Por: Affonso Nunes

Carnaval 2026 | Unidos da Tijuca: Escrita que liberta

Carolina Maria de Jesus teve a obra traduzida para mais de 150 países | Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval


A Unidos da Tijuca é a última escola da segunda-feira e entra na avenida com um enredo forte, resiliente e libertador. "Carolina Maria de Jesus" conta a trajetória de uma das mais notáveis escritoras brasileiras, mulher negra e periférica que transformou palavra em sobrevivência, denúncia em literatura e fez de sua vida um legado.

O enredo assinado pelo carnavalesco Edson Pereira, resgata essa trajetória marcada por exclusão, racismo e resistência. A atriz Cyda Moreno, que já interpretou Carolina no teatro durante seis anos consecutivos com o espetáculo "Eu Amarelo, Carolina Maria de Jesus", agora leva a escritora ao maior palco a céu aberto do mundo. "Ela é um exemplo de força, resistência e superação do racismo, da miséria e da exclusão. O desfile exaltará as mulheres negras, centenas de 'Carolinas' que lutam contra a fome, por respeito, por dignidade e pelos direitos de cidadãs", afirma a atriz.

Antes de ser conhecida pelo mundo, Carolina Maria era chamada de Bitita, que significa "de cor preta" na língua changana de Moçambique. Essa menina negra nasceu no interior de Minas Gerais, num Brasil ainda marcado pelas feridas da escravidão recém-abolida. Cresceu nos confins do cerrado mineiro, num cenário colorido por marafantonas e congados, onde aprendeu com seu avô Benedito os segredos que só o tempo revela no encanto do falar e do ouvir. Nas barras das saias da mãe, tias e madrinhas, se entrelaçou ao poder das coisas ditas, ao espírito desconhecido das letras e palavras que desejava conhecer. Bitita deu lugar à Carolina quando esta aprendeu que, para existir aos olhos do mundo, era preciso ter um nome, uma assinatura.

Os caminhos e descaminhos da vida a levaram para São Paulo. Sem emprego fixo na metroóle, foi morar na favela do Canindé. Para sobreviver, catava papel, ferro e restos pelas ruas. Também catava histórias. Nos cadernos em branco que encontrava no lixo, escrevia sobre a fome, a miséria, o racismo, a violência e o cotidiano da favela.

Assim que nasceu "Quarto de Despejo", livro que revelou ao Brasil uma realidade que muitos fingiam não ver. Carolina virou conhecida como "a favelada que escrevia". Sua obra incomodou porque denunciava políticos, expunha desigualdades e desmontava a imagem romantizada da pobreza. Em dramática retórica, reivindicava também o seu espaço no circo social, denunciando o palco que foi negado para as tantas peças que escreveu. Desconstruiu a romântica favela dos sambas de época e publicou o desejo maior dos desabrigados: a Casa de Alvenaria, símbolo do pertencimento à cidade.

O sucesso, porém, veio com limites. Esperavam que Carolina falasse apenas da favela e da miséria. Quando tentou ir além, escrever outras histórias, peças e poemas, foi deixada de lado. A ousadia de contrapor a estrutura, de transpor as barreiras a colocaram da porta para fora.

Mesmo assim, Carolina permaneceu e sua escrita resistiu ao apagamento e continuou viva nas páginas, nas memórias e nas inspirações que deixou. Sua gramática das ruas, mistura refinada do pretuguês com as catedráticas orações e rimas, deu forma e entendimento à gigantesca babel de cultura que somos, desafiando o preconceito da língua, da classe e da cor. É essa trajetória que a Unidos da Tijuca celebra com nome e sobrenome.

 

Ficha Técnica

Unidos da Tijuca | Foto: Divulgação

Fundação

31/12/1931

Cores

Azul e Amarelo

Presidente

Fernando Horta

Carnavalesco

Edson Pereira

Diretores de Carnaval

Fernando Costa e Elisa Fernandes

Intérprete

Marquinhos Art'Samba

Mestre de Bateria

Casagrande

Rainha de Bateria

Mileide Mihaile

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Matheus Miranda e Lucinha Nobre

Comissão de Frente

Bruna Lopes e Ariadne Lax

 

Samba-Enredo: Carolina Maria De Jesus


Autores: Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto, Gigi Da Estiva e Juca

Intérprete: Marquinhos Art'samba

 

Eu sou filha dessa dor

que nasceu no interior de uma saudade

neta de preto velho

que me ensinou os mistérios

bitita cor, retinta verdade

me chamo carolina de jesus

Dele herdei também a cruz

Olhe em mim eu tenho as marcas

me impuseram sobreviver

por ser livre nas palavras

condenaram meu saber

fui a caneta que não reproduziu

a sina da mulher preta no brasil

Os olhos da fome eram os meus

justiça dos homens, não é maior que a de deus

meu quarto foi despejo de agonia

a palavra é arma contra a tirania

Sonhei sobre as páginas da vida

ilusões tolhidas no sistema algoz

que tenta apagar nossa grandeza

calar a realeza que resiste em nós

dos salões da burguesia aos barracos

do borel

onde nascem carolinas

não seremos mais os réus

por tantas marias que viram seus filhos crucificados

nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado

meu país nasceu com nome de mulher

sou a liberdade, mãe do canindé

Muda essa história, tijuca!

Tira do meu verso a força pra vencer

reconhece o seu lugar e luta

esse é nosso jeito de escrever