Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O Outono Húngaro perda sua folha mais preciosa: Béla Tarr

Béla Tarr nas filmagens de O Cavalo de Turim, premiado na Berlinalçe de 2011 com o Urso de Prata de Melhor Direção | Foto: Divulgação

O máximo de explicação que o cinema recebeu, na manhã desta terça-feira (6 de janeiro) sobre a causa que levou um titã chamado Béla Tarr à morte, aos 70 anos, foi "enfrentou um longo período de luta contra uma doença". O alquebrado obituário é parte do mistério que envolveu o realizador húngaro ao longo de toda a sua carreira, iniciada em 1978. Foi a Berlinale que deu a ele uma de suas mais merecidas honrarias: o Urso de Prata de Melhor Direção, em 2011, pelo cultuado "O Cavalo de Turim", seu derradeiro longa-metragem, que antecedeu sua prematura aposentadoria. O êxito mundial da produção imortalizou seu lugar como pilar Estético para a vaga artística chamada Outono Húngaro, uma espécie de Renascimento cinematográfico daquela pátria. Falou-se muito (bem) de lá, para além de seus percalços políticos atuais, no momento em que o escritor László Krasznahorkai ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, que se deveu, um bocado, ao livro "Sátántangó", filmado por Tarr em 1994. O longa, chamado aqui "O Tango de Satã", tem 450 minutos de fervorosa potência plástica. Ele voltou a circular, em 2019, via Festival de Berlim, em cópia restaurada em 4k.

"Venho de uma pátria que sentiu o peso da História na forma da fome. Mas que, mesmo abalada pelo ronco em seu estômago, nunca desistiu do prazer da criação. Criar é celebrar a alegria de resistir à castração da ordem", disse Béla Tarr em uma entrevista ao Correio da Manhã em 2015, quando foi lançado o documentário "Um filme de cinema", do paraibano Walter Carvalho, no qual ele é um dos entrevistados. "Eu resolvi me afastar da direção no ato em que me dei conta do peso da idade e do quanto a vida é curta. Na cultura da escassez, a abundância da vida precisa ser aproveitada".

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O Cavalo de Turim (2011) foi premiado na Berlinale - Béla Tarr | Foto: Divulgação

Carvalho foi um dos primeiros artistas a manifestar pesar diante da partida do diretor, que era um farol para seu cinema. Curador do Festival de Locarno, o crítico suíço Giona A. Nazzaro foi às redes sociais derramar seu pranto por Béla: "Um gigante da arte cinematográfica. Um visionário que remodelou a arquitetura da visão e as suas possibilidades. Um homem e artista generoso, profundamente ligado a Locarno, que deixou uma marca indelével na história da cultura e da arte mundiais. Hoje, o mundo está mais pobre sem Béla Tarr", escreveu Giona no Instagram oficial de Locarno.

Filmes como "Maldição" ("Kárhozat", 1987) e "Harmonias de Werckmeister" ("Werckmeister harmóniák", 2000) fizeram de Tarr um dos diretores mais estudados da atualidade. Ele não quis mais filmar longas a partir de "O Cavalo de Turim", mas seguiu lecionando. László Nemes, o oscarizado diretor de "O filho de Saul" (2015), foi um de seus discípulos.

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O Tango de Satã tem 450 minutos de fervorosa potência plástica. | Foto: Divulgação

"Não faço filmes para estrelas da cultura pop terem holofotes. Minha estrela é o Tempo e seu efeito sensível sobre nossas vidas. Também não tenho a vaidade de aderir ao digital. A tecnologia digital humilha a imagem, porque não tem a qualidade da impressão da fotografia em película. A imagem deve ser preservada em sua força plena", disse Tarr.

Estima-se que a Berlinale 2026, agendada de 12 a 22 de fevereiro, preste um tributo a ele.