Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Um Benicio Del Toro após o outro

O sensei Bob de 'Uma Batalha Após A Outra' pode dar o Globo de Ouro a Benicio Del Toro | Foto: Warner Bros.

Imparável nas telas, ator porto-riquenho, prestes a completar 40 anos de carreira, disputa estatuetas em filme de Paul Thomas Anderson e mobiliza o streaming à luz de Wes Anderson

Falta pouquinho para o porto-riquenho Benicio Del Toro completar 40 anos de carreira, numa ponte entra a América hispânica de seus ancestrais e o showbusiness dos EUA. Debutou para as câmeras no seriado "Miami Vice", em 1987, e, dali para diante, estabeleceu uma carreira cheia de sucessos e cults. Um deles, "Baquiat - Retratos De Uma Vida" (1996), está comemorando 30 primaveras, com direito a projeção em tela grande, no Cinesystem Belas Artes, no próximo dia 12 (segunda-feira que vem), às 20h40. Um dia antes dessa sessão, o ator pode contabilizar um prêmio a mais em seu currículo, o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante. Neste domingo (11), Del Toro estará no Beverly Hilton, na Califórnia, no páreo da láurea hollywoodiana dos jornalistas especializados em cinema, concorrendo por seu desempenho como sensei Carlos em "Uma Batalha Após A Outra", de Paul Thomas Anderson.

"Existe um olhar cheio de esperança nesse filme", diz Del Toro, em entrevista via Zoom ao lado do protagonista de "One Battle After Another" (título original), Leonardo DiCaprio, num papo promovido pela Golden Globe Foundation. "Todo mundo nesse projeto tinha um senso de tom do que cada personagem deveria ser".

Preparando-se para voltar à telona no primeiro longa-metragem do ator Jamie Foxx no posto de cineasta, chamado "O Jogo da Rivalidade" ("All-Star Weekend"), Del Toro ajudou a fazer de "Uma Batalha Após a Outra" um ímã de elogios (e de troféus), desde sua estreia, em setembro. Sua bilheteria beira US$ 205 milhões e sua procura nos streamings (na HBO Max e na Amazon Prime Video) é das mais fortes. No longa, o mestre de caratê vivido por Del Toro (com direito a uma dancinha para a polícia, numa sequência hilária) é um dos aliados do especialista em explosivos Pat, mais tarde apelidado de Bob, interpretado por DiCaprio. Pat vive um caso de amor com Perfidia Beverly Hills, "A" personagem do ano. Sua intérprete, Teyana Taylor, só precisa de um punhado de minutos em cena para se fazer onipresente, como vetor de empuxo na vida de homens que a amaram (ou a desejaram) capaz de expor racismos institucionalizados pelo país que elegeu Donald Trump, sem vergonha da xenofobia que ele encampa em sua política de extrema direita. Ela deixou uma filha, hoje adolescente (Chase Infiniti), pela qual Pat zela com todo amor. O problema maior dele, agora que a menina está nos 16 anos, é o militar Steven J. Lockjaw, um oficial imparável em seu predatismo contra grupos rebeldes, vivido por um assombroso Sean Penn. Lockjaw teve um trelelê com Perfidia lá atrás e não se desgarrou da lembrança dela. Essa trama deu à produção o Critics' Choice Award em três categorias (Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado) no domingo. Sua trajetória pelo Globo de Ouro inclui nove indicações.

"Cada personagem é diferente, cada um carrega sua história", diz Del Toro, ciente de que sensei Carlos espelha a luta contra a intolerância de uma América xenófoba.

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O empresário exótico vivido pelo ator assegura um torvelinho de confusões a 'O Esquema Fenício' | Foto: TPS Productions Focus

Um futum de xenofobia também cerca o papel vivido por ele, com garbo em "O Esquema Fenício" ("The Phoenician Scheme"), hoje na Prime Video. Indicada à Palma de Ouro do Festival de Cannes, essa hilariante aventura marca um reencontro de Benicio com Wes Anderson, um dos cineastas mais festejados da atualidade, com quem trabalhou em "A Crônica Francesa", em 2021.

"Não penso muito sobre o meu legado. Num filme como 'O Esquema...', converso muito com Wes, mas as respostas estão todas no roteiro dele", disse Del Toro em Cannes, onde o filme mobilizou holofotes em parte pelo zaralho tocado na Croisette por Bill Murray (um dos atores fetiches de Wes), com seu jeitão abilolado.

Benicio também foi na onda do colega, esbanjando humor numa coletiva de imprensa em que o Wes explicou ao Correio da Manhã a suntuosidade visual de uma trama sobre os infortúnios no caminho do empresário Zsa-Zsa Korda. "É um papel suculento, por estar cheio de contradições que encontro já formuladas no script", disse Del Toro ao falar de seu personagem, emblemático na fauna de gente excêntrica que Wes filma desde "Três É Demais" ("Rushmore", 1998), com Murray.

Na explicação que deu ao Correio, o realizador texano destacou a colaboração com a oscarizada figurinista Milena Canonero. "Tem pelo menos uns 23 anos que trabalho junto com ela, que tinha as melhores credenciais. Quando vou jantar com a equipe, não posso levar toda a gente para a mesa. Aí, ela me aparece na janta sempre, todas as noites, e chega cercada pelos onze profissionais que trabalham consigo. Ela força essa turma a trabalhar por horas e horas sem parar. A Milena é assim".

Esse jeitinho peculiar da designer de moda assegura elegância ao vestuário de "O Esquema Fenício" ao narrar o périplo de Zsa Zsa (um grosseirão nato) para forjar laços de afeto com a filha, a freira Liesl (Mia Threapleton), enquanto guerreia contra o irmão que odeia, Nubar (Benedict Cumberbatch), e combate espionagem industrial. Toda hora alguém tenta mata-lo, o que o leva a carregar granadas consigo.

"Benicio é o centro do filme, um ímã", disse Wes na Croisette, de onde "O Esquema Fenício" saiu cravejado de elogios.

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Estreia do ator de 58 anos, em 1987, em 'Miami Vice', com o galã dos anos 1980, Don Johnson | Foto: Divulgação

Integrante do universo Marvel, nas telonas e na Disney no papel do Colecionador, Benicio foi tentar a sorte na indústria americana no fim dos anos 1980, a lado de Don Johnson e Phillip Michael Thomas em "Miami Vice", mas demorou a receber papéis de peso, sobretudo fora da TV. Um de seus primeiros filmes exitosos foi "Os Suspeitos" (1995). Em 2001, ele ganhou o Urso de Prata da Berlinale por sua interpretação em "Traffic", sucesso que lhe rendeu o Oscar de Ator Coadjuvante. Em 2008, foi a vez de Cannes reverenciá-lo com a láurea de Melhor Atuação por "Che", dada com unanimidade por um júri chefiado pelo supracitado Sean Penn, que disputa o Globo de Ouro com ele, por "Uma Batalha Após a Outra".

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Urso de Prata da Berlinale e Oscar para Benicio del Toro por 'Traffic', em 2001 | Foto: Divulgação

"O maior desafio nesse trabalho não passava apenas por questões políticas, mas pelo esforço de mostrar a humanidade de um ícone", disse Del Toro ao Correio da Manhã, à época, num papo que voltou a retomar em 2021, quando participou de "Nenhum Passo Em Falso", exibido no Festival de Tribeca.

Foi seu trabalho de maior prestígio nos últimos anos, ao lado de um elenco estelar (Don Cheadle, Ray Liotta, Brandon Fraser), sob a direção de seu recorrente parceiro de set, Steven Soderberg, centrado numa trama de assalto, na Detroit dos anos 1950. "Falava-se muito de 'O Grande Golpe', de Kubrick, nas filmagens por estarmos em um ambiente criminal dos anos 1950 e de gangsters", disse Benicio via zoom ao Correio. "É um elenco enorme onde todos combinamos nossas habilidades e talentos. Esse é o tipo de cinema que me instiga: aquele que combina talentos e paixões".

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'Che O Agentino' deu a Benicio o prêmio de Melhor Interpretação Masculina em Cannes, em 2008 | Foto: K.C. Bailey/Divulgação

Em 2008, Benicio veio ao Brasil para a exibição de "Che" na Mostra de São Paulo e falou com respeito de seu carinho pelo cinema autoral latino. "Estamos sempre desafiando contradições sociais", disse, na ocasião, desfilando pela Pauliceia com um pirulito na boca.

Em 2010, Del Toro integrou um time de jurados liderado por Tim Burton na escolha da Palma de Ouro de Cannes (entregue, naquela data, ao tailandês Apichatpong Weerasethakul) e, em 2018, presidiu o júri da seção Un Certain Regard. Na ocasião, ele explicou: "Ao analisar a violência nas Américas, eu tenho uma crença de que a justiça pode prevalecer quando é respaldada pela lei e pelo desejo de ordem social", disse Benicio. "Mas não é sempre que isso acontece. A arte é uma forma de buscarmos soluções".