Por: Rafael Lima

Carnaval 2026 | Portela: Batuque e dendê em terras gaúchas

A Portela leva à avenida um enredo de africanidade em terras gaúchas | Foto: Eduardo Hollanda/Flick Rio Carnaval


A Portela chega ao Carnaval 2026 em clima de reconstrução, afirmação e reencontro com sua própria grandeza. A Majestade do Samba revive um momento de força coletiva, com a comunidade aquecida, unida e cantando forte, refletindo um trabalho interno que devolveu à azul e branca de Oswaldo Cruz e Madureira a confiança, o orgulho e a vibração que sempre marcaram seus grandes carnavais. O que se vê na preparação é uma Portela viva, pulsante e determinada a ocupar novamente o lugar de protagonismo na Marquês de Sapucaí, vindo para a Avenida carregada no dendê, como canta o próprio samba-enredo.

O enredo "O Mistério do Príncipe do Bará: A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande" leva para a Avenida uma narrativa profunda sobre ancestralidade, fé, espiritualidade e realeza negra.

A escola mergulha na história de Custódio Joaquim de Almeida, figura central na formação do batuque no Rio Grande do Sul, para construir um desfile que conecta passado e presente, exaltando a resistência cultural, a memória afro-brasileira e a permanência dos valores africanos no Brasil. A proposta dialoga diretamente com a tradição portelense de unir poesia, rigor estético e conteúdo histórico.

Nos ensaios técnicos, a Portela mostrou um conjunto consistente, com canto forte da comunidade, evolução segura e envolvimento total dos segmentos. A passagem da escola pela Sapucaí foi marcada por empolgação nas arquibancadas, reforçando a sensação de que a azul e branca chega ao desfile com energia renovada, alto poder de comunicação e uma identidade coletiva fortalecida.

À frente da bateria Tabajara do Samba, Mestre Vitinho comanda um trabalho de precisão, cadência e resposta, sustentando o samba com força, balanço e identidade. A bateria se apresenta como um dos pilares do desempenho portelense para 2026, garantindo impacto sonoro e sustentação rítmica ao longo de todo o desfile.

Outro destaque é a presença de Bianca Monteiro como rainha de bateria. Cria da escola, símbolo de chão e de identidade portelense, Bianca reforça o elo entre comunidade, tradição e representatividade. Sua atuação à frente da Tabajara do Samba potencializa o impacto visual e emocional da bateria, fortalecendo o discurso de uma Portela que valoriza suas raízes e sua própria história.

Com enredo de forte conteúdo simbólico, comunidade engajada, bateria segura e segmentos afinados, a Portela se apresenta para o Carnaval 2026 como uma escola que não apenas busca notas, mas que promete emocionar, comunicar e reafirmar seu papel histórico no carnaval carioca. Uma Majestade que volta à Avenida com voz, alma e a certeza de que sua coroa segue viva sob o céu da Sapucaí.

O clima interno é de confiança e responsabilidade, com dirigentes, artistas e componentes conscientes do peso do pavilhão que defendem. A expectativa é de um desfile competitivo, tecnicamente sólido e capaz de recolocar a Portela no centro das grandes disputas pelo título.

 

Ficha Técnica

Portela | Foto: Divulgação

Fundação

11/04/1923

Cores

Azul e Branco

Presidente de Honra

Vilma Nascimento

Presidente

Junior Escafura

Carnavalesco

André Rodrigues

Diretores de Carnaval

Júnior Schall, Higor Machado e Claudinho Portela

Intérprete

Zé Paulo Sierra

Mestre de Bateria

Vitinho

Rainha de Bateria

Bianca Monteiro

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Marlon Lamar e Squel Jorgea

Comissão de Frente

Cláudia Mota e Edifranc Alves

 

Samba-Enredo: O mistério do príncipe do bará - a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande

Autores: Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena

Intérprete: Zé Paulo Sierra


É Bará, é Bará... Ôô!

Quem rege a sua coroa, Bará?

É o rei de Sapaktá

aláfia do destino no ifá!

Tem mistério que encandeia

pro batuque começar

sou mistério que encendeia

pra Portela incorporar

Vai, negrinho... Vai fazer libertação

resgatar a tradição

onde a áfrica assenta

ó, corre gira, vem revelar

o reino de Ajudá

o pampa é terra negra em sua essência

alupo, meu senhor, alupô!

Vai ter xirê no toque do tambor

alumia o cruzeiro... Chave de encruzilhada

É macumba de Custódio no

romper da madrugada

Curandeiro, feiticeiro,

batuqueiro precursor

pôs a nata no gongá (ô, iaiá!)

fundamento em seu terreiro

resiste a fé no orixá

da crença no mercado

ao rito do rosário

ainda segue vivo o seu legado

Portela... Tu és o próprio trono de Zumbi

do samba, a majestade em cada ori

yalorixá de todo axé

enquanto houver um pastoreio

a chama não apagará

não há demanda que o povo

preto não possa enfrentar

Ae oni Bará! Ae babá lodé!

A Portela reunida carregada no dendê

sob o céu do Rio Grande

tem reza pra abençoar

o príncipe herdeiro da coroa do Bará!