Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / FILME / FAMÍLIA DE ALUGUEL: Uma ‘delicinha’ de filme numa carreira renascida

A persona desterritorializado de Brendan Fraser em 'Família de Aluguel' ajuda uma gente muito só a se sentir querida | Foto: James Lisle/Divulgação

Apesar da esnobada que recebeu das grandes premiações americanas nesta temporada de Oscars, “Família de Aluguel” (“Rental Family”) chega ao circuito exibidor brasileiro de cabeça erguida, carregando o status de “filme delicinha”, que recebeu no Festival do Rio, em outubro. É um dos trabalhos mais tocantes de Brendan Fraser desde “A Baleia”, que lhe rendeu o Oscar, em 2023. Pode se dizer, sem temor, que temos uma grande estreia inaugural para um 2026 que promete renovação de público, com filmes de super-heróis (bons) a granel.

Pavimentada sob o faz de conta, Hollywood estoura rojões quando fareja um comeback, jargão da indústria audiovisual para a reconfiguração de carreiras que embotaram seja por polêmicas, seja por escolhas infelizes. É o caso de Fraser, hoje com 57 anos. Ele vem se engajando numa luta para que um dos fiz recentes que fez (e como vilão), “Batgirl”, engavetado pela Warner Bros. no momento em que o estúdio mudava seu foco entre o circuitão e o streaming (HBO Max). Nessa cruzada, o ator não teve êxito, mas repaginou sua trajetória. A consagração de seu desempenho em “A Baleia” (hoje na Netlix), com direito a ganhar a estatueta da Academia de Artes de Ciências Cinematográficas, redefiniu sua relevância na cultura pop, onde despontou como uma garantia de sucesso na década de 1990, derrapando fragorosamente há 21 anos cravados, depois de participar de “Crash: No Limite”.

Comovente, “Família de Aluguel” traz Fraser no apogeu de sua maturidade num equilíbrio fino entre riso e pranto no papel de um ator falido que vive no Japão e, numa Tóquio repleta de desconexões, vira operário numa agência que forja “parentescos”... e afetos. É assim: se uma pessoa está solitária e sonha ter um “parente” para chamar de seu, ela aluga os serviços dessa companhia que providencia alguém para se passar como um primo distante e até uma figura paterna há muito sumida.

Phillip Vandarploeug, o tal ator encarnado por Fraser, é escalado pela tal agência para se passar pelo pai de uma garotinha... para ser o noivo postiço de uma jovem que ainda não pode sair do armário... para ser o entrevistador de uma lenda do cinema. Essas aventuras sentimentais são dirigidas com delicadeza pela realizadora Mitsuyo Miyazaki, conhecida apenas como Hikari. A fotografia de colorido primaveril de Takurô Ishizaka imprime leveza ao visual de um filme que se candidata a êxito popular, calçado na precisão de Fraser em humanizar o arquétipo do looser. É uma evocação à estética de cineastas autorais como Frank Capra (de “A Felicidade Não Se Compra”) só que multicultural, deliciosamente engraçado.

Essa persona do desterritorializado que ajuda uma gente muito só a se sentir querida refina o percurso que Fraser fez ao retomar os trilhos de sua profissão, com a qual havia perdido o elã. “A Múmia” (1999) fez dele um astro. “Viagem ao Centro da Terra” (2008) lotou de brasileiros afoitos por vê-lo. A escolha do popularíssimo dublador Guilherme Briggs para ser sua voz oficial no Brasil aumentou ainda mais sua fama. Contudo, um turbilhão de crises pessoais, somadas a escolhas de filmes equivocados, levou-o ao ostracismo de 2010 em diante, com exceção de uma participação dele como a voz do Homem-Robô na série “Patrulha do Destino”, da HBO Max. Sua vida perdeu o viço do passado. Aí veio “A Baleia”, três anos atrás. De cara, esse drama sobre um professor de Redação com obesidade em alto grau, às voltas com a morte anunciada, encantou o Festival de Veneza, que lhe rendeu uma indicação ao Leão de Ouro. No caminho, a Academia de Hollywood achou que era hora de Fraser vicejar outra vez, ao ver do que ele foi capaz de fazer numa longa que enfrenta a gordofobia, a homofobia e uma série de outras violências para celebrar a serenidade.

Agora, com “Família de Aluguel” a confiança que o cinemão depositou nele foi devidamente justificada. Fraser renasceu e segue, feito Fênix, a voar. Um novo “A Múmia” já está a caminho.