"A Macumba é o ritual mais aproximado do Samba. Já está a Macumba aí. Quanto ao Samba... a origem do Samba é a Macumba." A frase de Heitor dos Prazeres, registrada em depoimento ao Museu da Imagem e do Som em 1966, resume o conceito central do desfile da Unidos de Vila Isabel para o Carnaval de 2026. Com o enredo "Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África", a escola propõe uma imersão no universo criativo de Heitor, sambista, pintor, compositor e um dos grandes nomes da cultura popular brasileira.
Desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, o enredo não segue uma linha biográfica tradicional. A proposta é costurar sonhos, memórias, imagens e símbolos que atravessam a obra de Heitor, conectando a Pequena África carioca a uma África sonhada, reinventada e celebrada como território espiritual, artístico e comunitário. "A ideia nunca foi copiar ou refazer as telas do Heitor na Avenida, mas retirar referências, imagens poéticas, as cores, as formas dos personagens e levar isso para o nosso desfile. A gente observou muito as estamparias presentes na obra dele, a paleta de cores e a maneira como ele representava o cotidiano", explica Gabriel.
A narrativa começa com Lino, apelido do menino arteiro que cresceu entre as ruas do Rio e as famílias de sangue e de santo. Foi por meio de Hilário Jovino, seu padrinho, que conheceu o reino de Ciata, a mais afamada das Tias em cujos quintais o samba fervia. Na casa de Tia Ciata, lugar da roda onde a Macumba e os tambores educavam pelo toque, o jovem Lino foi Alabê-Nilu, comparsa de Pixinguinha, cantor-tocador de atabaques, Ogã de Xangô e de Oxum. Ali, no terreiro que era casa e travessa, tudo estava misturado: caboclos e pretos-velhos, fumaças dos cachimbos, pés descalços vibrando a gira.
Guiado por Hilário e Hilária, o menino cresceu intrépido e virou Mano Heitor do Cavaco. Sempre muito alinhado, gravata borboleta, paletó bem cortado, anéis reluzindo nos dedos, era a nata da malandragem, a modernidade negra. Um dândi a flanar por bares e gafieiras, costurando a cidade inteira. Quando vinha o carnaval, a disputa se acentuava. No concurso de Zé Espinguela ganhou o primeiro lugar. Escolas de samba nasciam e o moço estava no meio: Deixa Falar, Portela, Mangueira. Em cada pavilhão um reinado, o bordar de uma nova estrela. Brindou com Noel Rosa, pegou o bonde da história vestido de baiana.
Pintou e bordou, este líder nato. Foi mestre da própria oficina, nas tramas da moda, nos palcos e coxias, sob as luzes dos cassinos, no vuco-vuco das Bienais. Gravou a Macumba em disco para consagrar a fé e a farra como a fusão maior. Até gentes de outras terras, Josephine Baker, Orson Welles, se deixaram guiar pela ginga do alfaiate-pintor.
Um dos eixos centrais do enredo é a conexão Brasil-África, construída a partir da participação de Heitor no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar, Senegal, em 1966. "A relação África-Brasil se dá no nosso enredo por conta da participação do Heitor nesse festival. Ele foi pessoalmente, expôs obras e também foi representado por um documentário. E a própria Vila Isabel também esteve presente nesse momento histórico", conta Gabriel.
Elementos simbólicos desse universo estarão presentes nas fantasias e alegorias: pisos de taco, instrumentos musicais que dialogam com o samba e com os rituais, pontos riscados, estrelas, velas e referências diretas aos terreiros e às práticas religiosas afro-brasileiras. A proposta é transformar a avenida em uma grande tela viva, onde fé, arte e música se confundem e se complementam.