Mangueira e Portela surpreendem com modernização, mas Imperatriz e Niterói ficam aquém do esperado no Grupo Especial
A primeira noite de desfiles do Grupo Especial em 2026 marcou um salto de modernidade justamente para duas escolas que construíram suas histórias alicerçadas na tradição do samba. Não por acaso, Mangueira e Portela, as maiores campeãs do carnaval carioca, entenderam que as regras do jogo mudaram. O carnaval contemporâneo não permite mais que ninguém se deite apenas sobre a própria biografia. É preciso ousar, sofisticar, disputar cada décimo com estratégia. E a verde e rosa, a azul e branco mostraram que tradição e atualização podem caminhar juntas quando há leitura correta do tempo presente.
Acadêmicos de Niterói
A primeira escola a pisar na Sapucaí foi a Acadêmicos de Niterói, cercada de expectativa por sua homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva - tema que mobilizou debates intensos no pré-carnaval. A presença de autoridades e artistas ampliou os holofotes, mas o desfile não correspondeu tecnicamente. Alas reduzidas, fantasias pouco elaboradas e alegorias de concepção e acabamento frágeis comprometeram o conjunto. Faltou densidade estética e impacto visual compatíveis com o Grupo Especial. O enredo, até o penúltimo setor, desenvolveu de forma consistente a trajetória histórica de Lula. Contudo, ao avançar para referências ao governo atual e a aspectos de natureza político-eleitoral, perdeu unidade e enfraqueceu a proposta inicial. A escola sai em situação delicada na luta pela permanência.
Imperatriz Leopoldinense
A Imperatriz Leopoldinense entrou na avenida com energia vibrante, transmitindo a sensação de que poderia despontar como forte candidata ao título. A escola homenageou Ney Matogrosso em enredo desenvolvido por Leandro Vieira, carnavalesco reconhecido por sua inventividade. No entanto, o samba-enredo, alvo de críticas na pré-temporada, não sustentou o desfile como se esperava. Problemas visíveis de acabamento nos cinco primeiros elementos alegóricos comprometeram o impacto inicial. O destaque positivo ficou para o carro inspirado na canção "O Vira", o mais bem resolvido da noite em concepção e execução. Ainda assim, o conjunto faz com que a Imperatriz saia alguns passos atrás na disputa pelo título e dependa também de eventuais tropeços das concorrentes para garantir lugar no Desfile das Campeãs.
Portela
A Portela viveu um momento 2.0. Depois de ter voltado ao Sábado das Campeãs no último ano sob muitas críticas, a escola apostou numa reformulação que começou pela direção. O presidente Júnior Scafura, ainda jovem, combina a vivência do carnaval tradicional com a percepção das exigências atuais. A azul e branco precisava reconhecer sua história, mas incorporar novas linguagens para voltar a ser presença constante na briga pelo campeonato.
Com o enredo "O Mistério do Príncipe do Bará - A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande", do carnavalesco André Rodrigues, a Portela exaltou o Batuque, manifestação religiosa afro-gaúcha, destacando a figura histórica de Custódio Joaquim de Almeida e a força simbólica de Bará no contexto religioso do estado. Mesmo com temática tradicional, a escola apresentou pinceladas de modernidade, especialmente na comissão de frente, que surpreendeu ao levar um integrante sobre um skyboard sobrevoando a coreografia dedicada aos orixás. O principal problema ocorreu no encerramento, quando um incidente com o último carro alegórico ainda na concentração provocou um buraco perceptível no primeiro módulo de julgadores. O carro conseguiu entrar e evitar prejuízo maior, mas o susto pode custar décimos importantes.
Mangueira
Encerrando a noite já depois das 5 da manhã, a Mangueira entrou com a responsabilidade de responder às más performances recentes e de provar que compreendeu o novo momento do carnaval. Assim como em 1984 promoveu uma guinada estética para voltar a vencer após 12 anos, a verde e rosa mostrou novamente disposição para se reinventar. Com o enredo "Mestre Sacaca do Encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra", desenvolvido por Sidney França, a escola promoveu transformação significativa na concepção visual.
As fantasias idealizadas por Lucas Abelha romperam com o padrão historicamente associado à Mangueira, apostando em soluções cromáticas ousadas, texturas sofisticadas e desenho mais arrojado. Houve surpresa positiva. Também as alegorias apresentaram salto de qualidade em concepção e acabamento, um dos pontos altos da noite. O samba, antes criticado, sustentou a evolução com consistência, ainda que sem a explosão emocional típica da escola. A Mangueira priorizou a execução técnica, jogou com as regras sob o braço e saiu da avenida com boas perspectivas de retornar ao Sábado das Campeãs - e, talvez, de algo mais.
*Jornalista com 30 anos de cobertura carnavalesca