Lançado por Stan Lee e Gene Colan em setembro de 1969, nas páginas da edição 177 da revista mensal do Capitão América, Sam Wilson, o Falcão, alça novos voos no imaginário decolonial da cultura pop ao protagonizar o que periga ser um dos mais rentáveis blockbusters do trimestre (quiçá do ano). Agora, ele veste o uniforme do Sentinela da Liberdade.
Anthony Mackie, que deu o ar de sua graça e talento no audiovisual em 2002, rivalizando com Eminem em "8 Mile", controla as manobras aéreas do herói, ao mesmo tempo que arremessa o escudo com as cores da bandeira americana. Desde 2014, ele enverga as asas do vigilante alado da Marvel e ganhou até série na Disney , ao lado de Sebastian Stan (de "O Aprendiz"). Seu desafio desta vez é maior. Tem o tamanho - e a força - do Hulk... só que vermelho... interpretado pelo eterno Indiana Jones, o mítico Harrison Ford.
Tem outros obstáculos em seu caminho além da criatura rubra, começando pelo cientista mucho louco Samuel Sterns (vivido por Sam Blake Nelson). Wilson/Mackie terá um sufoco e tanto pelo caminho, mas carrega um simbolismo - antirracista - consigo que torna sua missão ainda mais urgente nas reviravoltas de "Captain America: Brave New World". Ligado a Spike Lee em projetos anteriores, o diretor Julius Onah é o cineasta que pilota essa superprodução em cartaz a partir desta quinta (13).
"O desafiador aqui é transmitir emoções a partir da ação, assumindo que Sam Wilson precisará improvisar sob o uniforme do Capitão América. Para além das asas e de qualquer potencial habilidade, ele terá de usar as mais variadas proficiências para se firmar, mas é durão", disse Onah em reposta ao Correio da Manhã numa coletiva online do longa-metragem organizada via Zoom pela Disney, com parte do elenco e o produtores Nate Moore e Kevin Feige, o Midas do império Marvel no cinema.
Feige já trouxe muita renda para a Casa das Ideias (apelido da editora que virou o Marvel Studios). Entretanto, os tempos andam difíceis para o reinado marvete nas salas de exibição, frente à retração de público que os filmes de super-herói andam enfrentando nos multiplexes, num sinal de fadiga de um filão.
Fonte de lucros
Adaptações de HQs consagraram-se como a vereda de maior lucratividade do cinemão. Emplacaram até indicações ao Oscar, vide "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (2008) e "Logan" (2017), e ganharam o Leão de Ouro de Veneza ("Coringa", em 2019). Ao longo de todo este século, as transposições de quadrinhos encheram salas. Basta notar que, em 2024, a segunda maior bilheteria foi a de "Dedpool & Wolverine", com cerca de US$ 1,3 bilhão de faturamento (atrás só de "Divertida Mente 2", que somou US$ 1,6 bilhão). No entanto, o que parecia à prova de falhas antes vem dando tilte hoje. A tarefa de "Capitão América: Admirável Mundo Novo" é provar que essa variante da fantasia segura público... e dá lucro.
"Quando fizemos 'Vingadores: Ultimato' (lançado em 2019), alcançamos uma crescente que virou um marco. Agora, o que temos que fazer com este novo filme do Capitão é lançar as fundações para uma nova fase da Marvel", disse Mackie, no Zoom da Disney. Na reta final de "Ultimato", o Capitão original, Steve Rogers (Chris Evans), entrega seu escudo a Wilson com a certeza de que ele será o substituto perfeito. A conexão que travou com o antigo parceiro de Rogers, Bucky, o Soldado Invernal (Sebastian Stan), é um fator a mais para a confiança do justiceiro que combateu Hitler. O difícil será conseguir confiança do general Thaddeus Ross, agora presidente - papel de Ford. Ele quer o controle dos supers... controle pleno... e vai se transformar numa fera GG para isso.
"Wilson e Steve têm algo em comum que é a compaixão", disse Mackie, que trabalhou no oscarizado "Guerra ao Terror" (2008) e atuou sob a batuta de Spike Lee em "Elas Me Odeiam, Mas Me Querem" (2004). "Diferentemente de seu antecessor, Wilson nunca tomou o Soro do Supersoldado que transformou Steve no Capitão. Ele é um cara comum. A identificação com espectadoras/es pode vir daí".
Desde que as primeiras imagens de Ford como o Hulk Vermelho foram veiculadas no YouTube, o urro selvagem desse Golias funcionou como um Ímã de atenções para "Admirável Mundo Novo". Onah insiste que o foco do longa não está nele, e, sim, na consolidação de Wilson como o Capitão de que a Terra precisa. "O superpoder do novo Capitão é a empatia", diz.
Associado a franquias lendárias como "Star Wars" (na qual vive o mercenário Han Solo), Ford (hoje com 82 anos) carimba seu passaporte para o MCU (Marvel Comics Universe) com ansiedade de falar para novíssimas gerações. Ser um Hulk pode até ser um fardo, mas, para quem já foi Indiana Jones... "Tudo o que eu quis foi fazer um filme que extrapolasse as lutas e a ideia de Bem contra o Mal, numa representação do humanismo", diz Ford, ciente da força numérica da saga do Capitão América.
Os três filmes anteriores do herói faturaram respectivamente US$ 370 milhões (o primeiro, de 2011), US$ 714 milhões (o segundo, de 2014) e US$ 1,1 bilhão (o estouro das boiada "Guerra Civil", de 2016, que revelou o Pantera Negra). Agora, resta saber o quão alto o ex-Falcão e atual Capitão vai flanar pelos céus.