Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O Xangrilá de Hollywood

Nikki Glaser volta a comandar a premiação | Foto: Divulgação

 

Dedicado há 65 anos a receber a festa do Globo de Ouro, o Beverly Hilton abre suas alas de luxo neste domingo à 83ª edição do prêmio, que pode consagrar o Brasil de 'O Agente Secreto'

Desde o dia 5 de janeiro do ano passado, quando Viola Davis chamou Fernanda Torres para buscar a estatueta de Melhor Atriz por seu desempenho em "Ainda Estou Aqui", o Beverly Hilton, Xangrilá de elegância entre os hotéis da Califórnia, responsável por sediar a festa anual do Globo de Ouro há 65 anos, ganhou um status de lar para o cinema brasileiro. Nossa torcida cinéfila está concentrada lá, mais uma vez, à espera da 83ª edição do prêmio concedido pela imprensa especializada na cobertura da produção audiovisual, agora no aguardo de boas novas para "O Agente Secreto".

Neste domingo, aquele espaço sagrado onde o longa-metragem de Walter Salles pavimentou (de vez) a sua estrada para o Oscar, em 2025, volta a hospedar os sonhos cinéfilos do Brasil, centrados no thriller dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho.

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Fernanda Torres recebe de Viola Davis o prêmio de Melhor Atriz na cerimônia de 2025 por seu desempenho magsitral em 'Ainda Estou Aqui' | Foto: Divulgação

Comandada pela atriz Nikki Glaser, a cerimônia começa a ser televisionada a partir das 21h30 (no horário de Brasília), e será transmitida ao vivo. Lá fora, a transmissão se dá pela rede CBS (na TV) e no streaming Paramount . Aqui, será possível assistir na TV Globo, logo após o "Fantástico", na TNT (TV a cabo) e na plataforma HBO Max.

A produção ambientada no Recife de 1977 concorre aos troféus de Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Ator, à força do desempenho do baiano nascido da cidade de Rodelas Wagner Moura.

A inauguração formal do Beverly Hilton, onde Wagner e Kleber estarão, foi realizada em 11 de agosto de 1955, com a presença de seu construtor, Conrad Hilton (1887-1979). Vice-presidente dos EUA na época, Richard Nixon (1913-1994) presidiu o hasteamento da bandeira americana em suas fundações. Lá foram filmados cults como "Viver ou Morrer em Los Angeles" (1985) e "Argo" (2012). O hotel provou ser um sucesso imediato e o seu salão de baile, Bali Room, teve o seu tamanho duplicado em 1957, a um custo de US$ 400 mil, o que o levou a ser reaberto (com pompas) em 1958, com o nome International Ballroom, com 1.700 lugares.

É lá que a Golden Globe Foundation anuncia seus ganhadores, em cinema e em TV, divididos, na maioria das categorias, em dois hemisférios: Drama (que também comporta narrativas de terror) e Comédia/Musical. No primeiro hemisfério, os títulos com mais indicações são o norueguês "Valor Sentimental" ("Affeksjonsverdi"), disputando em oito frentes, e o americano "Pecadores" ("Sinners"), de Ryan Coogler, um longa de vampiros, concorrendo a sete troféus. No âmbito Comédia/Musical, "Uma Batalha Após A Outra" ("Onte Battle After Another"), de Paul Thomas Anderson, entra em campo com nove nomeações. No domingo passado, ele ganhou o Critics' Choice Awards, que escolheu "O Agente Secreto" como Melhor Filme de Língua Estrangeira.

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A suntuosidade do Beverly Hilton | Foto: Divulgação

Há tempos, acabou-se a lenda de que quem ganha o Globo dourado levará o Oscar, sem tirar nem por. Muitas produções aclamadas lá no Beverly Hilton, na sequência, ficaram à míngua na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que tem o seu próprio colegiado, tipo "Babel", "Dreamgirls" e "1917". Quem mais influencia a aritmética que leva um longa-metragem ou um(a) artista a se "oscarizar" são associações sindicais dos EUA, sobretudo o Screen Actors Guild e o Producers Guild of America. O número de votantes de ambas é alto.

No entanto, vencer o Globo de Ouro assegura a quem ganha maior visibilidade do mercado, com aumento potencial de venda de ingresso e crescimento em popularidade, fora o prestígio de passar no crivo de cerca de 300 votantes, de 76 países. Isso faz a massa de acadêmicas/os de Hollywood repensarem pré-conceitos (e preconceitos).

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O Beverly Hilton acolhe as celebridades das telas | Foto: Golden Globes

Um novo horizonte se abriu para a premiação, desde que a Golden Globe Foundation tomou as rédeas dessa tradicional consagração ao esforço artístico num momento em que sua gestora anterior, a Hollywood Foreign Press Association (HFPA), estrava em crise. Uma renovação se fez ali, a partir do Beverly Hilton.

Devassada por polêmicas na chegada dos anos 2020, a HFPA abriu suas portas em 1943, com o objetivo de estimular a circulação de notícias ligadas ao mais popular motel platônico do século XX - o cinema - para além dos muros dos Estados Unidos, tendo como principal chamariz de seu trabalho a organização de um prêmio anual: o tal Globo de Ouro. A primeira cerimônia em que a láurea foi concedida ocorreu em 1944, no estúdio 20th Century Fox, de olho nos magnatas da indústria. Seu primeiro vencedor foi "A Canção de Bernardette" ("The Song of Bernadette"), que conquistou vitórias nas disputas de Melhor Filme, Direção (Henry King) e Atriz (Jennifer Jones). Seu troféu - caracterizado por uma reprodução da esfera terrestre rodeada por uma película de filme cinematográfico - teve vários designers ao longo das últimas oito décadas. A versão distribuída atualmente pesa cerca de 3,5 quilos; é feita de latão, zinco e bronze; mede 11,5 polegadas, acoplando-se a uma base retangular, vertical, de notável elegância. De 1950 até 2022, guerras internas - de egos e de condutas profissionais questionadas em parâmetros éticos - quase levou a festa de entrega dessa estatueta à extinção, sob a acusação de abusos de poder, falta de representatividade (das populações negras, asiáticas, indígenas) e sexismo. Brendan Fraser, oscarizado por "A Baleia", em 2023, foi um dos mais críticos opositores ao que se fazia nos bastidores dessa estatueta.

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Imagem da cerimônia de 1960, antes de o Beverly Hilton sediar a festa | Foto: Golden Globes

A ameaça de cancelamento reinou sob as cabeças da HFPA até uma revitalização, em 2023, já sob as engrenagens da Golden Globe Foundation. Essa lanternagem (ética e estética) dá ao contingente de profissionais de mídia envolvidos em sua realização a chance de abrir as atividades para 2026 abençoada por toda a nata do entretenimento.

Com a reformulação, a composição de seus integrantes com direito a voto se ampliou e se diversificou em esfera multicultural, o que leva à crença de que o ganhador da Palma de Ouro de 2025, "Foi Apenas Um Acidente" ("Un Simple Accident"), drama político com toques de suspense do realizador iraniano Jafar Panahi, possa vencer os Globos de Melhor Direção, Melhor Roteiro e até a de Melhor Filme de Drama, derrotando "O Agente Secreto". Isso seria impensável no passado. Hoje, não. Panahi, diretor de "O Balão Branco" (1996), famoso por suas lutas contra as arbitrariedades do governo do Irã (que o sentenciou à prisão, caso ele lá volte, na semana passada), não era o tipo de artesão autoral que passava no crivo do Globo dourado de outrora. Agora é.

Na premiação do Círculo de Críticos de Nova York, Panahi chegou a ironizar Jair Bolsonaro, numa declaração em que demonstrou carinho por "O Agente Secreto" e expôs seu desdém por políticos de extrema direita. Seu longa, já em cartaz no Brasil, hoje é visto como um potencial vencedor de muitas premiações hollywoodianas. Vale a mesma lógica para o experimento transcendental espanhol "Sirât", do galego Oliver Laxe, centrado na busca de um pai por sua filha numa rave no deserto.

Não há mais estagnação nos Globos de Ouro e Kleber Mendonça sabe disso. Ele foi repórter de cinema em Pernambuco, dos anos 1990 até o princípio da década passada. Cobriu Cannes por anos a fio antes de exibir seus filmes por lá, de onde saiu com o Prêmio de Melhor Direção em maio. "Os anos como crítico foram importantes para a minha formação artística porque tinha de ver muitos... muitos filmes", disse Kleber no Festival de Marrakech. "Hoje vemos apenas os filmes que queremos ver; mas como crítico, eu também via filmes que, em circunstâncias normais, nunca escolheria. E ao vê-los, fazia descobertas. Vê-se um grande número de filmes e depois exerce-se a escrita sobre eles. Fiz isso durante 13 anos. Tornou-se um exercício constante e, a partir dele, eu pude compreender o que a cultura está a fazer conosco. Para mim, crítica é isso: medir a temperatura cultural. Pode aplicar-se à música e à literatura também. Mesmo uma comédia romântica comercial pode ser interessante como termómetro do mundo. Depois fiz os meus curtas e chegou o momento de preparar o primeiro longa, 'O Som ao Redor'. Senti que era a altura certa para mudar. Lembro-me de abandonar a crítica numa sexta-feira e começar a pré-produção no sábado seguinte. Foi como deixar de fumar".

Indicado à Palma de Ouro antes com "Aquarius", em 2016, e com "Bacurau", que lhe rendeu o Prêmio do Júri de Cannes em 2019 (em codireção com Juliano Dornelles), Kleber foi agraciado na Croisette este ano também com o Prêmio da Crítica da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) e com uma láurea especial da Associação de Cinemas de Arte e Ensaio da França. Wagner Moura, estrela de "O Agente Secreto", foi escolhido como Melhor Ator pelo júri cannoise que teve a atriz francesa Juliette Binoche como presidente.

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Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho no set de 'O Agente Secreto': ator e realizador podem fazer história neste domingo em Los Angeles | Foto: Victor Jucá/Divulgação

Na trama de "O Agente Secreto", ele chega num fusquinha no Recife de 77, atendendo pelo nome de Marcelo, para integrar o estafe de uma repartição onde registros de identidade são tirados e arquivados. Busca uma evidência sobre sua mãe, uma mulher de origem pobre que engravidou dele numa transa com um patrão rico. Tem um filho que deseja tirar de lá e levar para viver consigo. O tal Marcelo esconde um segredo que envolve a disputa por uma patente científica da universidade pública, na qual era professor e pesquisador. Assassinos estão em seu encalço. Uma entidade que protege desafetos de Geisel, o ditador de então, zela por ele, sob uma premissa: "precisamos te proteger do Brasil".

Resta saber qual será a sorte do Brasil no Beverly Hilton. No próximo dia 22, saem as indicações para o Oscar, que entrega suas estatuetas no dia 15 de março.