Diretor de pérolas que desafiam a homofobia como 'Carol', ganha retrospectiva no CCBB no calor da conquista de um prêmio honorário em Cannes
Divo autoral de um cinema que se faz com pouco dinheiro, muitas ideias e vontade de celebrar a coragem das populações queer, o americano Todd Haynes completou 65 anos no último dia 2, mas ainda tem festa para ganhar... pelo menos dos fãs brasileiros... que devem entupir sua retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil a partir desta quarta-feira. O CCBB-RJ será a primeira das três unidades do aparelho cultural ligado a uma das mais sólidas instituições bancárias do país a ganhar uma mostra do diretor.
A carioca vai deste 14 de janeiro até 9 de fevereiro. Depois tem o CCBB-SP e o do DF. Arquitetada sob a curadoria de Carol Almeida e Camila Macedo - com idealização, coordenação e produção executiva de Hans Spelzon - tal revisão crítica da obra do realizador de "Veneno" (Prêmio Teddy, em 1991) almeja mostrar a novas gerações o quanto seu pensamento foi fundamental para debelar preconceitos. De seu pacote de pérolas fazem parte joias como "Velvet Goldmine" (prêmio de Melhor Contribuição Artística em Cannes, em 1998) e "Carol" (Queer Palm de 2015).
Haynes vem um 2025 quente. Ele presidiu o júri da Berlinale, em fevereiro, e, em maio, foi escolhido pela Quinzena de Cineastas para receber o troféu Carrosse d'Or, pelo conjunto de sua cinematografia, que tem o montador paulista Affonso Gonçalves como seu parceiro recorrente.
"O mestre alemão Rainer Werner Fassbinder dizia que um melodrama precisa de falsos finais felizes como forma de levar a plateia a entender o que se passa nos entornos da vida de suas personagens. Talvez por isso, o cinema que eu faço tenta mirar a sociedade e suas dinâmicas moralistas nas brechas em que a lente da câmera não está centrada nas protagonistas", disse Haynes ao Correio da Manhã, em entrevista na Espanha, quando lançava "Segredos de um Escândalo" ("May December"), hoje no Prime Video da Amazon. "Montei esse longa com o Affonso, como venho fazendo, pois ele é uma pedra fundamental na minha criação. Eu sou ruim de olhar o copião do que rodo, sobretudo quando ainda estou filmando, e entrego a ele a tarefa de me propor uma versão inicial do material bruto. Ele sempre me sai com ideias provocativas".
Na Berlinale, Haynes dimensionou suas origens artísticas: "Sou contemporâneo de uma geração de artistas que viveram o pesadelo da Aids em seu berço, sob a crença de que é possível filmar com liberdade. A ideia de indie, como signo de autonomia, abre avenidas para vozes serem ouvidas, como provou Sean Baker (o diretor do oscarizado "Anora"), faz pouco, ao provar que é possível rodar longas com um celular", disse Haynes ao Correio da Manhã em Berlim.
Ainda empenhado em tirar do papel o projeto "Fever", uma cinebiografia da cantora Peggy Lee (1920-2002), com Michelle Williams no papel central, Haynes sofreu uma decepção, há cerca de um ano e meio, quando Joaquin Phoenix desistiu, abruptamente, de um filme queer que rodaria com o cineasta, às vésperas de a filmagem começar. O filme "foi para o frigorífico", em uma suspensão que vislumbrou saída quando Pedro Pascal mostrou-se interessado em atuar no papel que era de Joaquim. Não há actualizações a respeito do que virá daí, mas Haynes foi devidamente celebrado em Cannes, ao ganhar a Carroça de Ouro, cujo nome faz referência ao legado de Jean Renoir. Organizadora desse tributo, La Société des Réalisatrices et Réalisateurs de Films (SFR) premiou em anos recentes as vozes autorais de peso, como Andrea Arnold, Souleymane Cissé, Kelly Reichardt, Frederick Wiseman, Martin Scorsese e Werner Herzog. Haynes foi escolhido por alargar as verves experimentais da imagem em seus filmes, como Far From Heaven (2002).
Na Croisette, um excerto da carta do Conselho de Administração da SFR dizia: "De "Superstar: The Karen Carpenter Story" a "Segredos de um Escândalo", os seus filmes são habitados por uma enorme crença nas possibilidades experimentais e narrativas do cinema. O seu gênio reside na capacidade de nos emocionar e deslumbrar num único gesto, conjugando o virtuosismo formal com uma infinita capacidade de empatia e ternura. Os seus filmes são refúgios para todas as pessoas que sabem o preço que pagaram pelos seus sentimentos e pela sua diferença. Incansavelmente e sem descanso, você desafiou as normas e estruturas da representação cinematográfica para melhor questionar as nossas representações sociais, raciais e de gênero. É como se todo o amor e toda a violência do mundo confluíssem no seu cinema para nos levar numa torrente de emoções.
O público da mostra Todd Haynes poderá acessar em edição virtual e impressa um catálogo sobre o realizador, que servirá como fortuna crítica adensada no campo dos estudos queer e de gênero, reunindo textos em português de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Em "Segredos de um Escândalo", além da montagem de Affonso Gonçalves, Haynes contou com a trilha sonora do longa é do brasileiro Marcelo Zarvos. "Editamos o filme ao som da música dele".