Por: Fred Soares - Especial para o Correio da Manhã

Carnaval 2026 | Série Ouro: Arte e sonho em estado bruto

Império Serrano dribla dificuldades combinando tradição e força da comunidade | Foto: Divulgação

No carnaval, nem todo sonho nasce sob holofotes. Alguns começam em barracões improvisados, terrenos emprestados, galpões quentes demais no verão ou sob o risco constante de incêndios intempéries. É desse lugar - de trabalho árduo, pouco dinheiro e imaginação em estado bruto - que partem as escolas da Série Ouro, a segunda divisão do carnaval carioca, que desfilam nesta sexta e sábado a partir das 21h, na Marquês de Sapucaí, com transmissão ao vivo da Band TV para todo o Brasil.

Sob um abismo de investimento (as escolas deste grupo arrecadam no máximo R$ 1,5 milhão diante dos cerca de R$ 15 milhões do Grupo Especial), 15 escolas disputam mais do que um título. Há apenas uma vaga para o Grupo Especial de 2027, mas o campeonato carrega um peso estrutural inédito. Terminar entre as 13 primeiras colocadas garante às agremiações o direito de ocupar, a partir do próximo carnaval, os espaços da Cidade do Samba 2, complexo de barracões em construção pela Prefeitura do Rio, com as tão sonhadas condições de trabalho. A partir de 2027, a Série Ouro passa a ter 14 escolas: as 13 melhores de 2026, a campeã da Série Prata e a rebaixada do Grupo Especial. Não é detalhe administrativo; é uma virada histórica para quem sempre produziu carnaval em condições precárias.

Macaque in the trees
União de Maricá desponta como uma das favoritas para alçar o topo | Foto: Divulgação

O grau de competitividade ajuda a explicar o clima de decisão. Das 15 escolas, 11 já passaram pelo Grupo Especial e carregam memória, ambição e conhecimento do jogo. União do Parque Acari, Acadêmicos de Vigário Geral, Botafogo Samba Clube e União de Maricá fogem à regra - esta última, curiosamente, apontada desde cedo como uma das favoritas. A Série Ouro de 2026 não trata apenas de acesso. Trata de permanência, estrutura e futuro.

Abrindo a primeira noite de desfiles, a Unidos do Jacarezinho coloca o campeonato em movimento com "O ar que se respira agora inspira novos tempos", enredo que parte da trajetória de Xande de Pilares para falar de criação, pertencimento e da força cultural do subúrbio.

Logo em seguida, a Inocentes de Belford Roxo aposta no lúdico com "Um sonho de um tal pagode russo, nos frevos do meu Pernambuco", misturando referências e brincando com encontros improváveis entre tradições populares.

Dando sequência, a surpreendente União do Parque Acari apresenta "Brasiliana", mergulho na história do Teatro Experimental do Negro, reafirmando o carnaval como espaço de memória, resistência e afirmação da cultura negra.

A Unidos de Bangu vem na sequência com "As coisas que mamãe me ensinou", homenagem a Leci Brandão que traduz, em forma de desfile, valores como ancestralidade, educação e compromisso social. Olho na valentia do samba da escola.

Depois, a Unidos de Padre Miguel, última colocada no Grupo Especial em 2015, leva à Sapucaí "Kunhã-Eté: o sopro sagrado da Jurema", trazendo saberes indígenas ligados à espiritualidade e uma homenagem a indígenas Clara Camarão, heroína da resistência às invasões holandesas em Pernambuco.

Mais tradição a seguir: a União da Ilha do Governador aposta na leveza com "Viva o hoje! O amanhã? Fica pra depois!", usando o Cometa Halley como ponto de partida para refletir sobre o tempo e a urgência de celebrar o presente, e relembrar como a passagem do cometa em 1910 mexeu com a sociedade carioca.

Quem encerra a primeira noite é a Acadêmicos de Vigário Geral. A escola leva para a avenida o enredo "Brasil Incógnito: o que os seus olhos não veem, a minha imaginação reinventa", que propõe uma viagem pela cartografia fantástica e mitológica do Brasil. A escola desafia a narrativa dos colonizadores com uma perspectiva de reinterpretação histórica.

No sábado de carnaval, a Botafogo Samba Clube abre a segunda noite com "O Brasil que floresce em arte", homenagem ao paisagista Roberto Burle Marx, traduzindo sua obra em cores, formas e movimento.

Na sequência, a Em Cima da Hora apresenta "Salve todas as Marias - Laroyê, Pombagiras!", exaltando a força feminina nas tradições afro-brasileiras.

O Arranco do Engenho de Dentro vem depois com "A gargalhada é o xamego da vida", contando a história da Maria Eliza Alves dos Reis, a Palhaça Xamego, primeira palhaça negra do Brasil.

O tradicional Império Serrano leva à avenida "Ponciá Evaristo, flor do Mulungu", homenagem a Conceição Evaristo, construída a partir do conceito de escrevivência, lançado pela escritora.

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A Estácio sonha voltar ao Grupo Especial com o enredo sobre as origens da Umbanda carioca | Foto: Carlos Lucio/Divulgação

Na sequência, a Estácio de Sá apresenta "Tata Tancredo - o Papa Negro no terreiro do Estácio", exaltando Tancredo da Silva Pinto, o grande fomentador da Umbanda carioca que, entre outras coisas, criou a tradição de se passar a virada de ano nas praias com roupas brancas.

Um dos desfiles mais aguardados vem a seguir: a União de Maricá apresenta "Berenguendéns & Balangandãs", com carnaval assinado por Leandro Vieira e Zé Paulo Sierra no carro de som, reforçando o status de favorita. O enredo mostra a tradição da produção de joias e bijuterias de origem africana na Bahia dos séculos 18 e 19.

Na penúltima apresentação, a Unidos do Porto da Pedra propõe reflexão com "Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite", revisitando a história da prostituição e sua influência na sociedade brasileira.

Fechando a Série Ouro, a Unidos da Ponte celebra a música preta e periférica com "Tamborzão - o Rio é baile! O poder é black!", do maxixe ao funk.

Ao fim de dois dias, a Série Ouro reafirma seu papel como o território mais árduo - e talvez mais revelador - do carnaval carioca. Em 2026, desfilar bem significa existir, permanecer e planejar o futuro. A Série Ouro não é apenas a segunda divisão do carnaval. É a linha de frente de quem luta para continuar fazendo samba.

 

Os desfiles das escolas da Série Ouro

Sexta-feira, 13 de fevereiro

* Unidos do Jacarezinho

* Inocentes de Belford Roxo

* União do Parque Acari

* Unidos de Bangu

* Unidos de Padre Miguel

* União da Ilha

* Vigário Geral

 

Sábado, 14 de fevereiro

* Botafogo Samba Clube

* Em Cima da Hora

* Arranco do Engenho de Dentro

* Império Serrano

* Estácio de Sá

* União de Maricá

* Porto da Pedra

* Unidos da Ponte