Por: Affonso Nunes

Carnaval 2026 | Unidos de Vila Isabel: Uma tela viva com sambae macumba

A Vila Isabel associa o samba à macumba e a macumba ao samba, como tão bem nos ensinou Heitor dos Prazeres | Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval


"A Macumba é o ritual mais aproximado do Samba. Já está a Macumba aí. Quanto ao Samba... a origem do Samba é a Macumba." A frase de Heitor dos Prazeres, registrada em depoimento ao Museu da Imagem e do Som em 1966, resume o conceito central do desfile da Unidos de Vila Isabel para o Carnaval de 2026. Com o enredo "Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África", a escola propõe uma imersão no universo criativo de Heitor, sambista, pintor, compositor e um dos grandes nomes da cultura popular brasileira.

Desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, o enredo não segue uma linha biográfica tradicional. A proposta é costurar sonhos, memórias, imagens e símbolos que atravessam a obra de Heitor, conectando a Pequena África carioca a uma África sonhada, reinventada e celebrada como território espiritual, artístico e comunitário. "A ideia nunca foi copiar ou refazer as telas do Heitor na Avenida, mas retirar referências, imagens poéticas, as cores, as formas dos personagens e levar isso para o nosso desfile. A gente observou muito as estamparias presentes na obra dele, a paleta de cores e a maneira como ele representava o cotidiano", explica Gabriel.

A narrativa começa com Lino, apelido do menino arteiro que cresceu entre as ruas do Rio e as famílias de sangue e de santo. Foi por meio de Hilário Jovino, seu padrinho, que conheceu o reino de Ciata, a mais afamada das Tias em cujos quintais o samba fervia. Na casa de Tia Ciata, lugar da roda onde a Macumba e os tambores educavam pelo toque, o jovem Lino foi Alabê-Nilu, comparsa de Pixinguinha, cantor-tocador de atabaques, Ogã de Xangô e de Oxum. Ali, no terreiro que era casa e travessa, tudo estava misturado: caboclos e pretos-velhos, fumaças dos cachimbos, pés descalços vibrando a gira.

Guiado por Hilário e Hilária, o menino cresceu intrépido e virou Mano Heitor do Cavaco. Sempre muito alinhado, gravata borboleta, paletó bem cortado, anéis reluzindo nos dedos, era a nata da malandragem, a modernidade negra. Um dândi a flanar por bares e gafieiras, costurando a cidade inteira. Quando vinha o carnaval, a disputa se acentuava. No concurso de Zé Espinguela ganhou o primeiro lugar. Escolas de samba nasciam e o moço estava no meio: Deixa Falar, Portela, Mangueira. Em cada pavilhão um reinado, o bordar de uma nova estrela. Brindou com Noel Rosa, pegou o bonde da história vestido de baiana.

Pintou e bordou, este líder nato. Foi mestre da própria oficina, nas tramas da moda, nos palcos e coxias, sob as luzes dos cassinos, no vuco-vuco das Bienais. Gravou a Macumba em disco para consagrar a fé e a farra como a fusão maior. Até gentes de outras terras, Josephine Baker, Orson Welles, se deixaram guiar pela ginga do alfaiate-pintor.

Um dos eixos centrais do enredo é a conexão Brasil-África, construída a partir da participação de Heitor no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar, Senegal, em 1966. "A relação África-Brasil se dá no nosso enredo por conta da participação do Heitor nesse festival. Ele foi pessoalmente, expôs obras e também foi representado por um documentário. E a própria Vila Isabel também esteve presente nesse momento histórico", conta Gabriel.

Elementos simbólicos desse universo estarão presentes nas fantasias e alegorias: pisos de taco, instrumentos musicais que dialogam com o samba e com os rituais, pontos riscados, estrelas, velas e referências diretas aos terreiros e às práticas religiosas afro-brasileiras. A proposta é transformar a avenida em uma grande tela viva, onde fé, arte e música se confundem e se complementam.

 

Samba-Enredo: Macumbembê, Samborembá: Sonhei Que Um Sambista Sonhou A África

Autores: Andre Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho

Intérprete: Tinga

 


Sonhei macumbembê, sonho samborembá

macumba é samba e o samba é macumba

pode até fazer quizumba, só não pode é separar

sonho samborembá, macumbembê

vem da mãe-terra, firmou ponto na Bahia

e na África pequena germinou pra florescer

ê, quilombo... É a Pedra do Sal

arraigou em terreiro e quintal

no chão batido assentou o fundamento

foi o Lino de madrinha

de padrinho, espelhamento

flutuou na capoeira ao perfume de Ciata

negro príncipe de ouro...

O anjo de asas de prata

Um ogã-alabê, macumbeiro

a fumaça do cachimbo, preto-velho soprou

encanto da gira e da roda de bamba

poesia na curimba, batuqueiro e cantador

foi do lundu e do cateretê

alinhou no linho santo, cavaquinho na mão

apaixonado Pierrot, afro-rei

a flecha certeira de Oxóssi na canção

reluz nas escolas, em Noel e Cartola

ganhou o mundo com o mundo de Paulo Brazão

de todos os tons, a Vila negra é

de todos os sons, a negra Vila é

de China e Ferreira, Mocambo, Macacos e Pau

da Bandeira

da nossa favela branca e azul do céu

no branco da tela, o azul do pincel

vem ser aquarela, pintar a unidos de Vila Isabel

Ora yê yê ô, Oxum

kabecilê, Xangô

meus sonhos e tambores, tintas e "prazeres"

pra você, Heitor

 

Ficha Técnica

Vila Isabel | Foto: Divulgação

Fundação

04/04/1946

Cores

Azul e Branco

Presidente de Honra

Martinho da Vila

Presidente

Luiz Guimarães

Carnavalesco

Leonardo Bora e Gabriel Haddad

Diretor de Carnaval

Moisés Carvalho

Intérprete

Tinga

Mestre de Bateria

Macaco Branco

Rainha de Bateria

Sabrina Sato

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane

Comissão de Frente

Alex Neoral e Márcio Jahú