Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

'Um Lobo Entre os Cisnes' é um 'Karate Kid' do balé

Em sua fase aspirante, o bailarino Thiago Soares (Matheus Abreu) é treinado por Dino Carrera (Darío Grandinetti) | Foto: Lucas Sadalla/Divulgação

Não se escutam imperativos como "Limpe o assoalho!", que consagraram a relação de tutor e aprendiz entre Daniel LaRusso e o Sr. Myiagi em "Karate Kid - A Hora da Verdade" (1984), na fineza de roteiro escrito por Camila Agustini para "Um Lobo Entre os Cisnes", que estreia nesta quinta-feira (24) no circuito exibidor nacional. Mesmo assim, é impossível não pensar no clássico da "Sessão da Tarde" da Globo, com Ralph Macchio e Pat Morita (1932-2005), diante da contagiante narrativa de superação, de mãos dadas com fatos reais, construída sob a direção de Helena Varvaki e Marcos Schechtman.

A base é a saga real do bailarino Thiago Soares, bamba do hip-hop do viaduto de Madureira que, no fim dos anos 1990, foi lapidado pelo coreógrafo cubano Dino Carrera (morto em 2006) até se tornar um dos dançarinos de maior prestígio da cena internacional do balé. Esse mestre foi essencial para a conquista do primeiro prêmio do artista brasileiro no exterior: a medalha de prata no Concurso Internacional de Dança de Paris, em 1998. A relação entre os dois ganha corpo e alma no longa-metragem de Varvaki e Schechtman na covalência plena de uma dupla de atores em estado de graça: Matheus Abreu (de "Dois Irmãos") e Darío Grandinetti, dínamo do cinema argentino conhecido por "Fale com Ela" (2002) e "Relatos Selvagens" (2014).

"São duas solidões que se encontram", diz Varvaki. "A solidão do Dino é a solidão de alguém que teve que deixar o seu país e, consequentemente, a potência que ele poderia ter sido como bailarino em Cuba, porque, como o próprio personagem diz, ele não podia ser ele mesmo lá".

Schechtman enxerga um encontro existencial muito profundo entre o Thiago e o Dino, que, de alguma forma, é estabelecido mesmo na ausência, em buscas distintas: "No caso do Thiago, é a busca de sentido de vida, no desejo de saber para onde ele ia na vida, o que ele ia ser", explica o diretor. "No caso do Dino, há o fato de ele não poder exercer sua própria identidade e sua sexualidade, sem poder ser plenamente quem é em Cuba".

Cercados de requinte na direção de fotografia de Pedro Faerstein (de enquadramentos nunca ortodoxos) e na direção de arte de Dina Salem Levy, Varvaki e Schechtman recriam o Rio da década de 1990 entre a Vila Isabel (onde Thiago viveu), a escadaria da Penha (onde treinou, a subir e descer centenas de degraus) e a Urca (a casa de Dino). O Theatro Municipal, assim como a escola de dança onde o artesão do movimento estudou, também estão em quadro, numa trama que conta com participações inspiradas de Alan Rocha, Margarida Vila-Nova e Augusto Madeira.

"A gente, enquanto direção, buscou que todos os corpos ocupassem e se deslocassem pelo espaço sempre pensando na dança nesse conceito ampliado", conta Varvaki. "O processo de criação do Matheus passou pela apropriação do corpo em movimento para além da dança, e isso foi filmado e capturado em vários momentos. Uma cena em que isso fica muito claro é quando ele está chegando para falar com o professor e se desloca pelo espaço. Ele não está só andando. Ele está se movendo na relação com o espaço. É quase uma dança, porque a dança, na verdade, tem um conceito mais amplo dos corpos em movimento".

Mesmo conversando com toda a genealogia de tramas sobre estudantes e educadoras/es, que vai de "Ao Mestre, Com Carinho" (1967), com Sidney Poitier (1927-2022), até "Tudo Que Aprendemos Juntos" (2015), com Lázaro Ramos, "Um Lobo Entre Os Cisnes" encontra um colorido particular em seu olhar sobre as incongruências sociais da América Latina.

"A 'cubania' de Dino está totalmente presente e foi uma grande contribuição do próprio Darío, que tem um grande conhecimento de lá, e evidentemente do trabalho da Camila, onde tudo partiu do texto", diz Schechtman. "Camila estudou em Cuba, então ela trouxe de lá todo um conhecimento dela para a história. Nesse olhar sobre Cuba, ela nos contou algumas vivências de observar o trabalho feito na rua pelo balé nacional