Com sua arrecadação global em venda de ingressos hoje estimada em US$ 12 milhões, "Valor Sentimental" ("Affeksjonsverdi") chegou ao Brasil no dia de Natal desancando a concorrência em latitudes variadas, peitando desde títulos de confecção estética mais esmerada (tipo "Foi Apenas Um Acidente") até pipocas com "Anaconda" e "Avatar: Fogo e Cinzas". Espalhou-se por cem salas de projeção em 26 cidades do país. No último final anterior à chegada do Papai Noel, esse drama de CEP norueguês reuniu 3 mil espectadores em sessões antecipadas, alcançando a 7ª posição em público no ranking nacional neste período de festas.
Sua escalação para disputar oito Globos de Ouro no dia 11 de janeiro - tendo "O Agente Secreto" como rival - amplia sua relevância e potencializa o prestígio de seu realizador, Joachim Trier. O sobrenome pode evocar o diretor de êxitos como "Dogville" (2003) e "Dançando no Escuro" (Palma de Ouro de 2000), o dinamarquês Lars von Trier. Tal evocação não é gratuita. O pai de Joachim, o técnico de som Jacob Trier, nasceu na Dinamarca e tem um parentesco distante com Lars, polemista por trás de "Melancolia" (2011). Mas ele e Joachim, de gerações diferentes, não são próximos. Nem no estilo de filmar, nem nas provocações.
Aos 51 anos, Joachim ganhou notoriedade há duas décadas, ao lançar "Começar de Novo", que vai estar no dia 1° no streaming MUBI, empresa responsável por distribuir "Valor Sentimental" por aqui em parceria com a Retrato Filmes. Ganhador do Grande Prêmio do Júri de Cannes, o longa mais recente do realizador explora as memórias duas irmãs, órfãs de mãe, a atriz Nora e a historiadora Agnes (vividas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas) em meio ao regresso do pai, Gustav Borg (vivido por um Stellan Skarsgård em estado de graça em cena). Ele é um cineasta renomado, hoje dedicado a títulos documentais, que se manteve distante da família por anos e surge em busca de reconciliação através de seu novo projeto: uma ficção. Esse tal projeto aborda o suicídio da mãe dele, avó de suas meninas, e seu desejo é ter Nora como sua protagonista. A recusa dela leva o artista a travar parceria com uma estrela americana, Rachel (Elle Fanning). Só que mexer num vespeiro familiar há de dar ruim...
Trier trouxe Reinsve de seu cult anterior, "A Pior Pessoa Do Mundo" (2021), que valeu a ele uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original. A conversa dele com o Correio da Manhã foi promovida via Zoom pela Golden Globe Foundation.
Seu "Valor Sentimental" equaliza todas as personagens numa atmosfera solitária interna que se faz notar mesmo nos encontros e nos reencontros. O que essa solidão estrutura?
Joachim Trier - Retrato pessoas que se encontram incapazes de chegar umas às outras. Talvez a evasão de Gustav Borg, o pai, vivido por Stellan, na vida pregressa de suas duas filhas, tenha gerado esse sentimento. Elas não sabem como atravessar isso nem como falar sobre isso.
No diapasão de dor que reverbera a angústia de um clã alquebrado, "Valor Sentimental" tangencia o melodrama, dialogando com bases clássicas do filão, que nos deu Douglas Sirk, Fassbinder, Almodóvar. Qual seria o eixo melodramático do filme?
Eu evito pensar sobre gêneros dramatúrgicos quando trabalho, pois prefiro pensar na verdade humana. Talvez isso te soe pretensioso, mas é realmente o que eu busco. Eu tento entender o que uma sequência faz a plateia sentir. Tradicionalmente, segundo o modo de produção de Hollywood, o que chamavam de melodramas, muitas vezes eram narrativas que se debruçavam sobre o drama devastador das pequenas coisas da vida. Partiam delas para falar das grandes coisas, e isso me interessa muito.
No dia 1° de janeiro, a MUBI, que abraçou "Valor Sentimental", inclui em sua plataforma seu primeiro longa-metragem, "Começar de Novo" ("Reprise"), que está comemorando 20 anos. Ali já se nota a marca de silêncio que guia seu cinema. O que a quietude revela da sua obra?
Meu pai era designer de som e a convivência com ele me fez notar que, no cinema, o silêncio pode ser a estrutura mais poderosa, sobretudo porque filmo em 35mm. Eu filmo para uma tela grande. Gosto de ter centenas de pessoas numa sala de cinema presas ao silêncio e à emocionalidade das personagens. Adoro música no cinema, mas não sempre no clímax de um longa-metragem. Em termos de valor cinematográfico, o clímax tende a ser muito assinalado, muito demarcado. Prefiro deixa-lo acontecer sem interferência.
Com toda a sua universalidade, "Valor Sentimental" concorre a prêmios representando a Noruega. O que ele tem de mais... norueguês?
Quando se chega numa casa norueguesa, todo mundo tira seus sapatos quando entra e anda de meias. É uma marca. A Noruega, durante metade do ano, está coberta de neve e toda a gente tem os pés molhados. Ficar descalço nesse contexto faz muita gente rir, mas é uma tradição. Por outro lado, a uma perspectiva da Noruega no filme que diz respeito ao trauma da II Guerra. Não estamos sozinhos nessa, óbvio, mas a ocupação de nosso país foi algo traumático. Meu avô foi capturado durante a guerra e ficou muito traumatizado. A geração dele não falava muito sobre essas coisas e isso é uma marca do meu país a ser tratada.