Por: Rafael Lima

Carnaval 2026 | Acadêmicos do Grande Rio: A potência da lama para inundar a avenida

Ao evocar os manguezais, a tricolor de Duque de Caxias chega ao movimento Manguebeat | Foto: Divulgação


Da lama dos manguezais do Recife para a passarela do samba, a Acadêmicos do Grande Rio leva ao Carnaval 2026 um desfile que conecta o Nordeste à Marquês de Sapucaí por meio de uma das mais marcantes revoluções culturais do Brasil: o manguebeat. A escola de Duque de Caxias aposta em um enredo urbano, ancestral e contemporâneo ao mesmo tempo, que transforma o mangue em símbolo de criatividade, resistência e potência cultural nascida nas periferias e projetada para o mundo.

O desfile percorre o território simbólico do mangue, espaço de sobrevivência, trabalho e criação, apresentando o cotidiano dos catadores de caranguejo, a vida nas margens e a força da ancestralidade que o rege. A narrativa parte das raízes para alcançar a explosão artística que marcou o movimento liderado por Chico Science e Nação Zumbi, responsável por unir maracatu, rock, hip-hop e influências globais em uma linguagem própria, original e transformadora.

A presença simbólica de Nanã, divindade ligada à lama, à criação e aos ciclos da vida, surge como um dos fios condutores do enredo, reforçando a conexão entre espiritualidade, natureza e cultura popular. A lama, longe de ser vista como limite, se transforma em elemento de fertilidade criativa, de onde brotam sons, imagens, ideias e uma nova estética que redefiniu a música e o comportamento urbano no Brasil dos anos 1990.

Visualmente, o desfile da Grande Rio se constrói em diferentes camadas, acompanhando a própria trajetória do manguebeat. Os primeiros setores apostam em uma linguagem mais rústica e artesanal, remetendo à terra, ao manguezal e ao trabalho manual, com texturas, tons naturais e referências à vida nos estuários. Em seguida, a escola transita para uma estética mais tradicional do carnaval, com brilho, pedrarias e paetês, simbolizando a expansão cultural e o diálogo com o espetáculo.

Na chegada ao universo urbano, o desfile assume uma linguagem contemporânea, incorporando grafite, transparências, materiais modernos e referências à arte de rua, refletindo a estética das periferias, a cultura jovem e o impacto do manguebeat nas cidades. Essa transição visual reforça a ideia de transformação, mostrando como um movimento nascido na lama foi capaz de dialogar com o mundo, influenciar gerações e ocupar espaços centrais da cultura brasileira.

Com um enredo de forte identidade cultural, narrativa envolvente e proposta visual dinâmica, a Grande Rio promete um desfile na terça-feira de Carnaval que une ancestralidade, modernidade e emoção. A escola se apresenta como porta-voz de uma revolução estética que brotou do mangue para conquistar palcos, mentes e corações, levando para a Sapucaí um carnaval que pulsa ao ritmo da lama, da cidade e da criatividade sem fronteiras. Arretada, Grande Rio!

 

Ficha Técnica

Grande Rio | Foto: Divulgação

Fundação

22/09/1988

Cores

Vermelho, Verde e Branco

Presidentes de Honra

Jayder Soares, Leandro Soares e Helinho de Oliveira

Presidente

Milton Abreu do Nascimento (Perácio)

Carnavalesco

Antônio Gonzaga

Diretor de Carnaval

Thiago Monteiro

Intérprete

Evandro Malandro

Mestre de Bateria

Fabrício Machado (Fafá)

Rainha de Bateria

Virginia Fonseca

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Daniel Werneck e Taciana Couto

Comissão de Frente

Hélio Bejani e Beth Bejani

 

Samba-Enredo: A Nação do Mangue


Autores: Ailson Picanço, Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni, Marcelo Moraes e Guga Martins

Intérprete: Evandro Malandro

 


Lá vem caboclo, herdeiro de zumbi

a nação está aqui não se curva ao poder

escute, nossa gente vem da lama

resistência que inflama

quando toca o xequerê

casa de gueto! Casa de gueto!

Nossa voz que não se cala

batuque sem medo, por direito

é o toque das alfaias

eu também sou caranguejo

à beira do igarapé

gabiru trabalha cedo,

cata o lixo da maré

"manamauê" maracatu

saluba, ê Nanã yabá

a vida parecida com as águas

não é doce como o rio

nem salgada feito o mar

A margem já subiu para a cidade

entre tronco e cipó

rebeldia dá um nó... Pensamento popular

Gramacho encontrou Capibaribe

num mundo livre quero ver você cantar

freire, ensine um país analfabeto

que não entendeu o manifesto

da consciência social

Chico, Manguebeat "tá" na rua

Caxias comprou a luta e transforma em carnaval

respeite os tambores do meu ilê

respeite a cadência do meu ganzá

à frente, o estandarte do meu povo

pra erguer um tempo novo

que nos faz acreditar

Eu sou do mangue, filho da periferia

sobre uma palafita grande rio anunciou

ponta de lança é daruê

dobra o gonguê... A revolução já começou!