Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Buda Lira: 'Tenho tido a oportunidade de circular pela produção de figuras que admiro'

Buda Lira, ator paraibano | Foto: Eduardo Brito/Divulgação

Com uns 40 filmes no currículo e pelo menos uns dez prêmios de peso (entre eles um troféu do Fest Aruanda por sua esplendorosa atuação em "Suspiro"), o paraibano Buda Lira tem sempre espaço nobre no cinema do pernambucano Kleber Mendonça Filho, como comprova a figura acolhedora, mediadora de conflitos, chamada Anísio, vivida por ele em "O Agente Secreto". A turma que integra o contingente de 1.143.727 espectadoras/es contabilizado por esse filmaço nas salas de todo o Brasil, desde sua estreia, em 6 de novembro, sabe que Anísio esconde no alvissareiro sorriso de chefe de repartição pública mais do que acolhimento. Ele é uma chave para a segurança do personagem de Wagner Moura, em sua volta ao Recife de 1977.

Sempre existem camadas extras nos personagens que Kleber oferece a Buda - nascido Ronald Lira de Souza, há 70 anos. Ele aparece em "Aquarius" (2016) e "Bacurau" (Prêmio do Júri em Cannes, em 2019) e brilha em muitos outros curtas e longas com CEP nos estados do Nordeste. Seu talento colossal, efervescente em sua voz mansa e olhar plácido, enlaça qualquer câmera.

Sua família é apinhada de artistas. A irmã, Soia Lira, atriz premiada, atua em "Central do Brasil" (1998) e "Pacarrete" (2019). Nanego Lira, seu irmão, é ator de peso e foi o padre Zezo das novelas "Mar do Sertão" e "No Rancho Fundo". Outros dois de seus manos lecionam: Bertrand Lira, que também é roteirista e diretor de cinema, e Domingos Sávio, que é professor de arte e, eventualmente, ator. Numa troca de zaps e emails de João Pessoa, onde vive, Buda fala ao Correio da Manhã sobre sua parceria com um dos cineastas mais inquietantes do planeta hoje.

O que a figura de Anísio, funcionário público de carreira que age como ponte para a proteção do personagem de Wagner Moura em "O Agente Secreto", simboliza sobre o Brasil dos anos 1970 e o que ele reflete do Brasil de hoje?

Buda Lira - Anísio tem senso de humor, é empático, é solidário... É uma figura com o senso de responsabilidade e de compromisso, coisa que a situação do país exige. Muito necessário em qualquer tempo e espaço. Claro, que agora, nos dias de hoje, como antes, são fundamentais esses valores, para que eles contribuam para uma convivência civilizada num país que, de fato, enfrente os seus maiores desafios e, digamos, as nossas crônicas chagas sociais.

Que memórias de sua infância ou juventude você guarda daquele pedaço dos anos 1970?

São tantas que é difícil achar o ponto de partida. Lembro muito dos tempos em Cajazeiras, no alto sertão paraibano. Lembro da iniciação no teatro, dos bailes nos clubes, das festas de rua, do cinema que ficava a 100 metros da minha casa, no centro da cidade. Lembro da transição para estudar na capital, no final de 1972, e da figura do meu pai, Major Chiquinho, um funcionário público da Receita Estadual da Paraíba, exemplar na sua profissão e muito humorado. A "patente" de Major ele ganhou dos amigos nas biritas, quando jogava com o seu bom humor. Era conhecido como Chico Guarda. Guarda Fiscal era a profissão dos atuais auditórios fiscais nos estados. Numa das noitadas, resolveram "batizar" de Major. Era uma figura solidária, ativo na política e na boemia da cidade, em Cajazeiras-PB.

Quando e por que Ronald virou Buda?

Entre os 4 a 6 anos, aproximadamente, vivi na cidade de Uiraúna (PB), onde nasci, bem perto de Cajazeiras. Meu pai, funcionário público, havia se transferido para lá. No começo da noite, era comum as famílias botarem as cadeiras na calçada para esperar o vento "Aracati" e, claro, comentar as histórias e as estórias da cidade. Um dentista, em uma destas ocasiões, reparou que eu sentava em posição semelhante ao de "Buda meditando". E pôs esse nome. Meu segundo e definitivo batismo.

O que o Kleber Mendonça Filho, seu diretor recorrente, representa hoje para o Nordeste, como símbolo de expressão artística? O que existe de mais valioso no trabalho dele?

Muito se fala na contemporaneidade do seu trabalho: um cinema político, sofisticado e de grande alcance. Essa movimentação solar de Kleber no Nordeste empresta uma grande força à cultura da região e do país, num momento em que são necessárias referências como a dele e de outros nomes expressivos que atuam nos diferentes estados, principalmente na relação com o grande público.

Você tem filmes novos de Torquato Joel ("Corpo da Paz") e o de Frederico Machado ("Terra Devastada") como destaques recentes no currículo. O que mais tem para estrear ou filmar?

Tenho tido a oportunidade de circular pela produção de figuras que admiro e que são referências no cinema do Nordeste e, às vezes, em outras regiões, seja fazendo longas ou curtas-metragens. Aqui na Paraíba e em Alagoas, aguardo ansioso pela estreia do filme "O Braço", de Ian Iabé, e "Treme Terra", de Werner Salles, respectivamente. No último trimestre do ano passado, fiz um filme em Tocantins: "Sobre Dora e Dores". É a estreia no cinema de um casal que atua no teatro e na produção cultural em Palmas: Bell Gama e Kaká Nogueira. Todos esses três trabalhos devem estrear ainda neste ano de 2026.

Como você avalia a cena cultural paraibana hoje?

Buda Lira: Na cena cultural na Paraíba, é possível identificar um movimento forte nas áreas do audiovisual e da música como vanguardas das diferentes expressões. O que temos como maior desafio é fazer com que as muitas produções que pulsam em diferentes setores cheguem ao grande público. Aqui na Paraíba e em todo o país.

Macaque in the trees
O misterioso personagem de Wagner Moura em 'O Agente Secreto' encontra o apoio do chefe de repartição Anísio (Buda Lira) | Foto: Neon Cinemascópio