A Beija-Flor de Nilópolis entra na Marquês de Sapucaí nesta segunda-feira de carnaval para buscar o bicampeonato carregando um marco histórico: será o primeiro desfile da escola desde 1976 - portanto, há 50 anos - sem Neguinho da Beija-Flor como intérprete principal. A voz que atravessou gerações, embalou títulos e se tornou sinônimo do próprio pavilhão azul e branco se despediu após a conquista do campeonato de 2025. Em seu lugar, a escola apresenta uma nova formação no microfone, escolhida por meio do reality show "A Voz do Carnaval", que definiu Nino do Milênio e Jéssica Martin como os novos intérpretes oficiais.
O enredo deste ano, "Bembé", desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo, mergulha na história do Bembé de Santo Amaro da Purificação, manifestação afro-brasileira surgida no final do século XIX, na Bahia, como celebração de liberdade e resistência após a abolição da escravidão. A festa, marcada pela presença dos atabaques, dos rituais de matriz africana e da ocupação coletiva da rua como espaço sagrado, é reconhecida como patrimônio cultural e símbolo de afirmação da cultura negra. Um detalhe: Bembé é uma forma carinhosa que o caloroso povo baiano encontrou para se referirem ao Candomblé. "Queremos trazer para a Avenida a força espiritual e histórica do Bembé. É um enredo que fala de fé coletiva, de resistência cultural e de orgulho da nossa ancestralidade", afirma o carnavalesco.
O presidente Almir Reis destaca o momento vivido pela agremiação: "Encerramos um ciclo glorioso com Neguinho e iniciamos outro com a mesma responsabilidade. A Beija-Flor é maior do que qualquer fase. Confiamos no trabalho que foi feito e na força da nossa comunidade para manter a escola competitiva."
No carro de som, Nino do Milênio e Jéssica Martin assumem a responsabilidade de conduzir o samba-enredo em um ano simbólico. A escolha da dupla por meio de um programa televisivo aproximou o público do processo de definição da nova voz da escola e marcou uma mudança na forma de renovar um dos postos mais emblemáticos do desfile.
A bateria Soberana, comandada por mestre Rodney, promete imprimir cadência firme em sintonia com a atmosfera ritualística proposta pelo enredo, evocando a energia dos atabaques e reforçando a identidade rítmica que sempre foi uma das marcas da Beija-Flor.
À frente do pavilhão azul e branco, Claudinho e Selminha Sorriso completam 30 anos consecutivos defendendo a Beija-Flor na Sapucaí - um feito raro no carnaval - reafirmando técnica, entrosamento e fidelidade a uma das bandeiras mais vitoriosas da história do carnaval carioca.
A campeã em 2025 retorna à Sapucaí unindo memória e renovação. Entre a despedida de uma voz histórica e a aposta em novos intérpretes, a escola transforma a transição em combustível artístico para tentar escrever mais um capítulo vitorioso em sua trajetória.