Bombando em tudo quanto é streaming com "Operação Maré Negra", "Biônicos" e "Os Quatro da Candelária", Bruno Gagliasso firmou um atestado de ousadia com a teledramaturgia há uma década, quando brincou de Norman Bates em "Dupla Identidade" (2014), de Glória Perez. Deu ao cinema a certeza de que sabe ser gigante, quando a telona precisa, ao enfrentar Marighella no cult dirigido por Wagner Moura, em 2019, sobre o guerrilheiro que peitou a ditadura. Antes disso tudo, ele foi Listrado, quer dizer, a voz nacional do Listrado, simpático animal de quatro patas, na versão brasileira de "Racing Stripes" (2005), aqui traduzido malandramente como "Deu Zebra!". A escolha dele foi feliz, diferentemente de muitos casos de astros de TV que se metem nas bancadas dos estúdios de dublagem (como o sofrível caso de Luciano Huck em "Enrolados"), no lugar de trupes vocais profissionais. Por ter mandado bem como o gogó de um equídeo, Gagliasso voltou a dublar, cedendo seu melífluo tom de fala ao Mickey do Reino Unido, o urso Paddington. Lá fora, Ben Whishaw (de "Passagens") cumpre todo pimpão a tarefa de interpretar o bichinho. A correspondência de timbre (e de doçuras) entre os dois é perfeita. Tira-se a prova dos noves em poucos minutos de "Paddington: Uma Aventura na Floresta", cuja bilheteria (num leque ainda mignon de países) beira US$ 72,8 milhões. Sua estreia global vem sendo feita aos poucos. O Brasil entra em sua rota neste fim de semana.
Salas de exibição do planeta todo lotam quando abrem grade para o personagem criado pelo escritor Michael Bond (1926-2017) em 13 de outubro de 1958. Essa é a data de publicação do primeiro de seus 29 livros. Ele ainda estrela duas séries de animação, sendo que a primeira foi exibida pela BBC de 1976 a 1993, e a segunda, de 2019, encontra-se em streaming na Amazon Prime. Mães, pais, avôs, avós e educadoras/es amam a peluda figura de chapéu vermelho, capa de chuva azul e galochas pela relevância que ele dá à formação de valores como solidariedade e polidez, sem fleuma.
Não é à toa que a nata europeia de atrizes e atores se interessam em participar de seus filmes, como é o caso do espanhol Antonio Banderas, escalado para representar um sujeito de caráter duvidoso em sua terceira incursão pela telona, numa mescla de live-action e seres animados: "Paddington in Peru". O roteiro, escrito por Mark Burton, Jon Foster e James Lamont, com base em argumento de Paul King e Simon Farnaby, evoca traços da franaquia "Indiana Jones", cheio de perigos silvestres, de quedas d'água a pedregulhos que esmagam gente. O pavimento central da dramaturgia, contudo, é o ajuste dos afetos entre seu herói educadíssimo (que Gagliasso dubla com inteligência) e seu clã adotivo, os Brown. Foram esses londrinos que o adotaram quando ele foi parar em Londres, egresso da amazônia peruana.
Seu empenho de se adaptar às regras de conduta da Grã-Bretanha, dificultado por seu jeitão atrapalhado, inspira tramas cômicas desde 2014, quando ganhou um longa-metragem sob a direção do já citado Paul King. A fita original custou US$ 65 milhões e rendeu uma baba (US$ 318,7 milhões). O êxito repetiu-se em sua (estonteante) sequência, de 2017, que custou US$ 40 milhões e arrecadou US$ 283,7 milhões. Nela, havia um Hugh Grant em estado de graça, no papel do ator fracassado (e picareta de carteirinha) Phoenix Buchanan.
Esse 171 faz uma pontinha em "Paddington: Uma Aventura na Floresta", quando a gente menos espera. Vale ficar pelos créditos adentro, mesmo quando o longa acaba, para ver tudo o que o diretor Dougal Wilson (um escolado publicitário e realizador de videoclipes) preparou para quem é entusiasta da mais famosa criação de Bond. O cineasta é cuidadoso sobretudo com as situações cômicas, asseguradas pela presença de Hugh Bonneville no papel do patriarca dos Brown, Henry, um paizão que consegue ser pau pra toda obra, mesmo quando erra.
Viçoso plasticamente, graças ao colorido rebuscado da fotografia de Erik Wilson, "Uma Aventura Na Floresta" segue Paddington até o coração da Pangeia sul-americana. Ele vem até estas bandas a fim de visitar sua amada tia Lucy (interpretada por Imelda Stauton lá fora e bem dublada por Lina Rossa aqui). Sua parente querida mora no Lar para Ursos Aposentados, mas, de acordo com uma freira bem esquisita, a Reverenda Madre (Olivia Colman), a senhorinha está perdida. Seu sobrinho conta com os Brown para ajudá-lo a encontrar a ursona.
Após uma hilária passagem pela imigração, Paddington tromba com um navegador, o capitão Hunter Cabot (Banderas, em estado de graça), e sua filha, Gina (Carla Tous). Contrata o serviço náutico do velho marinheiro para ajudá-lo em sua expedição, mas não imagina que ele parece ter segundas e terceiras e quartas intensões nesse trabalho.
Dublado no Brasil engenhosamente por Marco Ribeiro, Hunter é a medida viva de tudo o que Paddington desconhece: egoísmo, mesquinharia, velhacaria. Na imensidão verde da mata, tais substantivos parecem não valer nada, mesmo alimentados por espíritos ancestrais do marujo, expressos em manifestações de seus antepassados (todos vividos por Banderas). Entre galhos e correntezas, o valor maior parece ser o companheirismo, palavra essencial de Paddington. Dela brota um filme de férias pra gente e ver e rever com sorriso no rosto.