Em meio à luta da comédia contra patrulhas morais, a vitória de 'Corra Que a Polícia Vem Aí', com Liam Neeson, no Critics' Choice Awards amplia a vitalidade do gênero que faz rir
Orçado em US$ 42 milhões, "Corra Que A Polícia Vem Aí!" ("The Naked Gun") faturou cerca de US$ 102 milhões, não cessa de atrair audiência no streaming (na Paramount e na Amazon) e, de quebra, faturou um prêmio inusitado (e de prestígio): o Critics' Choice Award. Na votação anual de um colegiado da crítica especializada dos EUA, o longa-metragem foi eleito a Melhor Comédia de 2025. O resultado, anunciado há uma semana, chegou no momento em que outro exemplar dos bons das narrativas cômicas, "Anaconda", lota salas, trazendo Selton Mello em seu elenco. Em parte, as muitas vitórias do longa derivado da franquia milionária que fez de Leslie Nielsen (1926-2010) uma estrela se deve a Liam Neeson. Sua atuação embatuca geral.
Incumbido da missão de ser o Charles Bronson do século XXI, o irlandês Liam Neeson salvou os filmes de ação da indiferença popular em 2009, quando "Busca Implacável" ("Taken") tornou-se blockbuster, sem exibidor nenhum esperar, transformando-o num ferrabrás do tapa na cara. Nos últimos 17 anos, sem ignorar convites de diretores autorais, como Martin Scorsese, Atom Egoyan e seu compatriota Neil Jordan, ele manteve acesa a pólvora dos longas de pancadaria, assumindo um lugar de vigilante crepuscular, já grisalho, fazendo jus à sabedoria dos seus 73 anos. Em 2025, além de mobilizar telas e streamings com sessões comemorativas dos 20 anos de "Batman Begins" (no qual é vilão), ele salvou outra pátria: a comicidade.
A escalação dele para estrelar a nova versão de "Corra Que A Polícia Vem Aí!" foi uma forma de angariar plateias para o filão que correção política - vitaminada pela filosofia woke - enfraquece dia a dia. O mesmo vinha acontecendo com os thrillers de adrenalina pura... até Liam salvá-los.
Sob a direção de Akiva Schaffer, o novo "Corra Que A Polícia Vem Aí!" é uma continuação tardia da trilogia com Leslie Nielsen. Frank Drebin, o tira abilolado que Nielsen (dublado aqui por Márcio Seixas) encarnava, fez fortunas. O primeiro filme de sua trilogia, lançado em 1988, custou US$ 12 milhões e arrecadou US$ 152 milhões. O segundo custou US$ 23 milhões e ajudou o ano cinéfilo de 1991 a ficar com as contas no azul ao somar US$ 192 milhões. O terceiro e último episódio de suas peripécias - que hoje podem ser vistas na Netflix - contabilizou US$ 132 milhões em 1994. Cabe agora a Liam viver Drebin Jr. Armando Tiraboschi é seu dublador.
Na trama, esse Didi Mocó da Lei e da Ordem tem um assassinato para desvendar em meio à luta para impedir que seu departamento feche as portas. Pamela Anderson, atual namorada de Liam, é outro destaque do elenco do longa, cujo produtor é Seth MacFarlane, o criador do desenho "Uma Família da Pesada". Mais do que isso, Seth foi o responsável pelo último fenômeno humorístico de Hollywood: "Ted" (2012), aquela deliciosa farofa na qual um adulto (Mark Wahlberg) tinha como melhor amigo um ursinho de pelúcia falante. Sua arrecadação na venda de ingressos beirou US$ 550 milhões há... 13 anos.
Desde então, nos EUA, o gênero que presenteou o planeta com Buster Keaton, Mae West, Jerry Lewis, Lucille Ball, Goldie Hawn, Steve Martin, Lily Tomlin, Jim Carrey e gigantes afins não teve mais cifras astronômicas nos multiplexes. Seu dínamo mais imbatível, Adam Sandler, que lotou salas de 1998 (quando lançou "O Rei da Água") até 2011 (ano de "Cada Um Tem A Gêmea Que Merece"), migrou para a Netflix há uma década. Lá, sob a dublagem indefectível de Alexandre Moreno, ele reina. Não por acaso, um de seus últimos, "Um Maluco no Golfe 2" ("Happy Gilmore 2"), lançado em julho na plataforma, virou uma febre.
Falando em comédias, o Brasil emplacou um golaço no fim de semana com "Agentes Muito Especiais", de Pedro Antonio, com Marcus Majella e Pedroca Monteiro no papel de um par de operativos queer do Bope. Este começo de ano agitado para nossa filmografia - que não para de encher sala com sessões de "O Agente Secreto" - aquece a expectativa por "Minha Amiga", comédia estrelada pelo duo Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, com direção de Susana Garcia. Sua estreia pode mudar os ramos do mercado, assim como a de "Deus Ainda É Brasileiro", que Cacá Diegues (1940-2015) deixou inacabado, antes de morrer. Sua montagem está para ser apresentada em breve, narrando a volta do Todo-Poderoso (Antonio Fagundes) ao Nordeste.
Liam regressa à telona no dia 22 com "Alerta Apocalipse".