Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Thierry Frémaux: 'A aura do cinema está em cada projeção, está nas salas'

Thierry Frémaux, curador e diretor artístico do Festival de Cannes, no Reserva Cultural, em Niterói | Foto: Pedro Martin/Filme Falado

 

Diretor artístico do Festival de Cannes, responsável pela escolha dos títulos em concurso pela Palma de Ouro, Thierry Frémaux, o homem mais poderoso do mundo quando o assunto é a curadoria de filmes, emociona-se ao ouvir o nome do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) numa conversa com o Correio da Manhã, no Reserva Cultural, em Niterói. O papo tinha como foco seu novo filme, "Lumière! A Aventura Continua", documentário sobre os inventores do cinematógrafo, criado há 130 anos. A estreia é neste fim de semana. Sua montagem revive o que os irmãos Louis e Auguste inventaram ao registrar o planeta... em movimento... com uma câmera, a partir de 1895... até 1905. Os anos revisitados pelo curador da Croisette tangenciam a vigência de um mundo que se chamou "moderno". Um mundo analógico, bem anterior ao celular, no qual traquitanas mecânicas eram sinônimo de revolução.

Antes de ser levado ao suicídio pelo avanço de Hitler, Benjamin foi cronista crítico dessa tal modernidade, instigado pela ideia de que a reprodutibilidade técnica daria cabo da essência da arte, na busca da transcendência. Não por acaso, dizia: "O capitalismo nunca morrerá de morte natural". O longa de Thierry sabe disso e discute essa questão num lirismo avassalador. É o filme mais benjaminiano em nossas telas, em muito tempo.

A perplexidade diante do que uma imagem encapsula move Thierry nesse .doc e também nas suas escolhas para Cannes, além de mobilizar em sua literatura. O francês de 65 anos esteve no Rio no passado para lançar o livro "Judoca", que recebeu o Grand Prix Sport et Littérature de 2021 concedido pela Association des Écrivains Sportifs (AES). Em sua vinda anterior ao país, ele demonstrou seus conhecimentos de judô numa luta amistosa com o diretor Cavi Borges, atleta de formação, fazendo o Estação NET de tatame.

Agora, em sua passagem mais recente, sob os auspícios do distribuidor e exibidor Jean Thomas Bernardini, Thierry esgrimou palavras com o realizador oscarizado Walter Salles no Reserva. A esgrima aqui é com o Correio.

Qual é a maior lição artística que seus filmes sobre os Lumière te ensinaram?

Thierry Frémaux - Além da certeza de que a câmera é uma celebração de vida e da noção de que cineastas têm sempre que ter responsabilidade sobre o que celebram, tive a percepção de que fazer arte é buscar um formato. Eu tive esse ensejo antes, ali entre os 18, 20 anos, quando fui apresentado a um filme chamado "Pierrot Le Fou", de Jean-Luc Godard. Buscar um formato, no cinema que me encanta, é problematizar onde a câmera deve estar. Essa pergunta partiu dos Lumière e tocou Jean Renoir, Robert Bresson, Maurice Pialat, Abbas Kiarostami. Além dessa problematização, há a certeza de que a montagem é o lugar onde descobrirmos a verdade de um filme.

Qual é a França que você encontra no cinema dos Lumière?

Uma França popular. Ao buscar o real como mediador, no fim do século XIX, os Lumière retrataram as mesmas pessoas que estão na prosa de Émile Zola e Marcel Proust: os paysans, as pessoas que vieram do campo, as pessoas que encaram a aventura das cidades. No início da filmografia dos Lumière, vemos o trem, signo máximo da modernidade, na tela, em primeiro plano. Não demora aos planos deles darem evidência ao povo. Até o marxismo pode ser aplicado nessa perspectiva deles.

Esse "povo" seria também a população que passa pelos escritos de Walter Benjamin? Evoco o nome dele pois o cinema escancara sua preocupação com os efeitos da reprodutibilidade técnica na arte, o que, segundo ele, levaria a perda da "aura" de uma obra. Onde está a aura da arte cinematográfica?

A aura do cinema está em cada projeção, está nas salas. Ao longo da História, o sucesso do público garantiu triunfo ao cinema, inclusive como linguagem. A fragilidade com que nos deparamos hoje, nestes tempos de onipresença do celular em todos os espaços, neste tempo de TikTok, está no futuro das salas. Há que se salvá-las. Em Lyon, por exemplo, houve um empenho da Cultura, para que as salas fossem preservadas.

Seu "Lumière! A Aventura Continua" dá tratamento singular ao preto e branco imortalizado nos filmes dos irmãos Louis e Auguste. Essa sua forma de tratar o P&B parece uma busca proustiana por uma estética de um passado que o digital até reproduz, mas não ressuscita na inteireza. Que mistério há no preto e branco da gênese do cinema?

Existe algo de mágico ali pelo fato de o P&B gerar esplendor, mas eu sinto que essa busca mobiliza grandes artistas do presente, como Jim Jarmusch, por exemplo (em seu "Dead Man"). Não há o P&B de Murnau, na qual a película expressava sua força pela granulação, mas há o P&B de um diretor como (o filipino) Lav Diaz. Essa nova memória material, mesmo no digital, ainda alimenta um espaço mental... de resistência e permanência.