Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / FILME / FRANKENSTEIN: Assombro do quilate de Boris Karloff

Oscar Isaac é o Dr. Frankenstein na releitura de Mary Shelley feita por Del Toro | Foto: Divulgação

 

Trazido ao Brasil pela 49ª Mostra de São Paulo, em projeções especiais, antes de sua estreia na Netflix, no dia 7 de novembro, a estonteante versão de Guillermo Del Toro para "Frankenstein" (1818), romance de Mary Shelley (1797-1851), encontra hoje espaço no circuito exibidor do Rio. Está em várias salas cariocas, para se notabilizar para o Oscar. Fortes são as chances de que concorra à estatueta, e até vença, em especial com os figurinos de Kate Hawley e com a trilha sonora de Alexandre Desplat. Tem brilhado ainda com o desempenho de Jacob Elordi no papel do monstro que, no passado, na década de 1930, deu fama ao ator Boris Karloff (1887-1969). Esteticamente, o que se vê de ganho maior nesse regresso do audiovisual a um livro do século XIX é a forma como ele alinhava, apara e renova os conceitos autorais (políticos) do diretor mexicano que celebra a fantasia e faz dela um lugar para estudar desgarrados.

Assim que começou a desenvolver "Pinóquio", que lhe rendeu o Oscar de Melhor Animação em 2023 (e hoje está na Netflix), Del Toro comparou o boneco de pau de Carlo Collodi (1826-1890) ao prometeu moderno de Mary Shelley. A analogia vinha do fato de ambos terem sido criados em resposta à carência (e à prepotência demiúrgica) alheia, sendo cobrados por um padrão de conduta que não condiz com a natureza que a Física e a Química ofereceram a eles.

Nesse regresso de Del Toro à telona, orçada em US$ 120 milhões, Victor Frankenstein (vivido por um Oscar Isaac com ares de Quasimodo, brilhante no domínio das ferramentas trágicas) se torna um inventor polêmico. Gera controvérsia em seu desespero de reverter a morte, abalado pela perda da mãe. Em seus experimentos sobre ressurreição, ele cria uma monstruosidade (Elordi, numa ultrarromântica composição) para satisfazer seu desejo de ser Deus por um dia. A questão é saber que criatura é mais terrível: o ser alimentado por choques elétricos que tal cientista criou ou ele mesmo, Victor, em sua despótica ambição.

Muito do que existia em "A Forma da Água", thriller ganhador do Leão de Ouro de 2017 pelo qual Del Toro conquistou o Oscar de Melhor Direção, volta no drama de Victor, sobretudo a maneira como a Ciência faz da alteridade um ativo. Frankenstein foi inventado para parecer gente, mas conforme se humaniza, ele exclui suas potências capitalistas de ser o protótipo da Eternidade ao alcance de todos. O que interessa ao realizador de "O Labirinto do Fauno" (2006) ao revisitar Shelley é provar que ali não há produto, há uma pessoa. Sua humanidade não vem da fúria, mas, sim, do perdão, o mais demasiadamente humano dos bens.