Por: Fred Soares - Especial para o Correio da Manhã

Carnaval 2026 | Estação Primeira de Mangueira: Louvação ao doutor da floresta

A Mangueira leva sua tradição e potência a Sapucaí num desfile centrado na sabedoria ancestral afro-indígena | Foto: Eduardo Hollanda

A Estação Primeira de Mangueira atravessa a Marquês de Sapucaí neste domingo de carnaval reafirmando sua identidade histórica e musical, com o enredo "Mestre Sacaca do Encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra", que dialoga com memória, resistência e cultura popular. A verde e rosa aposta em uma narrativa que conecta passado e presente, sustentada por um projeto visual consistente e por um samba que rapidamente caiu no gosto da comunidade.

Desenvolvido pelo carnavalesco Sidney França, o enredo homenageia Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca, figura emblemática do Amapá. Curandeiro, pesquisador da medicina popular e profundo conhecedor das ervas e saberes tradicionais da Amazônia, Sacaca tornou-se referência cultural em Macapá ao unir ciência, religiosidade e tradição oral. Sua trajetória representa a resistência dos saberes afro-indígenas e a valorização da cultura amazônica negra, eixo central da proposta mangueirense para este carnaval. "O nosso desfile nasce da escuta da comunidade e da vontade de contar uma história que faça sentido hoje. A Mangueira tem compromisso com sua gente e com o país. É um enredo que emociona, mas também provoca", afirmou o carnavalesco.

A presidente da escola também ressaltou o papel agregador da verde e rosa: "A Mangueira tem uma responsabilidade histórica. Somos uma escola que ajudou a construir a cultura do samba e da música brasileira. Entramos na Avenida com respeito à nossa tradição e confiança no trabalho que foi realizado", disse Guanayra Firmino.

Mas é impossível falar de Mangueira sem destacar sua bateria, conhecida por uma das marcações mais características do carnaval carioca. A batida mangueirense, marcada por uma cadência própria e por uma divisão rítmica que acentua o tempo de maneira singular, cria uma pulsação reconhecível desde os primeiros acordes. É um balanço que não atropela o samba, mas o sustenta com firmeza, valorizando o canto da comunidade e dando identidade sonora inconfundível ao desfile.

Falar de Mangueira é, inevitavelmente, falar da própria história do samba. A escola revelou e acolheu nomes fundamentais da música popular brasileira, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Jamelão, Tantinho e tantos outros que ajudaram a moldar a identidade cultural do país. Essa herança artística não é apenas memória: ela se manifesta a cada desfile, a cada samba entoado na quadra e na Avenida.

Combinando tradição e contemporaneidade, a Mangueira aposta na força de sua comunidade, na consistência do projeto artístico e na potência de seu canto para buscar um desfile que converse com sua história e, ao mesmo tempo, projete novos capítulos para a verde e rosa.

 

Ficha Técnica

Mangueira | Foto: Divulgação

Fundação

28/04/1928

Cores

Verde e Rosa

Presidente de Honra

Eli Gonçalves da Silva (Chininha)

Presidente

Guanayra Firmino

Carnavalesco

Sidnei França

Direção de Carnaval

Dudu Azevedo

Intérprete

Dowglas Diniz

Mestre de Bateria

Taranta Neto e Rodrigo Explosão

Rainha de Bateria

Evelyn Bastos

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Matheus Olivério e Cintya Santos

Comissão de Frente

Karina Dias e Lucas Maciel

 

Samba-Enredo: Mestre Sacaca do encanto tucuju - o guardião da Amazônia negra

Autores: Pedro Terra, Tomaz Miranda, Joãozinho Gomes, Paulo César Feital, Herval Neto e Igor Leal

Intérprete: Dowglas Diniz

Finquei minha raiz

no extremo norte onde começa o meu país

as folhas secas me guiaram ao turé

pintada em verde-e-rosa, jenipapo e urucum

árvore-mulher, mangueira quase centenária

uma nação incorporada

herdeira quilombola, descendente palikur

regateando o amazonas no transe do caxixi

corre água, jorra a vida do oiapoque ao jari

Çai erê, babalaô, Mestre Sacaca

te invoco do meio do mundo pra dentro da mata

Salve o curandeiro, doutor da floresta

preto velho, saravá

macera folha, casca e erva

engarrafa a cura, vem alumiar

defuma folha, casca e erva... Saravá

Negro na marcação do marabaixo

firma o corpo no compasso

com ladrões e ladainhas que ecoam dos porões

ergo e consagro o meu manto

às bençãos do espírito santo e são josé de macapá

sou gira, batuque e dançadeira (areia)

a mão de couro do amassador

encantaria de benzedeira que a amazônia negra eternizou

Vá, Benedita de Oliveira, mãe do Morro de Mangueira

abençoe o jeito tucuju

A magia do meu tambor te

encantou no jequitibá chamei o povo daqui, juntei o povo de lá

na estação primeira do Amapá