Sempre que se aproximou (com ambições artísticas) do legado de Chico Xavier (1910-2002), o cinema brasileiro lotou salas, inclua aí tanto a cinebiografia do médium mineiro, dirigida por Daniel Filho há 15 anos, quanto a franquia "Nosso Lar" (2010-2024), um ímã de multidões. É do universo literário psicografado por ele que hoje brota uma dupla promessa cinéfila: a de um novo sucesso para o mercado exibidor e de congregação de corações e mentes em sintonia com a espiritualidade. O novo projeto de longa-metragem derivado de Xavier, em parceria com Waldo Vieira (1932-2015), é "Sexo e Destino", cujas filmagens terminaram esta semana no Rio e tem estreia prevista para 2026.
Tomislav Blazic, produtor com um histórico de acertos pop no currículo (como "Polícia Federal - A Lei É Para Todos"), é quem recebe o Correio da Manhã numa visita a um dos sets da fita, nas areias do Leme, com Márcio Trigo na direção, tendo no time de roteiristas Rodrigo Santos, do romance cult "Macumba" e de "Carcará". "Fazer um filme que conversa com a doutrina espírita é uma premissa para divulgar o Bem, que é o nosso desejo, num mundo com muito radicalismo. Falamos de pessoas que se redimem em vida e, a partir delas celebramos a aliança pelo amor", diz Blazic, ao lado de seu realizador, Trigo, que emplacou em 2022 "Nada É Por Acaso", inspirado em Zíbia Gasparetto (1926-2018), outra best-seller ligada à sabedoria de Allan Kardec (1804-1869).
"Há uma perspectiva sobre perdão nesse filme que rodamos agora, no qual obsessor também tem redenção, que é saber reconhecer o erro e o limite do outro", disse Trigo, que busca uma forma dinâmica de trazer as reflexões de Xavier para as salas de cinema de hoje, adaptando certos retratos da sociedade que estão em contínua mudança, sem ferir nada da essência do texto. "O desafio é colocar as questões sempre de uma forma amena, mas assertiva, sem didatismo. Melodrama, quando bem contado, é algo de que eu gosto".
Elenco de peso
Um elenco de peso está em cena: Antônio Fragoso, Letícia Augustin, Carol Macedo, Raquel Rizzo, Tato Gabus Mendes, Bruno Gissoni, Totia Meireles, Tiago Luz, Jaedson Bahia e Rafael Cardoso. A trama não esconde os traços de folhetim que marcam os livros de Xavier. "Toda boa história é sobre pessoas", diz Rodrigo Santos, que assina o roteiro com Carolina Massote, Luísa Prochnik e o próprio Trigo. "Existe um arco de redenção, que a gente foi buscar no livro, mas tivemos que mexer nos diálogos dele, que eram mais expositivos, com tempos verbais no pretérito mais que perfeito, com mesóclises".
No enredo, Marita e Marina são filhas de Cláudio e Márcia Nogueira. Marita foi adotada quando sua mãe Aracélia, empregada da casa, suicidou-se. Marita namora Gilberto, filho de Nemésio e Beatriz, que está em seu leito de morte. Já Marina, carrega grande culpa por ter um caso com Nemésio e com Gilberto. Em meio a uma ciranda de afetos, um espírito perturbado impele Cláudio a ter relações com sua filha adotiva Marita. É aí que o espírito André Luiz e outros emissários do Nosso Lar, o mundo metafísico, terão de intervir a fim de proteger essas duas famílias que precisam resolver no presente desavenças de vidas passadas. "A doutrina está aqui", explica Trigo. "Ela aparece de forma leve, mas está em cena, numa busca minha de extrair o melhor de cada um na equipe".