A Paraíso do Tuiuti chega a mais um desfile no Grupo Especial apostando num enredo de forte densidade simbólica. "Lonã Ifá Lucumí" acompanha o destino do Ifá ao longo da história da humanidade, da criação do mundo à sua expansão pelas Américas. Lonã significa destino, conceito que organiza toda a narrativa. Orunmila, orixá responsável pela comunicação entre os orixás e os humanos por meio do jogo do Ifá, o oráculo iorubá, é o eixo central do desfile. "Ele é o senhor do destino. Ele conhece o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro. Ele é o testemunho da criação de tudo e de todos", afirma o carnavalesco Jack Vasconcelos.
A abertura do desfile apresenta a criação do universo, da natureza e dos homens a partir da cosmovisão iorubá. Quando Olodumare, o supremo criador da existência, soprou o Emi (energia vital) para que o primeiro ser humano moldado por Obatalá ganhasse vida com seu Orí divinizado, Orunmila estava presente e tudo assistiu. Todos os seres foram conectados energeticamente e os orixás, regentes das forças da natureza, passaram a comandar cada aspecto e expressão da vida humana. Orunmila, testemunha da criação, recebeu de Olodumare a dádiva de ser seu porta-voz no oráculo de Ifá para guiar a humanidade pelo bom caminho através da comunicação espiritual entre a dimensão terrena, o Ayiê, e a dimensão sobrenatural das divindades, o Orún.
O primeiro setor se concentra em Ilé Ifé, considerada pela cultura iorubá a primeira cidade da humanidade, fundada por Odudua e onde os primeiros humanos moldados por Obatalá iniciaram sua caminhada na Terra. É ali que Orunmila transmite o conhecimento do Ifá aos primeiros babalaôs, responsáveis por levar essa sabedoria ao mundo. "Eles recebem a missão de espalhar o Ifá pela humanidade", explicou Jack. Sentados sobre a esteira de palha, aprenderam a decifrar as mensagens de Orunmila contidas nos Odús que se desenham ao jogarem o cordão trançado com oito metades de favas de Opelê sobre o tabuleiro de madeira Oponifá.
O enredo acompanha a expansão desse conhecimento por diferentes civilizações, seguindo antigas rotas africanas. Os babalaôs iorubás levaram o Ifá praticado em Ifé e na cidade de Oyó para além do Saara, de Kemet à Babilônia, semeando a palavra de Orunmila. O desfile avança então para a diáspora africana e a chegada do Ifá às Américas. O caminho de Ifá cruzou o Atlântico à força, acorrentado no destino dos iorubás escravizados e traficados para a exploração do Novo Mundo. Olokun, divindade soberana dos mares, transportou em suas águas a tradição religiosa africana até o mar caribenho para que a ancestralidade iorubana fosse recebida pela ancestralidade indígena de Taínos e Ciboneys em Cuba.
O Ifá surge com o babalaô Remígio Herrera, um ex-cativo de engenho que, quando alforriado, foi para a Nigéria ser consagrado em Oyó. Com a missão dada por Orunmila de fundar o primeiro Cabildo Lucumí na América hispânica, retornou a Cuba trazendo os fundamentos da Regla de Ifá e iniciou o primeiro babalaô em solo cubano, Tata Gaytán.
Jack explica que o recorte também dialoga com a chegada de um babalaô cubano ao Rio no fim dos anos 1990. "Esse Ifá Lucumí encontra aqui um solo fértil, floresce para o Brasil inteiro e agora para o mundo também", disse. O destino quis que o Ifá Lucumí se ramificasse até o Brasil e se consolidasse no Rio de Janeiro através do babalaô cubano Rafael Zamora. A grandiosidade estética acompanha o conceito. O abre-alas será um dos maiores já levados pela escola à Sapucaí, com cerca de 60 metros de comprimento. "A gente está indo com tudo", resumiu Jack. No encerramento, o desfile assume tom mais reflexivo. "A missão da Tuiuti é mostrar que todos estamos interligados. Todas as ações geram consequências, físicas e espirituais", afirmou.