Aos 53 anos, Dwayne Johnson, astro que trocou a luta profissional pelas câmeras, galga uma trilha de consagração em 'The Smashing Machine', que lhe valeu indicação ao Globo de Ouro
A atração da "Tela Quente" desta segunda-feira na Globo, à frente de "Operação Natal", em luta para salvar o Papai Noel, Dwayne Douglas Johson encerra 2025 com uma conquista rara para astros que alcançaram notoriedade pelas veredas da ação: uma indicação ao Globo de Ouro. O rol de conquistas do drama "Coração de Lutador: The Smashing Machine", recém-chegado ao streaming, disponível na Apple TV e na Amazon Prime, começou em setembro com a indicação ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, que rendeu a láurea de Melhor Direção a Benny Safdie. Há 19 anos, quando o ator, ainda conhecido como The Rock (alcunha oriunda de seus tempos de ferrabrás da luta livre), foi a Cannes, para representar "Southland Tales: O Fim do Mundo" na competição pela Palma de Ouro, sua presença na Croisette foi presença de chacota. Em especial por ele andar na companhia de guarda-costas com estatura inferior a dele (1,96m). O tempo, imparável, mudou sua imagem, sem dirimir sua habilidade para mobilizar bilheterias.
Franquias como "Jumanji", que ele estrela, ou "Velozes & Furiosos", em que divide tela com Vin Diesel, são ímãs de lucro. Só que Dwayne almeja mais. No caso do trabalho que pode leva-lo ao Oscar, no papel do ás do MMA Mark Kerr, existe o desejo de dar às plateias um recado: "Pedir ajuda não é fraqueza. É sobrevivência".
A frase acima partiu de uma entrevista que o artista de 53 anos concedeu sob os auspícios da Golden Globe Foundation. Encarar Kerr é devassar cicatrizes de seu próprio passado. O ícone do octógono, hoje às voltas com uma neuropatia, aos 56 anos, foi duas vezes campeão do Torneio Peso Pesado do UFC e venceu o torneio World Vale-Tudo Championship. No wrestling universitário, foi campeão também. Seu pior adversário foi a dependência de opioides e de esteroides, mas quem mais sofreu os danos de seu vício foi sua (ex-)companheira, Dawn, vivida no longa por Emily Blunt. Benny Safdie codirigiu com o irmão, Josh, produções que reciclaram personas, como as de Robert Pattinson (em "Bom Comportamento") e Adam Sandler ("Joias Brutas"). Agora é a vez do Maciste que despontou para os holofotes de Hollywood em 2001, na pele do Escorpião-Rei, de "O Retorno da Múmia".
"Durante o processo de filmagem, Emily e eu nos preparamos muito, e mesmo assim foi como se eu tivesse sido atingido por algo que não vi chegando. E isso foi a relação extremamente complicada que tive com meu pai", disse Dwayne, na coletiva que contou com a presença do Correio da Manhã, e mencionou sua figura parterna, o lutador Wayde Rocky Johnson. "Meu pai lutou contra suas próprias dependências, e, em muitos sentidos, eu já tinha visto esse tipo de relação antes, como a do Mark e da Dawn, dentro da minha própria casa, enquanto crescia. Meu pai estava tão focado no que queria fazer que não importava quem ele machucava para conseguir isso. Enquanto a minha mãe abriu mão de praticamente tudo em sua vida apenas para apoiar o homem que amava, tudo o que ela queria era ser vista... e isso nunca aconteceu". Preparado para ser visto, em 2026, na versão em carne e osso da animação "Moana", na pele do tatuado deus Maui, Dwayne diz ter carregado consigo um amargo ressentimento com seu pai, por muito, muito tempo.
"Quando comecei a filmar, eu carregava isso comigo em relação ao Mark, porque já tinha visto esse padrão antes. Então, quando estou nas cenas com a Emily, levo comigo muita coisa do meu passado, o que inicialmente não me permitia enxergar o seguinte: 'Espera aí, há um pouco de humanidade aqui', isso porque o Mark estava tentando dentro da capacidade que tinha, muito limitada por causa das drogas e das batalhas internas — assim como meu pai", disse o astro, que, em resposta ao Correio da Manhã, contesta o peso da palavra "obsessão" em sua rotina com a fama. "Benny estava conversando comigo e com a Emily durante um ensaio e nos pediu para pensar no que acontece quando ficamos tão obcecados em ganhar, em conquistar, em atingir objetivos, que o próprio ato de vencer se torna o inimigo. Quando se fica obcecado, aquilo que te levou até ali começa a trabalhar contra você, a te destruir, a te quebrar. Todo mundo se relaciona com a pressão. A pressão por desempenho, por resultados. Todos nós. No trabalho, nos relacionamentos, como pais, como parceiros. É a pressão que todos enfrentamos todos os dias. Isso me deu ainda mais empatia por quem vive pressionado e tem dificuldade em lidar com ela. E também por aqueles que lutam contra depressão e dependência e não conseguem chegar ao outro lado. Que não resistem. Ao longo das últimas décadas, perdi mais de 15 amigos próximos — todos lutadores — por dependência e suicídio. Pela graça de Deus, alguns de nós têm pessoas boas ao nosso redor. Acho que esse tema atravessa todo o filme. O filme é sobre fragilidade".