Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O método Sandrine Kiberlain

Sandrine Kiberlain é um dos destaques do elenco de 'Vizinhos Bárbaros', um estudo sobre xenofobia na Europa | Foto: Divulgação

Rosto símbolo da comédia no cinema francês atual, a atriz se destaca em solo carioca com 'Vizinhos Bárbaros', uma aula de ironia dirigida por Julie Delpy contra a xenofobia europeia

Aplaudida há pouco, no Festival do Rio, com "O Acidente do Piano", Sandrine Kiberlain será um dos ímãs de público da edição de 2026 do fórum promocional Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, agendado de 13 a 20 de janeiro em Paris. Vai estar lá com "Illustre inconnue", de Marc Fitoussi, que é esperado também para a disputa pelo Urso de Ouro da Berlinale, em fevereiro. Laureada duas vezes com o troféu César, por "Ter ou Não Ter" (1996) e "Uma Juíza Sem Juízo" (2014), Sandrine fez (e faz) fama como rosto símbolo da comédia francesa contemporânea, seja dramática ou romântica... ou seja ainda uma crônica de costumes das mais ácidas, como "Vizinhos Bárbaros" ("Les Barbares"), um dos destaques do Festival do Cinema Francês no Brasil.

O evento mobilizou o país nas duas últimas semanas. Essa produção, dirigida pela atriz Julie Delpy (de "A Igualdade É Branca"), é um de seus maiores sucessos. Rola sessão dela neste domingo, às 14h, no Estação NET Rio; na terça, às 18h30, no Est. NET Gávea; e na quarta, ali pelas seis e meia também, no NET de Botafogo da Voluntários da Pátria nº 35.

Sandrine é um dos destaques de um elenco pluralíssimo. A trama ironiza o bom-mocismo da política assistencial da França. No enredo, os cidadãos da Bretanha decidiram por unanimidade aceitar refugiados ucranianos em troca de subsídios do governo. No entanto, em vez de ver receber uma leva de imigrantes da Ucrânia, a prefeitura local acolhe (por engano) imigrantes sírios, o que causa uma série de conflitos ligados a práticas de xenofobia.

"Situações de guerra sempre geram histórias atrozes, mas também abrem brecha para causos de coragem", disse Sandrine ao Correio da Manhã, nas filmagens de "Vizinhos Bárbaros", em meio ao lançamento de "A Garota Radiante", seu primeiro longa como cineasta.

Aos 57 anos, Sandrine é uma das estrelas mais prolíficas de sua pátria na atualidade, sempre atenta a temas polêmicos da contemporaneidade, como os ranços xenófobos da Europa.

"Eu busco expressar vivências, sem jamais incorrer em caricaturas", disse a atriz ao Correio. "Na História do cinema francês, nós aprendemos com François Truffaut que a doçura é uma forma de falar de inquietações do nosso tempo. Busco filmes que encontrem uma forma doce de expor crises angústias".

Popularizada entre os cinéfilos brasileiros por "Betty Fisher e Outras Histórias" (2001) e "O Pequeno Nicolau" (2009), a atriz participou de fenômenos recentes da venda de ingresso como "Novembro - Paris Atacada", de Cédric Jimenez, visto em seu país por cerca de 2,3 milhões de pagantes, em 2022. Brilhou ainda no recém-lançado "Crônica de uma Relação Passageira", que saiu de Cannes com o status de cult. "Vizinhos Bárbaros" encontra o mesmo destino no Bafici, onde se firma como um ímã das plateias portenhas.

"Tenho me empenhado em histórias que tragam uma afirmação da vida nesta era de medo", disse Sandrine via Zoom.

Entre os rescaldos do Festival do Cinema Francês no Brasil que seguem entre nós, no sábado, às 18h30, no Estação NET Rio, rola "O Estrangeiro" ("L'Étranger"), de François Ozon. Há mais uma sessão neste domingo, às 18h30, na Gávea. Não se faz um painel coerente de estéticas francófonas sem o mais prolífico artesão audiovisual da língua de Balzac, que vendeu meio milhão de tíquetes, em duas semanas, com sua adaptação do romance homónimo de Albert Camus (1913-1960). "O Estrangeiro" (1942) foi adaptado para o teatro no Brasil no início dos anos 2000 e reconfigurou a carreira do ator Guilherme Leme Garcia. Já em 1967, tinha sido levado ao cinema por um mestre, Luchino Visconti (1906-1976), com Marcello Mastroianni (1924-1996) como protagonista. Agora é a vez de Ozon, que se apoia no carisma de Benjamin Voisin (com quem já trabalhara em "Verão de 85"), no papel de Meursault. Fiel a Camus, o seu "L'Étranger" decorre em Argel, em 1938, onde Meursault, um funcionário discreto e modesto na casa dos trinta, comparece ao funeral da mãe sem derramar uma lágrima. No dia seguinte, envolve-se num romance casual com uma colega, Marie, e retoma rapidamente a sua rotina, sem enfrentar o luto. Contudo, a sua vida quotidiana é logo perturbada pelo vizinho, Raymond Sintès, que o arrasta para os seus negócios obscuros — até que, num dia de calor extremo, ocorre um acontecimento trágico numa praia: a morte de um árabe. É um Ozon em ebulição.