Em meio a concorrentes asiáticos de peso e ofensivas da Disney, 'A Pequena Amélie', de DNA francófono, leva fantasia numa mirada infantojuvenil às franjas da Academia de Hollywood
Agendada para chegar ao circuito brasileiro no próximo dia 29, no fim das férias, "A Pequena Amélie" ("Amélie et la Métaphysique des Tubes") pode (e deve) mudar a sua sorte... e a do cinema animado francófono... neste domingo, quando sua equipe visita o Beverly Hilton, na Califórnia, em competição pelo Globo de Ouro. A estatueta, concedida por um colegiado de 400 jornalistas de 90 países, tem massa votante distinta da que decide os rumos dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas, ainda assim, continua a ser encarada como um dos termômetros para o que haverá no Oscar.
Caso o desenho animado franco-belga de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, hoje páreo, saia vencedor agora no dia 11, seu destino em circuito será dos mais lucrativos. Carregará consigo os elogios conquistados em sua passagem pelos festivais de Cannes e de San Sebastián. Nesses eventos europeus, a adaptação do livro infantojuvenil de Amélie Nothomb sobre miscigenações cultuais - e as magias que cercam os intercâmbios entre povos - tornou-se um ímã de aplauso pelo norte da Espanha.
"Nossa ambição sempre foi expressar a euforia da infância, numa história que atravessa diferentes estações do ano e as muitas emoções de uma menina", disse Maïlys ao Correio da Manhã em San Sebastián, celebrando os holofotes dados a uma dramaturgia animada que a Disney não mostra. "O meio de abordar a compreensão das diferenças, em nossa trama, passa por traumas e o debate sobre expatriação na busca por identidade".
Espécie de Cannes para a classe profissional de animadores, Annecy, festival francês realizado em junho, deu a Láurea do Público para "A Pequena Amélie". Na peleja pelo troféu da Golden Globe Foundation, a produção briga com dois títulos da Disney - a sci-fi "Elio" e o policial noir "Zootopia 2". Encara ainda um trator da Sony chamado "KPop Demon Hunters", de inspiração sul-coreana. Combate ainda o anime "Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito", que rendeu a seus produtores, no Japão, US$ 720 milhões.
Da França, chega seu último rival, a fantasia ambientalista "Arco", uma fábula ecológica com Natalie Portman no elenco de vozes. Com passagens pela Guatemala, pelo Chade e pelo México em sua formação artística como ilustrador e cineasta, Ugo Bienvenu, o diretor desse longa, é um dos favoritos às láureas que cercam o Oscar. Ele mira num amanhã catastrofista, no qual Arco, de 12 anos, vive no ano de 2932, um futuro distante onde é possível viajar no tempo através do arco-íris. Durante seu primeiro voo solo num mar de cores, ele sai da rota e, acidentalmente, acaba no ano 2075. Lá, ele conhece Iris, uma jovem cujo mundo está marcado pelas mudanças climáticas, com cidades cobertas por cúpulas, temerosas de um colapso ambiental. Iris ajuda Arco a navegar por esse tempo desconhecido, enfrentando perigos. A jornada de "A Pequena Amelia" é similar.
Sua protagonista não se leva a sério, mas sofre com isso. Até aos dois anos e meio, Amélie descreve-se como um tubo digestivo, inerte e vegetativo. Então, surge o acontecimento seminal que a mergulha na micareta de descobertas que é ser criança. Durante os seis meses seguintes, ela descobre a linguagem e aprende a lidar com seus pais, com seus irmãos e com suas irmãs. Acha um paraíso no seu jardim e, lá, demarca suas paixões: o Japão (onde nasceu e onde vive) e a água. Delimita também quais são as suas aversões, entre elas, um peixe: a carpa. Nessa fase de porquês, toma noção do Tempo... e aprende a temê-lo. Sonha estar constituindo um "para sempre" para si, mas a vida vai pegar no seu pézinho.
"Esse filme custou em torno de 9,3 milhões de euros e começou a ser desenvolvido há sete anos com 150 profissionais em áreas diferente, trabalhando de locais diferentes da França, onde o sistema de fomento nos assegura liberdade pra inventar", disse Maïlys, que aprendeu a amar animação depois de ver uma cópia VHS de "O Homem Que Plantava Árvores" (1987), marco de Frédérick Back. "Aí entrei em Miyazaki e seu 'A Viagem de Chihiro', o que fez a produção japonesa virar um lugar de referência para o meu cinema".
O próximo projeto da cineasta será um filme em stop-motion.