Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Abel Ferrara em pingues e pongues

Abel Ferrara interpreta o perigoso Ezra Mishkin em sequência clímax de 'Marty Supreme' | Foto: Divulgação

Recheando streamings com sua obra autoral, o diretor de 'Padre Pio' ataca de ator em 'Marty Supreme', comédia nervosa de seu fã Josh Safdie que pode dar

Impressionando exibidores estrangeiros com um faturamento que só faz subir, sobretudo após a conquista do Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia (domingo passado) para Timothée Chalamet, "Marty Supreme" se consagra como um potencial sucesso de bilheteria e conta com pré-estreia no Brasil, neste fim de semana, para ampliar sua receita. O lançamento oficial aqui é no dia 22, mas há sessões dele na cidade, em diversos horários, desta quinta até sábado. O desempenho do astro de "Me Chame Pelo Seu Nome" (2017) como um craque de tênis de mesa obsessivo é um dos chamarizes do longa-metragem.

Cinéfilos de carteirinha que forem vê-lo serão presenteados com um mimo: a presença do diretor ítalo-americano Abel Ferrara em seu elenco. Muso das narrativas autorais independentes, o aclamado realizador de "Vício Frenético" (1992) anda, faz tempo, devotado à realização do thriller de gângster "American Nails", com seus habituais camaradas Willem Dafoe e Asia Argento. No empenho de fazer ficções, ele roda documentários, autoralíssimos. Faz da Itália sua base de operações, não por acaso, na longa reportagem que o "The New York Times" fez sobre sua atual volta às telonas, na condição de estrela, usa-se o título "Em Roma, chamam ele de Maestro".

Macaque in the trees
'Zeros e Uns' pode ser visto na Amazon Prime | Foto: Divulgação

Cada novo exercício que Ferrara faz instiga fãs como Josh Safdie, que dirigiu "Marty Supreme" e convenceu seu ídolo a aparecer em cena armado, com os dentes trincados, no papel do malvadão Ezra Mishkin, que dará trabalho ao tenista de mesa vivido por Chalamet. Em paralelo a esse bico, Ferrara vem ocupando cada vez mais espaço nas plataformas de streaming. Um de seus trabalhos recentes de maior destaque, "Zeros e Uns" ("Zeros and Ones"), inédito no Brasil desde 2021, enfim ganhou espaço no país, via Amazon Prime. Há cinco anos, o longa rendeu ao artista o prêmio de Melhor Direção no Festival de Locarno, na Suíça. Ethan Hawke, seu protagonista, está em estado de graça em cena.

Lançado nos EUA em novembro de 2021, meio na surdina, sem fazer alarde, "Zeros e Uns" tem alcançado os olhares (e o aplauso) da crítica internacional devagarzinho, mesmo espaço em tela à altura de sua potência. Ao cruzar experiências de textura de vídeo com a linguagem do Zoom e com a cartilha dos filmes de espionagem, o diretor de "Padre Pio" (20222), cria um mosaico plástico que renova, formalmente, o filão. Só "Guerra Sem Cortes" ("Redacted"), que deu a Brian De Palma o prêmio de melhor direção em Veneza, em 2007, atingiu algo tão possante na decantação da linguagem cinemática a partir de um diálogo com os códigos do YouTube. Na dramaturgia, Ferrara inflama (e joga sal sobre) as velhas feridas abertas na geopolítica internacional pelas práticas intervencionistas dos EUA. Os diálogos, ferocíssimos, abrem-se a pérolas como "Jesus foi apenas mais um soldado, uma casualidade de guerra". Esse desenho narrativo híbrido de videoarte, artes plásticas, colagem de pinturas e suspense ganha um colorido a mais do carisma de Hawke, dividido em dois papéis.

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'Sibéria', filme que rendeu ao realizador indicação ao Urso de Ouro na berlinale de 2020 | Foto: Divulgação

"Estamos carentes de autoentendimento no mundo e não é apenas pela pandemia. Falta um espaço para as pessoas se olharem nestes dias em que tudo é conectado e onde se rumina pouco as narrativas que a gente consome. Carecemos de gentileza para com as pequenas coisas que nos cercam", disse Ferrara ao Correio da Manhã em Berlim, em 2020, quando lançou "Sibéria", um drama existencialista classificado como obra-prima, que pode ser visto na Amazon também.

Tem uns nove longas dele nessa plataforma, incluindo "Sedução e Vingança" (1981), um dos pilares de seu cinema. Lá também se encontra "Enigma do Poder" (1998). Já no Reserva Imovision estão seus "Bem-Vindo a Nova York" e "Pasolini", ambos de 2014.

"Rei de Nova York" (1990) e "Maria" (Grande Prêmio do Júri em Veneza, em 2005) costumam ser mais citados, em cinematecas. Em 2024, na Berlinale, Ferrara exibiu uma experiência documental inédita: "Turn In The Wound", com a cantora Patti Smith.