Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Máquina mortífera e cheia de graça

'Agentes Muito Especiais' traz Marcus Majella e Pedroca Monteiro no combate ao crime... sobretudo o da homofobia | Foto: Camila Maia/Divulgação

'Agentes Muito Especiais' inaugura a temporada 2026 dos potenciais blockbusters nacionais, abrindo caminho para dramas, thrillers, filmes infantojuvenis e neochanchadas

Sob as bênçãos de Paulo Gustavo (1978-2021), o primeiro (potencial) sucesso nacional de bilheteria de 2026 levanta a bandeira do orgulho queer, com bom humor contagiante, a fim de debelar ranços conservadores que disfarçam (quase nada) a homofobia da família tradicional brasileira: "Agentes Muito Especiais". O astro da trilogia "Minha Mãe É Uma Peça" (2013-2019) criou com o ator Marcus Majella o argumento desse longa-metragem, que cresceu e deu liga, sob o fermento da resiliência ao preconceito, tornando-se um thriller cômico divertidíssimo. A estereotipia e a intolerância estão entre seus alvos.

Hábil na lanternagem do filão (oitentista e noventista) "dois policiais" (Two Cops), nos arquétipos "tira durão e o tira bonzinho", muito bem representado por sucessos como "Máquina Mortífera" (1987), a produção dirigida por Pedro Antonio estreia nesta quinta com fome de milhão. Majella entra cena ao lado de Pedroca Monteiro, numa alquimia à la Tom Hanks e Dan Aycroyd em "Dragnet - Desafiando o Perigo" (1987), para protagonizar uma trama de tiro, pancada e riso, com espaço para afetividades.

"Para fazer comédia, é necessário um senso de observação do mundo. O riso vem do olhar do querer, não do olhar do poder", disse Pedro Antonio ao Correio da Manhã no set "Um Tio Nada Perfeito 3", que filmou no apagar das luzes de 2025, preparando a estreia de "Agentes Muito Especiais". Nos novos tempos, o que aumentou foi o senso crítico em torno do 'eu posso' e, portanto, certas violências simbólicas que se praticavam antes, às vezes sem serem percebidas, acabaram... ou estão sob alerta. Eu busco um tipo de comédia onde a graça vem do dia a dia, onde o violento é a dificuldade de sobreviver que nos cerca. A risada que eu busco está a serviço da afetuosidade".

Com êxitos de bilheteira no currículo ("Tô Ryca", visto por 1,1 milhão de pagantes há quase dez anos) e uma série de sucessos nas franjas do pop (entre eles, "Evidências do Amor", com Fábio Porchat e Sandy), Pedro Antonio teve na "Sessão da Tarde", da TV Globo, uma escolas das mais essenciais para a formação de seu olhar. Filho da produtora Gláucia Camargos e do cineasta Paulo Thiago (1945-2021), o diretor chegou a estudar técnicas circenses de palhaçaria, para entender o âmago da gargalhada com mais precisão. No entanto sua (faustosa) cinefilia vem das reprises dubladas pela BKS, a Herbert Richers, a Telecine e a VTI, nos anos 1980 e 90. Os filmes sobre parcerias insólitas, com heróis de temperamentos distintos, exibidos pelo Plimplim cimentaram a trilha dramatúrgica de "Agentes Muito Especiais", roteirizado por Fil Braz.

Tudo no longa começa quando o destemido investigador Jeff (Marcus Majella, hilário) resolve prestar exame para o Centro de Operações de Inteligência da Polícia (COIP), uma espécie de BOPE, o Batalhão de Operações Especiais, da Polícia Militar (PM) carioca, retratada em "Tropa de Elite" (Urso de Ouro de 2008). Em meio às provas, ele conhece o guarda Johnny (Pedroca Monteiro, com ares de Jacques Tati), um funcionário público medroso e atrapalhado, que vive sob os cuidados da mãe. Jeff peitou violências de ontem, de hoje e de sempre e "saiu do armário". Já Johnny segue recatado, virgem, sem assumir sua orientação. Quando eles se encontram, há uma mudança mútua, como é típico de uma dramaturgia 1 1 (ou seja, de coprotagonismo). A união deles gera um espetáculo de graça e adrenalina, equilibradas na montagem de Zaga Martelletto.

Jeff e Johnny mal se conhecem e precisam encarar o temido Bando da Onça, quadrilha chefiada por uma misteriosa criminosa, vivida por Dira Paes, num desempenho impecável.

No empenho de debelarem o império da Onça, sem darem pinta de que são policiais, Jeff e Johnny consolidam uma parceria profissional e pessoal, que lembra um bocado a pérola "Partners" ("Dois Tiras Muito Suspeitos", 1982), de James Burrows, com Ryan O'Neal (1941-2023) e John Hurt (1940-2017). Sob a batuta de Pedro Antonio, destaca-se o comandante vivido por Chico Diaz e o bandidão enamorado interpretado por Dudu Azevedo, parte de uma quadrilha de Irmãos Metralha nada assustadores como Juninho (Demétrio Nascimento), Mona (Big Jaum, brilhante em cena), Bola (Saulo Arcoverde) e Big (Saulo Segreto).

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'Timidez', exemplar de excelência do cinema indie brasileiro | Foto: Divulgação

Pela tabela de lançamentos da Ingresso.com, o rol de filmes brasileiros de 2026, agendados para as telonas em paralelo à chegada de "Agentes Muito Especiais", arranca ainda com "Timidez", de Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa, com estreia na quinta. A trama acompanha um jovem artista chamado Jonas, que vive sob a sombra de seu irmão autoritário com quem divide a casa. Quando, a vizinha do andar de cima, chamada Lúcia, aceita um convite para jantar, Jonas começa uma jornada de reflexão pessoal, enfrentando os próprios demônios.

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O longa de CEP gaúcho 'Ato Noturmo' | Foto: Avante Filmes e Vulcana Cinema/Divulgação

Um dos destaques brasileiros da Berlinale 2025, o thriller "Ato Noturno", dos gaúchos Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, está apontado para estrear no próximo dia 15. O longa saiu do Festival do Rio, em outubro, com a láurea de Melhor Ator foi para Gabriel Faryas, e as vitórias de Melhor Roteiro e Melhor Fotografia. Coube a ele ainda a láurea de simbolismo Queer, o troféu Félix. A sua caleidoscópica narrativa acompanha o cotidiano do ator Matias (Gabriel Faryas), que busca sua primeira grande chance ao estrelato em Porto Alegre, participando de um respeitado grupo de teatro. Quando a notícia de que uma grande série será rodada na cidade chega à trupe, a já saliente rivalidade entre o protagonista e seu colega de apartamento, Fabio (Henrique Barreira), entra em ebulição. Apesar de ter talento, Matias enfrenta um obstáculo ainda mais desafiador se quiser conseguir o papel do galã: para ter uma chance de realizar seu sonho, o jovem terá que esconder parte de quem é e ceder às convenções de gênero. No entanto, ao se envolver com Rafael (Cirillo Luna), um político que disfarça suas pulsões, o aspirante a astro passa a encarar uma dinâmica opressora, ainda que estimulante.

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'O Diário de Pilar na Amazônia' tem Lina Flor e Nanda Costa | Foto: Laura Campanella/Divulgação

Ainda no dia 15 estreia "O Diário de Pilar na Amazônia", uma aventura de prosa com o legado dramatúrgico de Flávia Lins e Silva. Seu roteiro, filmado por Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put, discute a preservação... das matas e das amizades. Pilar (Lina Flor) se junta a um time de jovens heróis Breno (Miguel Soares), Maiara (Sophia Ataíde) e Bira (Thúlio Naab) numa incursão à maior floresta do planeta. Roberto Bomtempo e Nanda Costa integram o elenco.

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'(Des)Controle', de Rosane Svartman e Carol Minêm, foi selecionado para o 46º Festival de Havana | Foto: Mariana Vianna/Divulgação

No comecinho de fevereiro, tem "(Des)controle", dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm, que foi selecionado para o 46º Festival de Havana, em Cuba. Sua personagem, a escritora Katia Klein (Carolina Dieckmmann), passa por um momento turbulento na vida. Sobrecarregada, em busca de um alívio, Kátia volta a beber após um período de 15 anos de sobriedade, mas vai de uma simples taça de vinho ao total excesso, reativando o alcoolismo. Daniel Filho é um dos destaques do elenco. Ele deve voltar em cartaz nos próximos meses, como ator, no thriller "Resta Um", de Fernando Ceylão, e, como diretor, na nova versão da peça teatral "Toda Nudez Será Castigada".

Esst começo de ano agitado para nossa filmografia - que não para de encher sala com sessões de "O Agente Secreto" - aquece a expectativa por "Minha Amiga", comédia estrelada pelo duo Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, com direção de Susana Garcia. Sua estreia pode mudar os ramos do mercado, assim como a de "Deus Ainda É Brasileiro", que Cacá Diegues (1940-2015) deixou inacabado, antes de morrer. Sua montagem está para ser apresentada em breve, narrando o regresso do Todo-Poderoso (Antonio Fagundes) ao Nordeste. O longa original, de 2003, chamado de "Deus É Brasileiro", passa na Globo na madrugada desta quinta, às 2h.