Numa programação impecável no mês de janeiro, a Cinemateca do MAM abre espaço para 'Palombella Rossa', ampliando o culto ao septuagenário diretor italiano, que é ás da ironia
Numa corrida contra o relógio para ter o drama romântico "Succederà Questa Notte", estrelado por Louis Garrel, pronto até maio, para o 79º Festival de Cannes, Nanni Moretti vai reforçar a grade da Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) neste janeiro em que aquele espaço de projeção desafia as mais diversas concorrências com uma programação invejável. Nesta quarta, às 18h30, haverá projeção de um marco de sua estética: "Palombella Rossa", de 1989. No ano passado, essa projeção passou em Cannes, na seção Cinéma De La Plage, nas areias da Croisette. Lá, o diretor é rei. Ganhou a Palma de Ouro em 2001, com "O Quarto do Filho".
Um dos produtores mais prolíficos da Itália neste momento em que seu país luta para se livrar da sombra de seus grandes mestres sem trair a tradição do neorrealismo, Moretti ajudou a tirar dois filmes do papel nos últimos meses, "Vittoria" e "Quasia a casa", apoiando outros cineastas a forjar uma verve autoral. A sua já soma 51 anos e tem vez agora no MAM, de modo a apresentar às plateias cariocas uma forma política de se filmar comédias.
"Na minha vida, desde estudante, o cinema sempre simbolizou uma forma de exorcizar aquilo que eu queria combater", disse Moretti, em recente entrevista ao Correio da Manhã na França. "Carrego um apreço grande por Buster Keaton, e seu humor, e tento levar essa verve do deboche para a tela com a certeza de não ser imparcial e de me orgulhar disso".
Laureado com prêmios da crítica em Veneza e na Mostra de São Paulo, "Palombella Rossa" faz rir ao acompanhar um dirigente do Partido Comunista que costuma jogar polo aquático com rapazes mais novos que ele. A história se passa quase que inteiramente numa piscina, que funciona como uma metáfora da vida em sociedade. O humor bizarro de Moretti, também protagonista do filme, pode ser considerado um tributo à ironia histórica da Itália na arte cinematográfica.
"Muita coisa mudou no mundo nesse período, sobretudo a velocidade de consumo de tudo. O sistema já foi um sistema sólido, mas, neste momento, enfrentamos uma fase de desarticulação", disse Moretti.
Na década de 1980, quando a tradição de excelência da indústria cinematográfica italiana entrou em sucateamento, filmes como "Bianca" (1983) e "A Missa Acabou" (1985) fizeram dele um pilar de resistência. Ao longo das décadas seguintes, "Caro Diário" (1993), "Aprile" (1998), "O Crocodilo" (2006) e "Minha Mãe" (2015) expandiram seu prestígio autoral. Daí o impacto do resgate de seu "Palombella Rossa".
"O streaming surgiu hoje com força, e funciona muito bem no sistema produtivo das séries, mas, no campo dos filmes, o papel criativo do diretor não é o que foi. Fui formado por um tipo de narrativa pré-1968 em que cada filme refletia sobre a realidade e sobre o próprio cinema, com Ermano Olmi, Marco Ferreri, os irmãos Taviani, o Free Cinema inglês a Nouvelle Vague. Era um cinema que nos convidava a reagir".
Acerca do cinema italiano mais recente, no próximo dia 22, as salas do Rio recebem "Hey Joe", de Claudio Giovannesi. Nele, James Franco, astro conhecido pelo papel de Harry Osborn na franquia "Homem-Aranha" (2002-2007), tem a chance de voltar aos holofotes na pele do ex-pracinha da II Guerra Mundial Dean. Nos anos 1940, Dean viveu uma tórrida história de amor em Nápoles e abandonou sua amada grávida. Na década de 1970, ele decide correr atrás do prejuízo sentimental que causou e buscar seu filho, que se encontra envolvido com atividades ilícitas, nas raias da máfia.
Nesta quinta, com a projeção de "Twin Peaks - Os últimos dias de Laura Palmer" (1992), o MAM abre a mostra "Um Ano Sem David Lynch. Um dos achados da Cinemateca em janeiro é a exibição de "A Hora da Religião" (2002), de Marco Bellocchio, no dia 23, às 18h30.