Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / FILME / A MELHOR MÃE DO MUNDO: Nas quebradas de uma Gelsomina que reage

Shirley Cruz tem atuação reluzente em 'A Melhor Mãe do Mundo' | Foto: Fotos: Divulgação

Mistura de "Noites de Cabíria" (1957) com "O Cortiço" (1978), "A Melhor Mãe Do Mundo" tem na catadora de material reciclável Gal uma combinação das heroínas de Giulietta Masina (qual a Gelsomina de "La Strada") com a Rita Baiana do romance de Aluísio Azevedo (1857-1913). A São Paulo que adotou como lar é neorrealista, mas sua cartografia, no devastador filme de Anna Muylaert, flerta com o Naturalismo. Nas entranhas da maior metrópole do país, vemos a microfísica da exclusão se processar a partir da metástase do machismo.

O "namorido" de Gal, o segurança Leandro, é adepto de uma (de)mentalidade bárbara segundo a qual "mulher minha tem que transar comigo todo dia". Sob tal bandeira, ele justifica crimes, como o olho roxo, somado a uma ferida no rosto, que imprimiu em Gal, num gesto de objetificação, de posse. Só não contava com a astúcia que existe na resiliência: sua companheira mete o pé. Gosta dele, mas não quer que a filha, Rihanna (vivida por Rihanna Barbosa), e seu caçulinha Benin (Benin Ayo), testemunhem uma futura agressão (ou um potencial feminicídio) por parte do padrasto, um pau d'água que entorna Skol como se não houvesse amanhã. A fim de dar à sua cria um bem bolado de proteção e de licença para sonhar, ela tira a gurizada de casa e sai viaduto afora com uma desculpa lúdica: "Bora acampar?". E la nave va.

Na desinência sociológica dos verbos de ação no Brasil, o "acampar" ganha leituras diversas, a começar pela busca de lar nas ocupações das populações sem teto. Até chegar nessa trilha, a dramaturgia escrita pela diretora de "Mãe Só Há Uma" (2016), com a colaboração de Mariana Jaspe, abraça um modo "Ladrões de Bicicleta" (1948), numa estrutura de "indivíduo contra a selva da cidade", na espinha melodramática do já citado neorrealismo, com gente miúda num processo cruel de educação pela pedra. O menino do clássico (dos clássicos) de Vittorio De Sica (1901-1974) via o pai se render à infração em nome do desespero. Gal, cascuda como ela só, quebra o coco sem arrebentar a sapucaia e refuta todos os chamados do que é torto e ilícito nas quebradas de Essepê. Tal qual a Gelsomina de Fellini, ela alimenta esperanças, com seu sorriso fraturado. Faz sua fuga com Rihanna e Benin parecer um episódio do "Domingo no Parque" do Programa Silvio Santos, onde cantávamos "Agora é hora... de alegria/ Vamos sorrir e cantar/ Da vida não se leva nada".

Corintiana, ela promete levar os pequenos para ver o Coringão meter gol. Até lá, toma o tacacá de Joelma ao requebrar com eles nas ondas breganejas de "Voando Pro Pará" e dá um olé no glúten, levando os dois para comer um podrão. Enquanto Rihanna e Benin se deliciam em dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim, sob o enquadramento apolíneo da direção de fotografia de Lílis Soares (sempre na temperatura de cor precisa), Gal se espatifa. Em meio à festa gastronômica da criançada, a adulta que carrega um mundo tão pesado quanto o de Atlas nos ombros, parte-se ao meio, num olhar pro nada, que só uma atriz do quilate de Shirley Cruz é capaz de produzir. O risco (da perda) e o rabisco (de futuro) expresso por "A Melhor Mãe Do Mundo" estão sintetizados naquele quadro, que é uma metonímia do Brasil da Lei Maria da Penha.

O sanduíche em que Gal sequer toca - enquanto Shirley engole a plateia com seu talento - é parte da identidade autoral de Muylaert. Come-se muito - e bem - nos filmes dela. Guloseimas são ingredientes essenciais à forma com que ela aborda relações afetivas. Em "Durval Discos" (2002), um comerciante de LPs (Ary França) se empapuça de coxinhas de galinha na hora do almoço. Em "É Proibido Fumar" (2009), Paulo Miklos discutia com Glória Pires sobre a importância de molho para umedecer o filé de salmão. No caso de "Que Horas Ela Volta?" (2015), que fez dela um farol latino-americano nas telas, um pote de sorvete de chocolate com amêndoas é o estopim para uma querela sobre classes sociais, além de se falar muito também de guaraná, suco de lima da persa e geleia. Em "A Melhor Mãe Do Mundo", a delicada direção de arte de Maíra Mesquita e Juliana Ribeiro optou pelo Xis-Tudo. Tem churrasco também, num hemisfério de virada da trama, em que fugir já não parece mais necessário. Só que num efeito Denorex, "parece, mas não é", pois a vida tem dessas, sobretudo em terras estratificadas sobre contradições econômicas.

Satélites de luz vão impelir Gal adiante, como a prima Valdete (Luedji Luna) e a cadeirante errante Munda (Rejane Faria, em sólida participação). Tem também uns espíritos zombeteiros que a decepcionam, por esconderem seus lobos em peles de cordeiro, como o frentista vivido pelo maior quadrinista do país, o escritor Lourenço Mutarelli, ator fetiche de Muylaert. Essa turma cria uma rede, ora de apoio, ora de confinamento, que mantém Gal numa perpétua fricção de desenraizamento e pertença. Pisar chão é sua sina, a tirar pedras do caminho para outras passarem.

Enquanto corria mundos à frente de "Alfazema" (2019), um dos títulos de maior vigor do curta-metragem nacional, Shirley brilhou em novela (como Gláucia, em "Bom Sucesso") e deu o ar de seu talento no único filme brasileiro (ainda que de diretor americano, Paxton Winters) a ganhar a Concha de Ouro de San Sebastián, "Pacificado". Credenciais (e vigor dramático) ela tinha de sobra para encarar o papel principal de "A Melhor Mãe do Mundo", que extraiu lágrimas e sorrisos da Berlinale. Não surpreende, portanto, que ela seja alçada, agora, ao Panteão das estrelas sul-americanas (Norma Aleandro, Paulina García, Fernanda Montenegro, Ana Brun, Marcélia Cartaxo, Ana Beatriz Nogueira, Carla Ribas, Maria Ribeiro) que puseram a Europa no bolso, num dos mais prestigiosos festivais do Velho Mundo, e voltaram consagradas. O que ela entrega, no regresso da realizadora de "O Clube das Mulheres de Negócios" (2024) ao cinema é uma composição performática visceral, que ultrapassa o limite da palavra, num ferramental físico de gestos que lhe renderam prêmios no Festival de Guadalajara, Cine PE e no Goiamum.