Se a sua pergunta envolve qual foi o filme mais possante entre os 22 concorrentes à Palma de Ouro de Cannes em 2025, a resposta é: ainda não acabou. Faltam dois longas a serem exibidos nesta sexta: "Jeunes Mères", dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (sempre bons), e "The Mastermind", da hoje cultuada americana Kelly Reichardt. Do que se viu: é Brasil! Nada bate "O Agente Secreto". Mesmo que você considere "O Som Ao Redor" (2012) o terceiro segredo de Fátima, seu diretor, Kleber Mendonça Filho, conseguiu galgar um patamar ainda mais alto de invenção e de ousadia, com a ajuda de Wagner Moura.
O astro baiano que fez do Capitão Nascimento um dos personagens mais folclóricos de nossas telas, retorna agora no papel de um pesquisador da cena universitária pública do Recife dos anos 1970 que é perseguido pela invenção de uma patente disputada pela indústria. Roney Vilela é um dos achados do elenco, no papel de um matador que está em seu encalço, ao lado de um jovem assassino (Gabriel Leone). A caçada gera sequências eletrizantes e envolvem uma perna humana encontrada no ventre de um tubarão.
Ainda na briga pela Palma, "Un Simple Accident", do iraniano Jafar Panahi, entra forte na disputa. Virou coqueluche em Cannes ao expressar na forma de um thriller político de vingança causos que o diretor de "O Balão Branco" (1995) ouviu (e colheu) ao ser detido pelas autoridades de seu país, chegando a fazer greve de fome. Na trama, um operário sequestra o suposto agente de estado que o torturou e se vinga, arrastando-o numa van, reunindo outras vítimas do regime vigente em sua revanche.
Fora da briga por troféus, há um bonde de coisa boa que passou pela Croisette. O Correio da Manhã faz uma lista aqui do melhor:
ELEANOR THE GREAT, de Scarlett Johansson (EUA): A Viúva Negra da franquia "Vingadores" estreou na direção de longas com brio, numa narrativa agridoce que lembra "Melhor É Impossível" (1997). Sua estrela, em estado de graça, é a nonagenária June Squibb. Ela vive uma encrenqueira que finge ser uma sobrevivente do Holocausto para forjar amizade com uma jovem estudante de jornalismo. O pai da moça, um famoso apresentador de TV, é vivido por um inspirado Chiwetel Ejiofor.
PROMIS LE CIEL, de Erige Sehiri (França): A cineasta franco-tunisiana que deu ao audiovisual uma joia chamada "Debaixo das Figueiras" (2021) volta a encantar plateias com um conto sobre sororidade. Na trama, uma ex-jornalista e pastora da Costa do Marfim transforma sua casa num abrigo informal para mulheres que encaram as asperezas do cotidiano. Uma órfã vai mudar a rotina delas.
HIGHEST 2 LOWEST, de Spike Lee (EUA): Fiel ao título de seu longa de abre-alas ("Faça a Coisa Certa"), o pilar maior das lutas antirracistas no cinemão lançou em Cannes sua candidatura ao Oscar com este remake de "Céu e Inferno" (1963), de Akira Kurosawa (1910-1998). Num colosso de atuação, Denzel Washington vive o produtor musical David King que sofre uma chantagem milionária e vira Nova York do avesso para proteger o que é seu.
VIE PRIVÉE, de Rebecca Zlotowski (França): Uma promessa de bilheterias milionária e indicações ao Oscat este thriller com um sagaz bom humor arranca uma atuação luminosa de Jodie Foster e apresenta o (ex futuro) casal mais fofo deste festival, formado por ela e por Daniel Auteuil. A estrela de "O Silêncio dos Inocentes" (1991) vive uma psiquiatra que suspeita de um possível assassinato envolvendo a morte de uma paciente. Auteuil vive um oftalmologista com quem ela foi casasa e os dois têm um benquerer e um tesão ativos. É ele quem vai apoiá-la numa abilolada investigação.
LA MISTERIOSA MIRADA DEL FLAMENCO, de Diego Céspedes (Chile): FIlas gigantes se formaram nas projeções dessa reconstituição histórica da vida no norte chileno no início dos anos 1980, numa área de mineiração na qual um cabaré de mulheres trans e travestis enfrenta o boom da Aids. Tudo é visto pelos olhos de uma menina, Lidia (Tamara Cortes), tratada como filha pela performer Flamenco (Matías Catalán), alvo de transfobia. Na trama, o contágio do HIV é tratado com misticismo, numa crença de que a "peste" se espalha pela troca de olhares.
PARTIR UN JOUR, de Amélie Bonnin (França): O longa de abertura do festival deste ano é uma delicinha musical que foge dos códigos da Broadway. Nele, uma chef que bomba em reality shows culinários precisa voltar à cidade natal para ajudar o pai e reencontra o crush dos tempos de escola cheio de amor pra dar. O problema: ela está grávida de seu namorado.
SAMBA INFINITO, de Leonardo Martinelli (Brasil): Que bonito ver Gilberto Gil atuando. Ele faz uma participação nesta produção carioca sobre o carnaval. Alexandre Amador é o protagonista. A trama desenrola-se durante a folia de Momo do Rio de Janeiro. Em paralelo à chuva de confete e serpentina, um gari enfrenta o luto pela perda da irmã enquanto cumpre as suas obrigações de trabalho. Em meio à alegria dos blocos de rua, ele encontra uma criança perdida e decide ajudá-la. O encontro deflagra fricções entre lembranças e imaginação. Camila Pitanga é parte do elenco.
MAGALHÃES, de Lav Diaz (Filipinas): O realizador de "A Mulher Que Se Foi" (Leão de Ouro em 2016) recria os últimos meses da vida do explorador português Fernand de Magellan, que morreu nas Filipinas em 1521. O resultado é um retrato íntimo e assustador de um homem confrontado com suas trevas internas. A entrega do ator Gael García Bernal ao papel é um primor.
UN POETA, de Simón Mesa Soto (Colômbia): Uma aula sobre literatura com uma interpretação impecável de Ubeimar Rios. Ele interpreta Oscar um poeta que nunca estabeleceu sua glória. A descoberta de uma jovem com talento para o verso renova seus votos com o lirismo.
DANGEROUS ANIMALS, de Sean Byrne (Austrália): Jai Courtney, o Capitão Bumerangue da franquia baseada na HQ "Esquadrão Suicida" (2016-2021) mete o malvadão no papel de um psicopata cujo gozo é servir vítimas a tubarões. A trama é trash, mas a fotografia é de um requinte impecável e a montagem dá um medão, com susto a granel.