Por: Fred Soares - Especial para o Correio da Manhã

Carnaval 2026 | Beija-Flor: Um voo para a Santo Amaro do Bembé

Bembé do Recôncavo Baiano ceha ao carnaval carioca sob as asas da Beija-Flor | Foto: Vitor Melo/Rio Carnaval

A Beija-Flor de Nilópolis entra na Marquês de Sapucaí nesta segunda-feira de carnaval para buscar o bicampeonato carregando um marco histórico: será o primeiro desfile da escola desde 1976 - portanto, há 50 anos - sem Neguinho da Beija-Flor como intérprete principal. A voz que atravessou gerações, embalou títulos e se tornou sinônimo do próprio pavilhão azul e branco se despediu após a conquista do campeonato de 2025. Em seu lugar, a escola apresenta uma nova formação no microfone, escolhida por meio do reality show "A Voz do Carnaval", que definiu Nino do Milênio e Jéssica Martin como os novos intérpretes oficiais.

O enredo deste ano, "Bembé", desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo, mergulha na história do Bembé de Santo Amaro da Purificação, manifestação afro-brasileira surgida no final do século XIX, na Bahia, como celebração de liberdade e resistência após a abolição da escravidão. A festa, marcada pela presença dos atabaques, dos rituais de matriz africana e da ocupação coletiva da rua como espaço sagrado, é reconhecida como patrimônio cultural e símbolo de afirmação da cultura negra. Um detalhe: Bembé é uma forma carinhosa que o caloroso povo baiano encontrou para se referirem ao Candomblé. "Queremos trazer para a Avenida a força espiritual e histórica do Bembé. É um enredo que fala de fé coletiva, de resistência cultural e de orgulho da nossa ancestralidade", afirma o carnavalesco.

O presidente Almir Reis destaca o momento vivido pela agremiação: "Encerramos um ciclo glorioso com Neguinho e iniciamos outro com a mesma responsabilidade. A Beija-Flor é maior do que qualquer fase. Confiamos no trabalho que foi feito e na força da nossa comunidade para manter a escola competitiva."

No carro de som, Nino do Milênio e Jéssica Martin assumem a responsabilidade de conduzir o samba-enredo em um ano simbólico. A escolha da dupla por meio de um programa televisivo aproximou o público do processo de definição da nova voz da escola e marcou uma mudança na forma de renovar um dos postos mais emblemáticos do desfile.

A bateria Soberana, comandada por mestre Rodney, promete imprimir cadência firme em sintonia com a atmosfera ritualística proposta pelo enredo, evocando a energia dos atabaques e reforçando a identidade rítmica que sempre foi uma das marcas da Beija-Flor.

À frente do pavilhão azul e branco, Claudinho e Selminha Sorriso completam 30 anos consecutivos defendendo a Beija-Flor na Sapucaí - um feito raro no carnaval - reafirmando técnica, entrosamento e fidelidade a uma das bandeiras mais vitoriosas da história do carnaval carioca.

A campeã em 2025 retorna à Sapucaí unindo memória e renovação. Entre a despedida de uma voz histórica e a aposta em novos intérpretes, a escola transforma a transição em combustível artístico para tentar escrever mais um capítulo vitorioso em sua trajetória.

 

Ficha Técnica

Beija-Flor | Foto: Divulgação

Fundação

25/12/1948

Cores

Azul e Branco

Presidente de Honra

Aniz Abrahão David

Presidente

Almir Reis

Carnavalesco

João Vitor Araújo

Diretores de Carnaval

Marquinho Marino

Intérprete

Nino do Milênio e Jessica Martin

Mestre de Bateria

Rodney e Plínio

Rainha de Bateria

Lorena Raissa

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Claudinho e Selminha Sorriso

Comissão de Frente

Jorge Teixeira e Saulo Finelon

 

Samba-Enredo: Bembé

Autores: Sidney de Pilares, Marquinhos Beija-Flor, Chacal do Sax, Cláudio Gladiador, Marcelo Lepiane,João Conga, Salgado Luz,Julio Assis, Diego Oliveira, Diogo Rosa, Manolo, Julio Alves, Claudio Russo e Léo do Piso

Intérprete: Nino do Milênio e Jéssica Martin

 

Não me peça pra calar minha verdade

pois a nossa liberdade, não depende de papel

em Santo Amaro, todo treze de maio

nossa ancestralidade é festejada à luz do céu

Ê Ê... João de Obá, griô sagrado

Ê Ê... Herança viva no mercado

Cantando, saudamos a nossa fé

às nações do candomblé

onde a paz e o respeito

ressoam no couro do axé funfun

não tememos ataque algum

a rua ocupamos por direito

Põe erva pra defumar

um ebó pra proteger

saraiéié bokunan, saraiéié!

Nosso povo é da encruza

arte preta de terreiro

é mistura de cultura

multidão de macumbeiro

O povo gira no xirê, a celebrar...

A fé se espalha em cada canto, em cada olhar

transborda magia no toque do tambor

às yabás, o balaio e o amor…

Yemanjá alodê no mar (no mar)

é d'Oxum toda beleza do ibá

é reza no corpo, é dança na alma

a rosa, a palma, o Omolocum...

É Dona Canô de todo recanto

evoco a Baixada de todos os santos!

Atabaque ecoou, liberdade que retumba

isso aqui vai virar macumba!

Deixa girar que a rua virou Bembé

deixa girar que a rua virou Bembé

o meu egbé faz valer o seu lugar

laroyê, Beija-Flor, alafiá!