Por: Luis Carlos Lacerda*

CRÍTICA / FILME / 2046: Uma decupagem da alma e do tempo por Wong Kar-wai

Wong Kar-wai radicaliza seus enquadramentos anticonvencionais | Foto: Divulgação

Assisto ao filme de Wong Kar-wai, "2046", último da trilogia composta também por "Dias Selvagens" e "In The Mood for Love". Nesta coprodução da China, Hong Kong, Itália, França e Alemanha, o diretor radicaliza seus enquadramentos anticonvencionais, rompe regras (inúmeras vezes priorizando objetos da contrarregragem em cena, enquanto os diálogos permanecem off; ou concentrando a ação no gestual de seus protagonistas, seja a mão que "afaga" o corrimão, descendo uma escadaria espiral, ou o cigarro deixado no cinzeiro, e até o cinto do ator que está fora de quadro, elementos que dizem mais do universo dramatúrgico em que a cena fica a critério do público construí-la).

Basicamente é a história de um escritor que precisa entregar para seu editor um romance com elementos de lutas marciais e paixões entre humanos e androides tipo "Blade Runner", e que se (nos) confunde entre os limites da vida real e daquilo que escreve (como Alain Resnais em "O Ano Passado em Marienbad" e "Providence").

A memória transpassa a ação que o confunde com um atleta sexual, meio cafetão e meio escritor romântico, e o conduz ao inevitável encontro com as messalinas orientais onde em seus peitos também bate um coração. E sofrem. Mas gozam. Gozam muito. Sob uma luz trabalhada com as referências culturais chinesas que evocam os monumentais palácios vermelhos, as caixas de laca onde se guardam os segredos ancestrais, e a pintura abstrata dos pintores presentes até no nosso Modernismo.

Direção de Arte, Fotografia (de Christopher Doyle, Kwan P. Leng e Lai Yiu-fai) e a original decupagem do diretor Kar-wai com seu estilo vanguardista conferem ao dramalhão lig-lig-lé uma ponte com toda a tradição do cinema de lágrimas do lado de baixo do Equador.

Ainda mais pontuado por Lecuona em seu clássico Siboney, levado pela banda cubana de Xavier Cugat, que garantiu a presença cucaracha nos filmes de Hollywood anos-50. E não para por aí: tem Nat King Cole e a ópera "Norma", de Bellini (afinal, a Itália é coprodutora).

Com apenas US$ 12 milhões, se comparada à média milionária das produções internacionais, e um elenco de alto nível (encabeçado por Tony Chiu-wai e Zhang Ziyi Faye Wong) Kar-wai realiza uma obra-prima. Dessas que parecem conseguir reacender o prazer de assistirmos a um ótimo filme.

Na grade do Mubi.

*Cineasta e poeta