat e Martin Darondeau, que assume um papel nevrálgico para seu país neste fim de semana. Ele é a atração de abre-alas do 28° Rendez-vous Avec Le Cinéma Français.

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Set de filmagem de 'La Bataille De Gaulle - L'âge de fer', que revisita a luta do estadista francês em meio ao avanço nazista, nos anos 1940 | Foto: Divulgação

Esse é o nome do fórum de promoção e exibição organizado desde o fim dos anos 1990 pela Unifrance, a entidade do governo francês cuja missão é assegurar a circulação mundial dos longas, dos curtas e dos seriados feitos em solo parisiense, em Marselha, em Nice, em Nantes e arredores, realizando o tal evento supracitado. A meta dele é atrair distribuidores e a mídia para títulos com o de Usclat e Darondeau.

O Rendez-vous é organizado num hotel em Paris (desta vez será o Sofitel Arc de Triomphe), sempre em janeiro. Seus trabalhos começam no sábado e vão até terça que vem. Grandes apostas francesas ganham ribalta por lá, como "La Condition", de Jérôme Bonnell; "Le Pays d'Arto", de Tamara Stepanyan (que abriu o Festival de Locarno, em agosto, mas segue 0km nas salas de projeção do Brasil); "La Maison des Femmes", de Mélisa Godet; e "La Pire Mère Au Monde", de Pierre Mazingarbe. O sempre badalado François Ozon há de ser celebrado lá com "O Estrangeiro" ("L'Étranger"), que vendeu 750 mil ingressos em sua nação, em dois meses.

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'Cores do Tempo' marca a volta de Cédric Klapisch à direção | Foto: Divulgação

No início da maratona, o Rendez-vous sempre confere um troféu honorário a um artista que tenha contribuído, historicamente, para ampliar as fronteiras da França aos olhos da cinefilia. O escolhido deste ano é o diretor Cédric Klapisch (de "Albergue Espanhol" e "Bonecas Russas"). O tributo a ele amplia a visibilidade de seu novo longa, "Cores do Tempo" ("La Venue De L'Avenir"), que pode ser um dos destaques comerciais europeus desta temporada.

Na caça por holofotes para suas crias, o cinema francês anuncia no próximo dia 28 quais serão os concorrentes de seu Oscar particular, o prêmio César. A entrega dessa estatueta francófona será no dia 27 de fevereiro, com direito a um prêmio honorário para o ator Jim Carrey.

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'Maigret et le Mort Amoureux' investe na literatura de Simenon | Foto: Divulgação

O César é um troféu de bronze estimado em cerca de € 1,5 mil, batizado com o nome de seu escultor, César Baldaccini (1921-1998), artesão do Nouveau Réalisme europeu. A festa de entrega da honraria acontece no auditório Olympia, em Paris, com a atriz Camille Cottin no comando das atividades e com Benjamin Lavernhe no posto de apresentador. Celebridades que se fizeram famosas graças aos filmes gestados na pátria de François Truffaut vão estar lá, como Bérénice Bejo, Juliette Binoche, Jean-Pascal Zadi, Dany Boon.

O próximo lançamento francês de peso no Brasil será "Ama-me Com Ternura", de Anna Cazenave Cambet, agendado para o próximo dia 22, com Vicky Krieps no elenco.