Em duas noites marcadas por emoção, euforia, frustração e até um grave acidente, a Série Ouro mostrou por que é um ambiente implacável. É o ambiente mais árduo do carnaval carioca do Sambódromo: barracões em más condições, rotina de atrasos de subvenção pública, prazos sufocantes, improviso elevado à categoria de método e uma pressão constante para transformar limitação em espetáculo. Entre sexta e sábado, na Marquês de Sapucaí, algumas forças já esperadas confirmaram favoritismo, mas houve também espaço para surpresas e reviravoltas.
Unidos de Padre Miguel, União de Maricá, Império Serrano e Estácio de Sá confirmaram as expectativas de que figurariam entre as melhores apresentações do fim de semana, sustentando técnica, conjunto e ambição de acesso. No entanto, a Em Cima da Hora surgiu como surpresa competitiva, mostrando força suficiente para, ao menos, sonhar com a taça e se inserir de vez na disputa.
A sexta-feira foi marcada pela discrepância da Unidos de Padre Miguel em relação às demais. Com o enredo "Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema", desenvolvido por Lucas Milato, a escola conciliou rigor técnico e uma entrega emocional incomum à sua trajetória recente. Talvez impulsionada pelo rebaixamento do Grupo Especial em 2025, a agremiação da Zona Oeste apresentou um desfile grandioso, abordando o folclore indígena e homenageando a guerreira Clara Camarão com força estética e narrativa.
A surpresa positiva da primeira noite veio da Acadêmicos de Vigário Geral. Com pesquisa sólida e assinatura de Alex Carvalho e Caio Cidrini, a escola desenvolveu um enredo crítico à visão colonizadora do Brasil, sustentado por estética forte e muita garra. Desfilando depois de gigantes como União da Ilha do Governador e a própria Unidos de Padre Miguel, e enfrentando arquibancadas já esvaziadas depois das quatro da manhã, Vigário se consolidou como destaque.
O ponto negativo da noite ficou com a Unidos do Jacarezinho. Alegorias inacabadas e alas sem fantasias evidenciaram dificuldades agravadas por incêndios recentes que comprometeram a produção. Apesar da garra na Avenida, a escola não conseguiu executar à altura a homenagem pretendida e já aparece com o rebaixamento praticamente consolidado.
Inocentes de Belford Roxo e União do Parque Acari fizeram desfiles apenas protocolares, que não as põem no rol de postulantes. Já a Unidos de Bangu, apesar de uma boa apresentação do ponto de vista da harmonia e evolução, pecou na parte estética e corre algum risco na zona do rebaixamento, principalmente pela perda de dois décimos por ter estourado o tempo máximo de 55 minutos de desfile.
No sábado, a União de Maricá viveu o contraste mais dramático. Com o enredo "Berenguendéns e Balangandãs", assinado por Leandro Vieira, apresentou o desfile mais bonito e acabado entre as 15 escolas. Evolução segura, fantasias refinadas e impacto visual consistente faziam o título parecer questão de tempo. No entanto, falhas de iluminação na última alegoria e a perda de 0,2 ponto por atraso complicaram o cenário. O momento mais grave veio na dispersão: um acidente envolvendo a última alegoria deixou um empurrador com fratura grave, encaminhado ao Hospital Souza Aguiar, além de outros feridos. A festa deu lugar à apreensão.
O Império Serrano emocionou ao homenagear Conceição Evaristo. Num desfile de forte identidade comunitária e canto potente, a escola saiu com sensação real de disputa, dependendo diretamente das notas de concorrentes como a própria Maricá.
A Estácio de Sá também fez apresentação consistente ao reverenciar Tata Tancredo, considerado o pai da umbanda carioca. Mesmo com problemas pontuais em alegorias, manteve regularidade e entra na apuração como candidata ao acesso.
A surpresa inesperada foi a Em Cima da Hora. Com enredo em homenagem às Pombagiras, a escola de Cavalcante apresentou um desfile vibrante e competitivo após processo de reformulação interna que incluiu a chegada de Vinícius Drumond como presidente de honra.
O Arranco do Engenho de Dentro fez uma apresentação sensível em homenagem à Chamego, a primeira palhaça do Brasil. Já a Unidos do Porto da Pedra abordou a prostituição no Rio de Janeiro e no Brasil, tema relevante, mas com execução abaixo do padrão que costuma apresentar.
Encerrando já sob a luz do dia, a Unidos da Ponte levou à Avenida um enredo sobre o funk como movimento cultural negro do Rio. A proposta era potente, mas problemas nas alegorias comprometeram o resultado. Ponte e Unidos de Bangu devem disputar diretamente a permanência, enquanto a situação da Unidos do Jacarezinho parece praticamente definida.
A apuração acontece na quinta-feira à tarde, com transmissão da Band TV. E como a própria Série Ouro provou, décimos não são detalhe - são destino.
*Jornalista com 30 anos de cobertura carnavalesca