Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Thais Romi: 'O carioca faz sempre um grande espetáculo. É uma magia inexplicável'

Thais desfila como porta-bandeira desde 2009 e tem um trabalho paralelo como fonoaudióloga | Foto: Alex Maia

Com 16 anos de experiência como porta-bandeira, bem-vinda em algumas das agremiações de maior prestígio do carnaval carioca, Thais Romi custou a falar a palavra "água" quando neném, apelando para um barulho gutural, traduzível por sua mãe (a merendeira Ana Rosa) e por seu pai (o vendedor Carlos) como "apu". Repetia seu "apu" com contundência sedenta, trocando-o por uma variação sonora igualmente inventiva, "linhão", quando desejava se referir ao rei dos animais. "Ó lá o linhão, tio", dizia, ao visitar o zoológico. A inventividade dos tempos de criança saiu do âmbito verbal e deslocou-se às pulsões do corpo, num estudo espartano que ela fez do samba, até se transformar em estrela carnavalesca.

No entanto, seus serviços prestados à folia do Rei Momo ampliaram-se também para âmbitos clínicos. Formada em Fonoaudiologia, Thais passou a atender puxadores de grande prestígio da Sapucaí. Convida-os a fazer uma série de exercícios em prol de um canto cristalino, para que nada desafine. Thais faz atendimentos em parceria com a também fono Roberta Camacho, pois o Carnaval exige um bocado dela. E não é só aqui na cidade: "Além do Rio já desfilei no carnaval de Uruguaiana, Belo Horizonte, Três Rios, Niterói e Macaé", lembra Thais. "No Rio, já dancei nas escolas Vizinha Faladeira, Vigário Geral, Paraíso do Tuiuti, Porto da Pedra, Acadêmicos do Cubango, Alegria da Zona Sul, Tradição, Estácio de Sá e São Clemente, em que desfilo na semana este ano".

Ocupada ainda com a criação da sua serelepe filhinha, Helena, de 3 anos, Thais conta ao Correio da Manhã como protege os gogós dos rouxinóis da Sapucaí.

Como funciona o seu trabalho fonoaudiológico com os puxadores de samba? Vai de quando a quando? Quantos você atende hoje?

Thais Romi - O trabalho da fonoaudiologia com os intérpretes das escolas de samba tem como objetivo prevenção e aprimoramento técnico vocal para garantir uma alta performance durante as apresentações, com qualidade. O acompanhamento é feito durante todo o ano e se intensifica quando se aproxima o carnaval. Costumo realizar os exercícios semanalmente e acompanhar nos ensaios de rua. Hoje acompanho os intérpretes das escolas Estácio, São Clemente, Vizinha Faladeira e Mocidade Unida do Santa Marta.

Com que cantores você trabalhou?

Tinganá, Charles Silva, Serginho do Porto, Tem-Tem Jr. Tinguinha. De alguns fiz o carro de som todo.

Qual é a alegria de ver cantores de quem você cuidou brilhando na avenida?

É muito prazeroso notar que o saber no qual me especializei está contribuindo para um espetáculo tão importante para a nossa cultura. Fico toda "boba" quando as cosias saem como o planejado e eles conseguem executar o trabalho com qualidade, sem machucar a garganta. Tenho a consciência de que eles são atletas da voz e precisam e preparar o ano todo para o trabalho não ser tão cansativo na reta final.

Em seu trabalho como porta-bandeira, em que escolas você vai se apresentar?

Como porta-bandeira, este ano estou defendendo dois pavilhões: Unidos do Sacramento de Niterói e São Clemente. Como fonoaudióloga, vou estar na avenida também, a desfilar na Estácio de Sá neste sábado; na Mocidade Unida do Santa Marta e na Vizinha Faladeira, no domingo, só que na Intendente Magalhães.

O que o carnaval te ensina de mais inspirador sobre o Rio de Janeiro?

Que apesar das adversidades e do pouco investimento, especialmente do carnaval de acesso, o carioca faz sempre um grande espetáculo. É uma magia inexplicável. Todos sempre com uma fé inabalável e a certeza que a sua escola fará um carnaval com dignidade.

De que maneira a sua filha, Helena, hoje com quase quatro anos, reage à magia do Carnaval?

Para ela, eu sou uma princesa. Ela sempre vai aos ensaios e dança, canta e vive o carnaval. Ela ama!

Onde você estudou dança e como se preparou para o carnaval?

A dança de mestre-sala e porta-bandeira, eu aprendi na escola do Mestre Manoel Dionísio, no Sambódromo, e depois segui me aperfeiçoando com o coreógrafo João Paulo Machado, no Clube Democráticos, na Lapa.

Você cresceu próxima de um folião de carteirinha do Morro do Adeus, Sebastião Vieira de Morais, o Tio Tatão, que serenou em 2020. De que maneira figuras como ele te inspiraram?

Não posso esquecer de exaltar o apoio da minha família para que eu dê conta de tudo. Não é fácil ter várias funções e tentar falhar o menos possível. Uma lembrança especial fica para o saudoso Tio Tatão, que sempre me apoiou e sempre me fez acreditar que eu poderia chegar longe e realizar meus sonhos.