Quem poderia imaginar uma roqueira paulistana virar enredo de escola de samba carioca. Mas Rita Lee (1947-2023), a nossa rainha do Rock, provou em vida a fragilidade dessas fronteiras. A cantora e compositora é a homenageada da Mocidade Independente de Padre Miguel neste carnaval, com o enredo "Rita Lee, a padroeira da liberdade.
O brilho de Rita se espalhou em várias direções. Ela gravou com João Gilberto clássicos como "Joujoux e Balangandãs", de Lamartine Babo; compôs com Roberto de Carvalho o samba "Brasil é com S" (também cantado com João Gilberto); e deu sua versão para o "Samba do Arnesto", de Adoniran Barbosa. A própria "Tum Tum", parceria com Roberto no álbum "Santa Rita de Sampa" (1997), antecipava o enredo: "Eu bato samba de guitarra / Eu gosto tanto de café / Quanto de Coca-Cola... Existem sempre os dois lados da questão". Rita ainda compôs a marchinha carnavalesca "Frou frou" e não escondia sua admiração por Carmen Miranda, chegando a imitá-la em "I like you so much".
Mas não foi apenas essa diversidade musical que atraiu a equipe criativa da verde e branco da Vila Vintém, comandada pelo experiente carnavalesco REnato Lage, quatro vezes campeão na Sapucaí, trê veze com a Mocidade. "Ela foi uma pessoa que teve uma postura contestadora. Alguém muito lúcida e atenta às questões que realmente interessavam. Uma mulher fascinante", reforça Marcelo Misailidis, responsável pela coreografia da comissão de frente da escola.
Com toda sua relevância, a Mocidade entende que o carnaval comporta todas as expressões artísticas. "Os desfiles de escola de samba são uma grande ópera a céu aberto. Eles obedecem toda a característica de narrativa como há em uma ópera, como um enorme espetáculo de grandes cenários e elencos gigantescos. Com essa densidade toda, os desfiles envolvem trabalho musical, artístico e cenográfico, indumentária e dança", argumenta o coreógrafo.
O desfile preparado pelo carnavalesco Renato Lage vai além da biografia da homenageada para destacar o espírito transgressor de Rita e recomendar que quem foge ao padrão vence a regra.
O samba-enredo terá como intéprete Igor Vianna, estreante na escola e que segue os passos do pai Ney Vianna, que defendeu a Mocidade nos anos 1970 e 1980 e foi campeão no carnaval de 1985 com o enredo "Ziriguidum 2001".
Roberto de Carvalho, viúvo de Rita, prometeu estar na avenida com a família e, em visita à quadra durante os preparativos, desejou "que tudo seja perfeito, de acordo com o astral que eu sinto aqui no rolé na Mocidade de Padre Miguel". A agremiação de Padre Miguel, que conquistou títulos em 1979, 1985, 1990, 1991, 1996 e 2017, aposta que a irreverência, a liberdade e o deboche da artista encontram no carnaval um território fértil. Vai ter carnarock na Sapúcaí!