Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'Transamazônia', reeducação geográfica

'Transamazônia' expõe o quanto a fé pode ser um espetáculo... e o quanto pode bloquear a visão de conflitos além da metafísica | Foto: Divulgação

Indicado ao Leopardo de Ouro de Locarno, produção multinacional dirigida por Pia Marais se esgueira pelas frestas da fé e da exploração de recursos da selva para discutir redenção

Quando a realizadora Pia Marais visitou o Brasil, em 2024, como convidada do Festival do Rio, a América Latina era outra... era um continente onde o Brasil ainda não havia votado a prisão de Jair Bolsonaro e a Venezuela ainda não havia passado pelo turbilhão que levou o líder Nicolás Maduro sob algemas trumpistas. Com as devidas proporções, o mundo retratado pela cineasta (de origem sueca, mas nascida na África do Sul) em "Transamazônia" é o mesmo de então. Só que agora, enfim, dois anos de ter concorrido ao Leopardo de Ouro de Locarno, ele chega ao circuito exibidor. Seu filme estreia nesta quinta-feira (8), cercado de expectativas e controvérsia.

"Eu tive a chance de entender, em solo sul-americano, como as comunidades indígenas vivem o que classificamos como contemporaneidade, numa demarcação de tempos capaz de dar corporalidade a matérias metafísicas", explicou Pia ao Correio da Manhã, em solo carioca, num encontro do Armazém da Utopia, no Cais do Porto, onde estava ao lado do ator Hamã Sateré e pelo produtor Camilo Cavalcanti.

Para rodar o longa-metragem em fronteiras latinas, foi necessário que diretora de "Layla Fourie" (2013) e "Seventeen" (2002) se esquivasse dos exotismos inerentes a qualquer imersão estrangeira na porção brasileira da maior floresta tropical do planeta. Seu "Transamazônia" é, antes de tudo, um processo de reeducação geográfica e afetiva sobre o planisfério da exclusão e sobre a questão indígena. A demarcação simbólica da fronteira entre ancestralidades e o que se chama de Presente é um de seus meridianos. Ao tratar do tema, Pia enfrentou críticas por (supostamente) se enquadrar no código dos filmes white savior, ao abrir um debate sobre a presença de uma comunidade branca de empatia humanista, mas de postura messiânica. Um processo similar ocorreu com Hector Babenco (1946-2016) nos tempos de "Brincando nos Campos do Senhor" (1991).

"Encontrei uma Amazônia onde as tradições ancestrais apareciam em destaque de um lado e, a tecnologia dos media se destacava no outro extremo, num contraste do nosso tempo, onde tudo se polariza. Encontrei toda uma população com smartphones na mão, que vai a boates na sexta-feira à noite. Eu queria preservar isso no meu retrato, para buscar a diversidade do que o mundo é hoje", disse Pia.

Como o filme foi rodado no estado do Pará, uma das cineastas mais respeitadas da região, Jorane Castro (de "Para Ter Onde Ir"), integrou o projeto como coprodutora e também esteve presente na exibição carioca de "Transamazônia". A trama tem como protagonista Rebecca (Helena Zengel), uma jovem vinda do outro lado do Atlântico que ganha status de curandeira após sobreviver a um desastre aéreo em plena floresta. Ela é filha do missionário Lawrence Byrne (Jeremy Xido), que trata a sobrevivência da filha como um milagre e explora essa dimensão milagrosa como forma de atrair fiéis. A fama de Rebecca se espalha por uma região que acaba invadida por madeireiros ilegais. A presença deles fere a integridade dos povos indígenas em processo de evangelização e lança a família Byrne no centro de um conflito.

"Quando Bolsonaro assumiu a presidência, pensei em mudar o projeto para a Guiana Francesa, mas o Brasil era o lugar certo. É um território imenso, que me impressionou desde a primeira viagem de preparação que fiz, em 2015", afirmou Pia, que elogia a postura corajosa de Hamã nos sets. "Ele demonstrou muita bravura em suas cenas."

O jovem ator integra o microcosmo de encontros que introduzem novos vetores sociais na vida de Rebecca. "Nem eu imaginava que interpretaria um personagem com tanta coragem", comentou.

Integrante da produção de "A Vida Invisível" (Prix Un Certain Regard em Cannes, 2019), Cavalcanti relembra que Pia, amiga do cineasta Karim Aïnouz, percorreu o Pará em busca de uma estrada que servisse como eixo narrativo do filme. "Fomos de Belém a Tucuruí, em território das populações Assurini", relatou o produtor à época.

Ao refletir sobre as experiências vividas na América do Sul, Pia se depara com a interseção entre religião e política em um continente marcado pelo avanço das igrejas neopentecostais, e cita o dinamarquês Carl T. Dreyer, diretor de "A Palavra", como referência no tratamento da fé.

"Existe um saldo patriarcal onde a fé se articula com a dimensão econômica. Não reflito de modo frontal, aqui, nesse filme, sobre a conexão entre fé e política. Talvez o que mais me interesse seja o aspecto da redenção e do perdão, que também é um valor cristão".