O que o fim da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial tem a ver com um desfile de escola de samba realizado, todos os anos, semanas depois da folia oficial, na fronteira do Brasil com a Argentina? À primeira vista, nada. Guerra é silêncio tenso; carnaval é explosão de som. Mas a história gosta dessas ironias. Foi justamente da disciplina dos quartéis que brotou, no pampa gaúcho, um dos espetáculos mais singulares do país: o Carnaval de Uruguaiana, vizinha da argentina Paso de los Libres. O desfile teve início nesta quinta-feira (5), novamente com forte presença de artistas do carnaval carioca.
“O carnaval de Uruguaiana é um milagre brasileiro”, define o radialista, pesquisador, compositor e violonista Chico Alves, autoridade local tanto no samba quanto na música nativista. A frase não é exagero retórico. É diagnóstico. A festa nasce da guerra. Após a vitória dos aliados, o presidente Getúlio Vargas determinou
o reforço militar nas fronteiras. Muitos dos fuzileiros destacados para a missão vieram do Rio de Janeiro. Trouxeram fardas, regulamentos e, escondido no bornal invisível da alma, o batuque. Entre uma ordem unida e outra, o surdo começou a marcar passo diferente.
Com eles vieram a ginga, o pandeiro, o tamborim. Os fundamentos do samba carioca encontraram o vento largo do pampa e ali criaram raiz. Primeiro surgiu o bloco Falsa Baiana; depois, a escola Filhos do Mar. O Rio ensinou o alfabeto do samba. Uruguaiana escreveu sua própria literatura.
A Avenida Presidente Vargas - que outro nome poderia abrigar essa síntese de história? - virou passarela. Nela, a rivalidade ganhou o tempero de um Gre-Nal carnavalesco. Rouxinóis e Unidos da Cova da Onça acumulam títulos e capítulos. Mas não desfilam sozinhas na memória da cidade. Imperadores do Sol, atual campeã, Unidos da Ilha do Marduque, Bambas da Alegria e Deu Chucha na Zebra também já conheceram a glória.
Cada escola é um bairro que aprende a sonhar em coletivo. Durante anos, o carnaval local era mais um no mapa brasileiro, ofuscado pelo clarão da Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Em 2004, uma decisão judicial que proibiu ensaios no pré-carnaval ameaçou calar os tamborins. O então prefeito Sanchotene Felice optou pelo improvável: adiou a festa para salvá-la. Transformou obstáculo em invenção. Nascia ali a
revolução da fronteira.
Cada escola passou a desfilar duas vezes. O erro da primeira noite podia ser corrigido na segunda. O carnaval ganhou dramaturgia. Ganhou suspense. Ganhou excelência. A novidade atraiu nomes consagrados da Sapucaí: Neguinho da Beija-Flor, Selminha Sorriso, Dominguinhos do Estácio, entre outros. A fronteira virou ponto de encontro do Brasil que samba.
Em 2026, a integração permanece vigorosa. Selminha e Claudinho formam o casal dos Rouxinóis. Tinga, intérprete da Unidos de Vila Isabel, canta para a Bambas da Alegria. Gabriel Melo, diretor executivo da Unidos da Tijuca, conduz o carnaval dos Imperadores do Sol. Não se trata de importação de talentos, mas de intercâmbio de afetos.
Além da dimensão cultural, o carnaval tornou-se ativo econômico estratégico. A cidade vê crescer a arrecadação, a ocupação hoteleira, o comércio pulsar. “Mais do que nunca, é nossa obrigação apoiar”, afirma o prefeito Carlos Delgado.
Sucesso na Avenida e no planejamento, Uruguaiana confirma o verso do poeta João Chagas Leite: “Quem segue o rastro do sol sempre chega a Uruguaiana”. Talvez, nessa experiência forjada entre quartéis e tamborins, esteja um modelo possível para outros carnavais do Brasil - a prova de que, às vezes, a história marcha em compasso de guerra para ensinar um povo a dançar.