Qual foi o maior desafio para reunir esses filmes?
Gregory Baltz: Eu e a Silvia Oroz, como curadores, tivemos limitações em relação aos filmes possíveis de serem selecionados. Uma coisa que ficou clara é que o embargo dos EUA a Cuba afeta não somente a vida cotidiana, como também afeta diretamente a relação do povo cubano com outros países do mundo e, no caso do Brasil, a nossa mostra. Acho que estamos em um momento histórico em que está sendo realizada a restauração de filmes para as novas gerações, em qualidade mais próxima do que seria a película. Mas o que esse fato nos mostra, também, é que, indiretamente, o imperialismo/colonialismo acaba se tornando dono dos filmes, porque, como eles têm o poder financeiro, também são os responsáveis por esses processos de restauro. Ainda assim, a Cinemateca de Cuba consegue, dentro das limitações existentes, proteger o seu patrimônio audiovisual. Também fica claro que, se no próprio Brasil a transição para o digital ainda não é perfeita, para Cuba é ainda mais complicada e dificultosa.
De que maneira Silvia Oroz ilumina essa mostra e o que ela traz de mais potente para o cinema das Américas?
Eu e Silvia criamos essa mostra ano passado, quando estivemos em Cuba e nos encontramos com Luciano Castillo, diretor da Cinemateca de lá. A gente conversou um pouco sobre o cinema cubano, e Luciano nos contou sobre o trabalho que a instituição vem realizando, nos últimos anos, para preservar sua memória. Nesse caso, entendemos preservação também como difusão. Não faz sentido os filmes estarem bem guardados se a população não pode ter acesso; daí surgiu a ideia da mostra. No meio do nosso diálogo, Luciano lembrou um seminário que Silvia realizou, nos anos 1980, em Cuba. Para ele, esse evento foi o marco de integração do cinema pré-revolucionário à historiografia cubana. Quando houve a Revolução Russa, não se tentou apagar a história do cinema czarista, mas, em Cuba, foi diferente. O trabalho da Silvia passa por diferentes países da América Latina, como o livro "Melodrama: O cinema de lágrimas da América Latina", adaptado para as telas pelo Nelson Pereira dos Santos, nos anos 1990. É o primeiro livro a construir uma unidade sobre o cinema latino-americano. No Brasil, Silvia tem um livro sobre o Cacá Diegues; no México, seu livro do melodrama é uma referência; na Argentina, seu país natal, ela foi a primeira diretora da cidade de La Plata; e, em Cuba, além de tudo que já falei, ela também tem um livro importante sobre o cinema de Tomás Gutiérrez Alea. Para além da curadoria da mostra que está sendo realizada, Silvia é parte da história do cinema latino-americano.
O cinema que você faz como diretor transpira política. Que projetos de governo, de Poder, de democracia instigam a sua obra como cineasta?
Estamos em uma batalha agora no Congresso para a regulação dos streamings e numa discussão sobre a autoria das obras realizadas nesse contexto. Esse conflito só nos mostra como é essencial o financiamento do Estado para o cinema, onde os realizadores podem ter total autonomia sobre seus filmes, ainda que não seja perfeito. Meu cinema está diretamente ligado à memória, com projetos que dificilmente seriam financiados por empresas privadas, porque são projetos com características próprias, sobre temas de importância nacional, e não de caráter massivo. Não há um projeto de governo, atualmente, para filmes de grandes minorias, como dizia Román Gubern. O cinema no Brasil, hoje em dia, segue a mesma lógica dos tempos áureos da Embrafilme, onde a democracia não é o seu objetivo central. O fato de não existir, hoje, no fomento federal, uma análise de projetos às cegas, uma política voltada para novos realizadores e um projeto de regionalização que compreenda a especificidade de cada área só demonstra a pouca capacidade de pensar o Brasil em um projeto a longo prazo. Por essas e outras, estamos patinando na regulação do streaming.
Quais são seus próximos projetos como diretor?
Neste momento, estou finalizando dois filmes. O primeiro é um curta-metragem que dirigi com meu amigo Kaio Caiazzo sobre o filme "Inocência" (1983), de Walter Lima Jr. No curta, falamos sobre as outras duas adaptações que foram realizadas para o cinema do livro homônimo de Visconde de Taunay: uma de 1915, de Vittorio Capellaro, e outra de 1949, de Luiz de Barros. Além disso, Humberto Mauro e Lima Barreto também desejaram adaptar o livro. Nosso filme é todo contado a partir das memórias do Walter. O segundo filme é um longa-metragem sobre a minha parceira de curadoria na mostra de Filmes Cubanos Restaurados, Silvia Oroz. No ano passado, filmamos em Cuba, no México, na Argentina e no Brasil. Conversamos com nomes como Cacá Diegues (Brasil), Guilherme de Almeida Prado (Brasil), Ivan Trujillo (México), Júlia Túñon Pablos (México), Nora Mazziotti (Argentina), Reynaldo González (Cuba), entre outros. O filme é sobre o trabalho da Silvia, mas acaba também sendo o retrato de uma geração que lutou pela ideia de ser latino-americana. É importante salientar que esse filme só foi possível pelo financiamento estatal, a partir de um edital de Novos Realizadores do FSA/Ancine.