Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

David Lynch para a posteridade, na saudade

David Lynch, artesão do cinema autoral, completaria 80 anos neste janeiro | Foto: Divulgação

Mostras no Cinesystem e no MAM, cercadas pelo regresso de 'O Homem Elefante' às telas, festejam o legado do diretor de 'Coração Selvagem', que completaria 80 anos na terça

Dia de festejar nosso padroeiro, São Sebastião, o 20 de janeiro é também a data de nascimento de um dos maiores mitos do audiovisual, David Keith Lynch (1946-2025), que completaria 80 anos na próxima terça-feira. Desde sua morte, em 16 de janeiro do ano passado, "Mulholland Drive: Cidade dos Sonhos", que lhe rendeu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes de 2001, não arreda pé do circuito carioca. Ficou meses em cartaz, em 2025, ao ser relançado na esteira de sua partida, e regressa às telonas da cidade neste fim de semana, em sessões à 23h59 no Estação Botafogo, nesta sexta e sábado (16 e 17).

Na terça-feira, às 18h30, ele passa no Cinesystem Belas Artes, que engata uma série de exibições de seus filmes. No dia 24, eles projetam "Coração Selvagem" ("Wild At Heart"), que deu a Palma de Ouro de Cannes ao cineasta, em 1990. A Cinemateca do Museu de Arte Moderna também está promovendo uma retrospectiva de sua estética. Esta noite, às 18h30, tem "Império dos Sonhos" ("Inland Empire", 2007), um dos últimos exercícios criativos dele a ganhar a ribalta dos festivais de prestígio.

"David Lynch foi um dos criadores mais importantes dos últimos 50 anos", diz o site do MAM. "Produziu imagens de sonho e de pesadelo que marcaram multidões e influenciaram artistas no mundo inteiro.

Desde novembro, corre planeta adentro uma cópia restaurada do magistral "O Homem Elefante" ("The Elephant Man", 1980), que transformou o artista visual numa promessa para Hollywood, foi uma das pérolas resgatadas pelo evento egípcio. Nesta terça, seu público vai se empapuçar com uma coletânea de 97 minutos das narrativas breves rodadas pelo diretor em formato curta-metragem.

Macaque in the trees
'O Homem Elefante' levou Lynch à fama: custou US$ 5 milhões, faturou US$ 26 milhões e emplacou oito indicações ao Oscar | Foto: Divulgação

Sempre de ombreiras, por alegar aversão à sensação de frio nas omoplatas, Lynch fez do cigarro seu companheiro por toda uma vida. Sua estadia na Terra estendeu-se por 78 anos e terminou sob a fricção do enfisema pulmonar que começou a inviabilizar sua permanência nos sets, por travas respiratórias. Seu imaginário, entretanto, nunca foi travado por nada, apostando no insólito ao fragmentar signos que, no senso comum, deveriam ser domesticáveis. Por isso, um casal idoso de feições fofas adquire uma perspectiva assustadora numa sequência de "Mulholland Drive". O insólito era o dispositivo que guiava a narrativa do cineasta e artista visual americano, nascido em Montana.

Sua recente participação como ator em "Os Fablemans" (2022), de Steven Spielberg, no papel do mítico realizador John Ford (1894-1973), foi um presente para quem ansiava por recuperar contato com sua filmografia, que se alternava entre longas, vídeos, curtas (como "What Did Jack Do?", hoje na Netflix) e a série "Twin Peaks", um cult da década de 1990 retomado em 2017, com direito à projeção no Palais des Festivals na Croisette. Havia um outro seriado, "Urecorded Night", entre os projetos que sua fraqueza pulmonar encerrou, interrompendo uma filmografia coroada com a Palma de Ouro por "Coração Selvagem" (1990).

Quando Lynch estreou na direção de longas, em 1977, com "Eraserhead", o audiovisual dos EUA curtia os momentos finais da centelha revolucionária chamada Nova Hollywood, a onda que renovou a maneira de se filmar por lá, a partir 1967, engajando a indústria cinematográfica num questionamento de práticas moralistas. Faziam parte desse bonde Martin Scorsese, Brian De Palma, Francis Ford Coppola, Elaine May, George Lucas e o já citado Spielberg, que tinham uma mirada de revisão simbólica da América. Na reta final, despontaram vozes autorais que se preocupavam com as entranhas desse país de ambição (e ego) continental: John Waters, John Carpenter e Lynch, catapultado ao estrelato com "O Homem Elefante", no alvorecer da década de 1980. Ali, já era possível notar seu apreço por vivências não convencionais e hábitos estranhos, o que entrou em erupção pela primeira vez em "Veludo Azul", recompensado com uma indicação ao Oscar.

Formalmente mais coeso com as estruturas narrativas do cinema anglo-saxônico do que seus títulos posteriores, "O Homem Elefante" custou US$ 5 milhões e faturou cerca de US$ 26 milhões, conquistando oito indicações ao Oscar, contando com um Anthony Hopkins em início de carreira. Ele interpreta Frederick Treves, cirurgião do Hospital de Londres no século XIX, que encontra John Merrick (1862-1890), um artista (ou, mais precisamente, uma "atração") de circo desfigurado e aparentemente mudo, em um espetáculo vitoriano de aberrações. Chefe do rapaz, o empresário Sr. Bytes, o brutal mestre de cerimônias de um freak show (vivido por Freddie Jones), conta histórias chocantes de como paquidermes agrediram sexualmente a mãe de Merrick para criar um monstro meio humano. Na esperança de ganhar notoriedade com uma descoberta médica, Treves paga a Bytes para levar Merrick ao hospital para exames, usando um capuz para discrição. Aos poucos, uma relação de afeto se firma.

 

No início desta década, uma das mais provocativas criações de Lynch, sua adaptação (finalizada em 1984) do romance de tom sci-fi "Duna", de Frank Herbert (1920-1986), ganhou sobrevida, a reboque da nova versão desse tratado literário da fantasia feita por Denis Villeneuve. Na época de seu lançamento, as liberdades estilísticas do realizador chocaram plateias, mas, hoje, o que ele faz angaria novos fãs.

No "Duna" lynchiano, Kyle MacLachlan, o ator fetiche do cineasta nos anos 1980, foi escalado para viver o messiânico aristocrata das estrelas Paul Atreides.